Como você se sentiu com essa matéria?

  • Carregando...
“O resgate do soldado Ryan”: “filme de cretino” | Divulgação
“O resgate do soldado Ryan”: “filme de cretino”| Foto: Divulgação

Não faz muito tempo, eu estava em um voo de Nova York para Seattle quando um longo atraso na pista levou a companhia aérea a oferecer aos passageiros um filme de graça. E enquanto os comissários liam as opções em voz alta, um rapaz do outro lado do corredor disse: “Não assisto a filminhos água com açúcar!”.

Sei bem o que ele quis dizer; a mulher ao meu lado também. Filmes água com açúcar (chick flick em inglês, ou “filme de garota”, em referência a romances melosos voltados para o público feminino) têm mais diálogos que perseguições em alta velocidade, mais relacionamentos que efeitos especiais e o suspense que oferecem vem da forma como se vive e não da maneira como se é morto. 

Não questionei sua preferência, mas pensei na lógica do termo que usou; afinal, grande parte das grandes obras que lemos na escola poderia muito bem ser chamada de chick lit (literatura água com açúcar), principalmente se tivessem sido escritas por mulheres. 

Pense: se “Anna Kariênina” fosse de Leah Tolstoy, "A Letra Escarlate", de Nancy Hawthorne, ou "Casa de Bonecas", de Henrietta Ibsen – ou se "O Homem Invisível" fosse "A Mulher Invisível" –, será que teriam sido considerados clássicos?

Suponhamos que Shakespeare fosse realmente a Dama Negra que alguns acham que era. Aposto que a maioria de suas peças e todos seus sonetos teria sido desprezada como um material elizabetano antigo sem graça e enterrado até ser ressuscitado um dia por alguma acadêmica feminista dos dias de hoje. 

De fato, enquanto os homens forem levados a sério ao escreverem sobre a metade feminina do mundo — e as mulheres não forem levadas a sério por escreverem sobre si mesmas, quanto mais sobre eles e as questões públicas —, a lista de Grandes Autores terá mais a ver com poder que talento, mais sobre opinião que experiência. 

De qualquer forma, esse não era o problema do sujeito do avião. Ele só estava querendo achar um filme que quisesse ver. O rótulo chick flick pode ajudá-lo a evitar certas opções, mas não deveria haver outro, que incluísse os filmes de que ele realmente deve gostar? 

Parcialidade injusta

Percebi que o problema começa com a exigência do uso de adjetivos para os que têm menos poder. Assim, há "mulheres romancistas"; "médicos negros", mas não "médicos europeus" ou "norte-americanos"; "soldados gays", mas não "soldados heterossexuais"; "ativistas transgêneros", mas não "ativista cisgênero". 

Como acontece desde sempre, a pessoa que tem poder ganha o substantivo – e a regra –, enquanto o mais fraco fica com o adjetivo. Por isso é que ao passageiro que voava comigo só restou metade do guia de programação. 

A parcialidade é, como sempre, injusta a todos. Inspirada então no filme de guerra monossilábico e sanguinolento com que saímos da pista e alçamos voo, percebi a resposta já quase chegando ao meu destino: o oposto do chick flick é o prick flick (“filme de cretino”). 

O termo não só seria perfeito aos marqueteiros do cinema, como aumentaria o vocabulário dos críticos literários. Por exemplo, poderia caracterizar uma boa parte da ficção contemporânea – obras de Philip Roth a Bret Easton Ellis, por exemplo – como também as peças de David Mamet. Poderia inclusive guiar os leitores para sua não ficção preferida, dos clássicos de Freud à coletânea de programas de rádio de Rush Limbaugh e os tuítes de Donald Trump. 

Acima de tudo, a nova classificação, além de simples, poderia servir de guia aos espectadores, confusos em meio à quantidade infinita de títulos disponíveis para ver. “Filmes de cretinos” pode se referir a quatro tipos de filmes: 

1. Todos os filmes que glorificam a Segunda Guerra Mundial, dos clássicos estrelados por John Wayne e Ronald Reagan a "O Resgate do Soldado Ryan", de Steven Spielberg, no qual o protagonista prefere morrer a ser resgatado. 

2. Todos os filmes que glorificam o Vietnã, as guerras regionais e, mais atualmente, a guerra ao terrorismo: esses talvez não sejam muito divertidos. Primeiro porque o Vietnã foi a primeira guerra relativamente grande que perdemos; depois, porque não somos muito bons de acabar com o terrorismo, mas esses filmes nos permitem ver o caos generalizado em lugares como África, sul da Ásia ou Oriente Médio e assim justificar o que quer que seja que as autoridades estejam fazendo por lá. A violência cinematográfica também nos distrai para o fato de que, desde o 11 de setembro, mais mulheres norte-americanas foram mortas por seus maridos e/ou namorados do que os compatriotas que foram mortos nos tais ataques, nas guerras do Iraque e do Afeganistão... juntos. 

3. Todos os filmes que mostram violência contra as mulheres, de preferência bonitas, sensuais e seminuas — a tendência desses é envolver serras elétricas e festas na casa de alguém, nas versões para adolescentes, e estupradores sádicos e assassinos em série nos longas para adultos. Sem contar, claro, a humilhação e as mortes de mulheres arrogantes para o misógino bem-educado. 

4. Todos os filmes que retratam seres humanos femininos como o único espécime da Terra que não só procura como aprecia a subordinação e a dor: de versões desbotadas da prostituição como "Uma Linda Mulher" (literalmente “desbotada”, já que a grande maioria forçada a se prostituir é de mulheres negras e não brancas) até tramas complexas como "Encaixotando Helena" – sobre o sonho de um homem de amputar os braços e pernas de uma mulher rebelde e que, ao viver na tal da caixa, acaba se apaixonando por ele –, todos oferecem justificativas e até guias aos sadistas de plantão. 

Como vocês podem ver, essa denominação simples poderia guiar o rapaz no avião em meio a uma infinidade de opções, incluindo também as séries de TV das quais fazemos maratonas. Ajuda também as mulheres – e os homens empáticos – a saber o que evitar. 

Pessoas por inteiro

Porém, sou otimista a ponto de acreditar que, se o jovem fosse descrito com um adjetivo trocista, ele também se sentiria limitado e tentaria explorar o que há além dessa condição. Então, uma mulher que dirige algo como "Guerra ao Terror" poderia lhe mostrar que o combate corpo a corpo não é tão simples como nos fizeram crer no estúdio; e que o último episódio da franquia "Guerra nas Estrelas" poderia fazer com que torcesse por uma heroína. 

De quebra, também seria recompensado com filmes irresistíveis como "Estrelas Além do Tempo", sobre três negras cujo intelecto foi a força motriz do programa espacial norte-americano; ou duas histórias universais como as dos garotos perdidos e os homens que se encontraram em "Lion" e "Moonlight". 

Eles também se encaixam na categoria chick flick por abordarem pessoas, não efeitos especiais, e falar mais de relacionamentos que de perseguições. 

Enfim, estou aprendendo – e aposto que o jovem do avião também está – que ver pessoas inteiras na tela nos ajuda a sermos plenos também.

*Gloria Steinem é fundadora da revista Ms. e do Women's Media Center.

Deixe sua opinião
Use este espaço apenas para a comunicação de erros
Máximo de 700 caracteres [0]