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Cinema

Hamnet retrata o luto da família Shakespeare em filme de Chloé Zhao

Adaptação do romance de Maggie O'Farrell usa a ficção para explorar a dor sem reescrever a história.

Inspirado no romance de Maggie O"Farrell, Hamnet retrata o impacto da morte do filho de Shakespeare sem apresentar como fato histórico a ligação com Hamlet. (Foto: Divulgação)

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Há um detalhe curioso na trajetória de William Shakespeare que atravessou séculos sem resposta definitiva. Em 1596, seu filho Hamnet morreu aos 11 anos. Alguns anos depois, Shakespeare escreveu Hamlet, considerada por muitos sua maior tragédia. A semelhança entre os nomes sempre despertou especulações, mas não existe evidência histórica de que a morte de Hamnet tenha inspirado diretamente a peça. Essa relação é uma hipótese ficcional proposta por Maggie O'Farrell em seu romance e desenvolvida na adaptação cinematográfica de Chloé Zhao.

O filme dirigido por Chloé Zhao, disponível no Prime Vídeo, não pretende reconstruir a biografia de Shakespeare de forma rigorosamente histórica. A proposta é preencher, por meio da ficção, as lacunas deixadas pelos registros sobre a vida da família Shakespeare, sugerindo que a arte pode nascer como tentativa de elaborar uma perda impossível de reparar.

Um Shakespeare longe do pedestal

Essa mudança de perspectiva é um dos aspectos mais elogiados pela crítica. Em vez de acompanhar a ascensão do maior dramaturgo da língua inglesa, o filme concentra sua atenção na família que Shakespeare deixou em Stratford enquanto trabalhava em Londres. Para a crítica de cinema Isabela Boscov, essa escolha permite humanizar uma figura frequentemente tratada como um monumento da literatura. Segundo ela, Zhao evita transformar Shakespeare em um "tótem" e encontra força justamente na intimidade de sua vida doméstica.

O centro dessa história, porém, não é William, mas Agnes — personagem inspirada em Anne Hathaway e interpretada por Jessie Buckley. O uso do nome Agnes também tem fundamento histórico: documentos da época registram a esposa de Shakespeare tanto como Anne quanto como Agnes. O filme acompanha o início da relação do casal, a construção da família e uma rotina marcada por pequenos gestos cotidianos. Essa primeira parte desacelera deliberadamente a narrativa para que o espectador conheça aquelas pessoas antes da tragédia.

Quando o luto ocupa o centro da narrativa

Quando Hamnet morre — no filme, vítima da peste, embora a causa real de sua morte permaneça desconhecida —, a perda não funciona apenas como um ponto de virada do roteiro, mas como o rompimento de um mundo que parecia cuidadosamente construído.

O crítico Waldemar Dalenogare observou em sua resenha que essa é justamente a maior virtude da adaptação: recusar o formato tradicional de cinebiografia. Em vez de celebrar o "gênio Shakespeare", o roteiro prefere investigar como uma família reage ao trauma. Segundo o crítico, essa decisão torna a experiência muito mais íntima e universal do que uma simples reconstrução histórica.

O tratamento dado ao luto talvez seja o elemento que mais aproxima as diferentes análises. Isabela Boscov chama atenção para o fato de o filme explorar não apenas a dor materna, frequentemente retratada pelo cinema, mas também o sofrimento do pai, geralmente tratado de maneira mais discreta. A morte de Hamnet passa a afetar cada personagem de forma distinta, tornando o silêncio tão importante quanto qualquer diálogo.

A linguagem do filme

Grande parte desse impacto vem da maneira como Zhao traduz emoções em imagens. Isabela Boscov destaca o uso constante da paisagem como extensão dos personagens. A natureza exuberante acompanha Agnes em seus momentos de liberdade, enquanto os ambientes domésticos ganham espaço à medida que responsabilidades, perdas e silêncios passam a definir sua vida. O filme comunica estados emocionais sem depender exclusivamente dos diálogos.

Essa sensibilidade também aparece nas atuações. Há consenso entre os críticos de que Jessie Buckley entrega o trabalho mais marcante do elenco. Dalenogare ressalta sua capacidade de transmitir múltiplas emoções apenas pelo olhar e pelos gestos. Já Alissa Wilkinson, em crítica publicada no The New York Times, afirma que Buckley sustenta todo o percurso emocional do filme e transforma o sofrimento de Agnes em algo devastador sem recorrer a excessos.

Paul Mescal, que interpreta Shakespeare, também recebe elogios, embora ocupe uma posição menos central na narrativa. Para Dalenogare, algumas escolhas de adaptação reduzem sua presença em determinados momentos importantes. Ainda assim, Wilkinson observa que seus momentos mais fortes acontecem justamente quando o personagem deixa transparecer, quase sem palavras, o peso da culpa e da ausência.

O que muda em relação ao livro

A crítica do site espanhol Aceprensa, assinada por Ana Sánchez de la Nieta, destaca que Chloé Zhao e Maggie O'Farrell optaram por mudanças significativas em relação ao romance. A narrativa deixa de alternar tempos diferentes e adota uma estrutura cronológica, fortalece a história de amor entre Agnes e William e amplia a presença de Shakespeare. Para a crítica, essas alterações tornam o drama mais acessível e emocionalmente mais intenso do que o livro, preservando sua reflexão sobre o luto enquanto ampliam seu alcance cinematográfico.

Arte, memória e criação

Wilkinson acrescenta outra camada à discussão ao observar que o filme evita transformar a criação de Hamlet em uma revelação simplista. Em vez de sugerir que experiências pessoais são reproduzidas literalmente na arte, a crítica compara o trabalho do artista ao de alguém que recolhe fragmentos da própria vida e, com o tempo, os transforma em algo completamente novo. Essa abordagem impede que a relação entre Hamnet e Hamlet se reduza a uma explicação mecânica para uma das maiores obras da literatura.

O resultado, segundo o conjunto das críticas, é menos uma cinebiografia sobre Shakespeare e mais uma reflexão sobre como o sofrimento altera pessoas, relações e processos criativos. Ao tratar como ficção uma hipótese para a origem de Hamlet, o filme evita apresentar essa interpretação como fato histórico e concentra sua força na dimensão humana do luto. Em vez de oferecer respostas históricas, escolhe investigar uma verdade emocional: a de que algumas perdas jamais desaparecem, apenas encontram novas formas de permanecer vivas através da memória e da arte.

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