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O galês Anthony Hopkins, que pegou o papel porque Sean Connery não quis encarar algo tão diabólico
O galês Anthony Hopkins, que pegou o papel porque Sean Connery não quis encarar algo tão diabólico| Foto: Divulgação MGM

Recém-anunciado com pompa e circunstância como novidade no catálogo da Brasil Paralelo, O Silêncio dos Inocentes (também disponível no Prime Vídeo e para locação via Apple e Google) é uma referência quando o assunto é thriller de terror psicológico desde seu lançamento, em 1991. O filme foi ganhando fama no boca a boca ao ir para os cinemas e terminou arrebatando as cinco principais estatuetas no Oscar: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator, Melhor Atriz e Melhor Roteiro Adaptado. Nunca um filme que flerta com o universo do horror foi tão premiado.

Desde então, sempre que um serial killer ganha as telonas ou inspira uma série, O Silêncio dos Inocentes acaba sendo citado, seja para o bem ou para o mal. Se algum vilão exibe grande astúcia e facilidade para entrar na mente de seu adversário, a figura do psiquiatra canibal Hannibal Lecter é lembrada. Já Jodie Foster tem de conviver com a maldição de nunca mais ter feito uma interpretação tão genial quanto a de Clarice Starling. Quando manda bem, como em O Quarto do Pânico (2002), certos elogios vão na linha “um grande trabalho, que chega perto do que ela alcançou em O Silêncio dos Inocentes...”

E o que esse longa-metragem tem que o coloca em tantas listas de melhores de todos os tempos, tanto em eleições sem recorte por gênero quanto em rankings de veículos especializados em terror e suspense (aí é sempre top 5, no mínimo)? Aqui vão cinco escolhas que garantem O Silêncio dos Inocentes no panteão de grandes obras da sétima arte.

Protagonistas magistrais

É curioso pensar que os papéis principais de O Silêncio dos Inocentes poderiam ter ficado com outros atores. Jodie Foster e Anthony Hopkins não foram as primeiras escolhas de Jonathan Demme. O diretor gostaria de ter contado com Michelle Pfeiffer no papel de Clarice Starling, pois havia ficado impressionado ao trabalhar com a atriz em seu filme anterior, De Caso com a Máfia. Mas o roteiro sombrio assustou a loira. Demme então tentou Meg Ryan, que ficou ainda mais apavorada ao ler o script. Laura Dern também chegou a ser cogitada, mas Jodie Foster pulou na frente ao fazer chegar aos produtores a notícia de que tinha adorado o livro original e a personagem Clarice. Já Hannibal Lecter foi ofertado a Sean Connery, que não quis se meter numa história tão perturbadora. Hopkins foi lembrado por ter brilhado em O Homem Elefante (1980) uma década antes. Ao ler as primeiras páginas do roteiro, o galês avisou seu empresário que aquele era um dos melhores papeis que já tinha sido oferecido a ele. E sua interação com Jodie, separados pelo vidro da prisão de segurança máxima, é a força motriz do filme, com momentos de arrepiar todos os pelos do corpo.

Um diretor multitalentos

Demme não tinha experiência com thrillers do tipo quando procurado para assumi-lo. Ainda por cima ficou sabendo que aquela vaga tinha sido reservada para o ator Gene Hackman, que faria sua estreia como diretor – também foi sondado para fazer o guru de Clarice no FBI, Jack Crawford, mas sua filha ordenou que o pai se afastasse daquele projeto sinistro. Demme abraçou a missão com entusiasmo e o êxito conquistado ajudou a projetar sua carreira, que já tinha realizações impressionantes, caso do concert movie Stop Making Sense, que capturou a performática banda Talking Heads ao vivo e que no ano que vem completa quatro décadas de seu lançamento. Depois, ele dirigiu Philadelphia (1993), que foi um arrasa-quarteirão e se tornou o grande filme a tratar temas como AIDS e homofobia. O diretor morreu em 2017, em decorrência de um câncer no esôfago, aos 73 anos.

A audácia do tema

Fazer um filme sobre um assassino em série nunca é algo trivial. Ainda mais se esse assassino é alguém que se entende como mulher trans, mas foi rejeitado nos hospitais em que buscou fazer a transição por conta de seu comportamento violento. É claro que o movimento LGBT não ficou nada satisfeito quando o filme começou sua ascensão nas salas de cinema e passou a colecionar prêmios. Representantes do movimento feminista também chiaram. Em vez de celebração pela personagem de Jodie Foster se destacar num universo masculino de investigadores de alto nível, sobraram críticas pelo fato de ser uma obra em que mulheres têm suas peles arrancadas com brutalidade. E é bem provável que se O Silêncio dos Inocentes fosse rodado hoje, haveria gritaria também do movimento negro. Afinal, o único preto com fala é um carcereiro que cuida da ala de Hannibal Lecter, e que pouca importância tem na história.

Elenco secundário e pontas espertas

O filme também deve muito aos atores coadjuvantes envolvidos no projeto. O sólido Scott Glenn ficou com aquele papel de chefe e mentor de Clarice oferecido a Gene Hackman, o do ponderado Jack Crawford. E Ted Levine fez o assassino Jame Gumb, o Buffalo Bill, com extrema categoria. A cena em que ele dança Goodbye Horses, canção de Q Lazzarus, e se maquia no espelho é especialmente incômoda. Dois cineastas icônicos fazem pequenas pontas em O Silêncio dos Inocentes: George Romero, o cara que basicamente definiu como os zumbis seriam vistos no cinema, e Roger Corman, o papa dos filmes independentes, cults e de baixo orçamento. Também há um papel de comandante da SWAT dado ao cantor Chris Isaak, conhecido pelo hit Wicked Game.

As várias leituras possíveis

Um dos trunfos do streaming da Brasil Paralelo é oferecer conteúdos extras quando um filme como esse entra em sua plataforma. Dessa vez, um vídeo de 43 minutos foi produzido para ampliar a experiência de ver ou rever O Silêncio dos Inocentes. Ele basicamente é um resumo do ensaio de 100 páginas que Olavo de Carvalho (1947-2022) escreveu sobre a película. Ávido entusiasta de todos os elementos em cena, ele relaciona Hannibal com a figura do diabo, Buffalo Bill como um demônio menor, Clarice como a heroína que luta contra as trevas sem se utilizar de mentiras, e Jack Crawford como o mago, o cérebro que guia sua subordinada pela jornada. E vários outros artigos e livros foram publicados debatendo aspectos desse sucesso de crítica e bilheteria. Quem deseja ir além tem diversas fontes para explorar o fascínio que o filme desperta, até mesmo sua continuação, rodada em 2001, prequelas (2002 e 2007) e séries de TV (Hannibal e Clarice), ainda que esses produtos estejam muitos degraus abaixo.

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