Para alcançar a meta de transformar Curitiba na primeira cidade imunizada da Covid-19, o prefeito Rafael Greca (DEM) está irredutível da decisão de comprar vacinas da Covid-19 fora do Plano Nacional de Imunização do Ministério da Saúde. Nesse cenário, Greca afirma não se importar com posicionamentos contrários de aliados de peso.

As principais notícias do Paraná no seu WhatsApp

Em entrevista à Gazeta do Povo nessa semana, o governador do Paraná, Carlos Massa Ratinho Junior (PSD), afirmou ter plena confiança de que o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, vá dar conta da campanha nacional de vacinação. Além do governador, o secretário estadual de Saúde, Beto Preto, publicou artigo também na Gazeta do Povo afirmando que "a estratégia da vacinação da Covid-19 está ganhando contornos de esquizofrenia", ao criticar a compra de doses fora do Plano Nacional de Imunização.

"Estou cumprindo o meu dever. Discordo do governador e do secretário Beto Preto e isso faz parte da democracia. Mas eles, o governador e o secretário de Saúde, não são eu. Eu sou eu, eles são eles", disse o prefeito, para mais à frente voltar ao tema. "Esquizofrênico seria um ministro da Saúde ou um secretário estadual da Saúde odiar uma cidade que quer imunizar seu povo rapidamente", avalia o prefeito.

Sobre o posicionamento do presidente Jair Bolsonaro e de seu grupo político em defender tratamentos com medicamentos cuja eficácia nunca foi confirmada, como a cloroquina, Greca diz sempre ter sido bem tratado pelo governo federal, mas que contra a ciência não se discute. "Desinformar é matar. Não é lícito a ninguém, nem a secretário, nem a governador, nem a presidente da república, muito menos a ministro da Saúde, matar ou desinformar", enfatiza o prefeito. Confira a entrevista completa em texto e vídeo:

No lançamento da campanha de vacinação, o senhor afirmou que quer transformar Curitiba na primeira cidade imunizada da Covid-19 no Brasil. Mas, para isso, teria que “ter as mãos desamarradas institucionalmente”. Ter as “mãos desamarradas” é ter autorização para que a prefeitura compre vacinas por conta própria, fora do plano nacional do Ministério da Saúde?

Exatamente. Estamos trabalhando nesse sentido. Vamos comprar, temos dinheiro para isso,  R$ 100 milhões do Fundo Emergencial da Pandemia. Enquanto isso não acontece, vamos nesse compasso das vacinas que nos manda o governo federal. No caso da vacina Astrazeneca, vieram doses para 20 mil pessoas e da Coronavac vieram doses para perto de 24 mil pessoas. Até conversei com minha secretária de Saúde sobre o que foi feito em São Paulo, que vão dar uma única dose para todo mundo e aguardar para imunizar pelo menos parcialmente mais gente do que ficar esperando a segunda dose. Mas como estamos sujeitos a que dispõe o senhor doutor Beto Preto [secretário Estadual de Saúde do Paraná] e o Ministério da Saúde, por enquanto vamos manter as coisas como estão.

O senhor foi o primeiro representante do poder executivo a entregar intenção de compra da Coronavac ao Instituto Butantan, em dezembro. Semana passada o senhor disse que pretende importar da Índia a vacina Oxford/Astrazeneca para imunizar 35 mil servidores municipais. O senhor também revelou esta semana que se o Ministério da Saúde não fechar a compra das 54 milhões de doses extras de Coronavac, a prefeitura está disposta a adquirir parte desse lote. O município vai tentar comprar vacina por conta própria porque o senhor não confia no Ministério da Saúde?

Eu até acredito, mas quero ajudar. Quero que o Brasil some de maneira que nossa prosperidade nos permita ajudar o país como um todo. Outro dia recebemos doentes de Rondônia. O relato do enfermeiro que acompanhou esses doentes dizendo como as pessoas desvalidas daquele Brasil profundo foram tão bem recebidas aqui me comoveu às lágrimas. A gratidão desse pobre homem por estarmos fazendo o que aqui é normal, mas que no resto do Brasil não é normal, porque o resto do país vive à exceção da desumanidade, à exceção da falta de gestão e de coordenação. É um custo social e humanitário muito caro. Não podemos viver sujeitos a isso. E a minha alma se recusa a fazer parte desse Brasil que não funciona. Aqui tudo tem que funcionar. E aqui tudo, graças a Deus, funciona.

O governador Ratinho Junior tem dito publicamente, inclusive em entrevista aqui na Gazeta do Povo, que tem plena confiança na gestão do ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, na vacinação. O secretário estadual de Saúde, Beto Preto, chegou a publicar um artigo, também aqui na Gazeta do Povo, reforçando esse posicionamento, dizendo que "a estratégia da vacinação da Covid-19 no Brasil está ganhando contornos de esquizofrenia" por essa busca de vacina por parte de alguns estados e municípios fora do plano do Ministério da Saúde. O senhor se considera em uma corrida esquizofrênica pela vacina?

Não. Eu me considero em uma corrida humanitária por vacina. Estou cumprindo o meu dever. Discordo do governador e do secretário Beto Preto e isso faz parte da democracia. Mas eles não são eu. Eu sou eu, eles são eles.

A secretária municipal de Saúde, Márcia Huçulak, declarou que Curitiba tem capacidade de vacinar toda a população até agosto. Sabemos que o município tem seringas e agulhas, mas não tem o principal, a vacina, que está escassa no mundo todo. Como está a condição para que isso se cumpra?

Até agora a vacina que já coloquei no braço das pessoas é 25% do estoque que dispomos. Onze mil pessoas já receberam a vacina [até a manhã de quinta-feira, dia 28, data da entrevista]. São profissionais de saúde e idosos em situação de gravíssimo risco. Então a gente vai eliminando por partes, do pior para o melhor. Usamos o método de São Francisco de Assis: fazemos um pouquinho de cada vez e no final teremos feito o que antes parecia impossível. Foi assim que agi quando peguei Curitiba arrebentada na minha segunda gestão, vinda do meu antecessor, e consegui deixar Curitiba próspera a ponto de poder prover com R$ 2,8 bilhões o sistema público de saúde e fazer tudo funcionar a contento.

Aliás, estamos em bandeira amarela, após 61 dias de medidas restritivas. A média móvel de casos nos últimos sete dias foi de 502, uma queda de 50%, se comparada com a média anterior. Temos 46 leitos de UTI livres hoje [terça-feira, 28], tendo dado 15 deles para pacientes de Rondônia. Agradeço à população de Curitiba que nos ajudou a estabilizar os índices.

Mas eu lembro: a pandemia está estabilizada, mas ainda não chegou ao fim. Lavem as mãos, se afastem um dos outros, não se amontoem e não sejam ostrogodos, botocudos, estranhos a ponto de querer imaginar que esse vírus não mata. Esse vírus mata! Por favor, ponham na cabeça que ainda é hora de manter as cautelas sociais. A bandeira amarela permite que a gente viva melhor. E se formos inteligentes, poderemos viver melhor enquanto avança a vacinação.

Meu secretário de Finanças, Vitor Puppi, está permanentemente sintonizado com todos os laboratórios. Havendo a possibilidade de compra de vacinas, vamos comprar. E vamos cumprir o plano brasileiro de imunização. Esquizofrênico seria um ministro da Saúde ou um secretário estadual da Saúde odiarem uma cidade que quer imunizar seu povo rapidamente.

Então Curitiba tem condições de cumprir essa meta que a secretária de Saúde apresentou?

Sim. Nós já vacinamos contra a H1N1 ano passado quase 800 mil pessoas. Curitiba tem tradição de saber fazer as coisas.

O senhor se tornou uma das principais vozes de defesa da vacina e contrária ao tratamento com remédios sem eficácia científica comprovada para a Covid-19, como a cloroquina, hidroxicloroquina e ivermectina. Vivemos uma situação no Brasil em que a desinformação é oficial, vem do Palácio do Planalto esse discurso contrário à vacina e a favor de tratamentos sem eficácia. Essa desinformação atrapalhou muito o trabalho na pandemia?

Toda desinformação, ou toda informação falsa, todo factoide, toda ilusão, até que seja pretexto político, significa escuridão, trevas. Estamos acendendo nosso fósforo, acendendo a luz. Quando era criança, me lembro da minha mãe contando quanto havia blecaute no tempo da guerra, que o guarda noturno percorria os bairros para mandar apagar todo tipo de luz, porque na hora do bombardeio o inimigo viria aquela luz acesa. Eu estou acendendo minha lamparina e quero iluminar a escuridão. Quero que o Brasil seja imune, que a economia flua, que possamos viver livres, que a ignorância seja dissipada e que o custo político de uma disputa presidencial não se torne excessivamente caro para nossa população.

Esse custo político não é pago com moeda, é pago com vidas humanas. Já são mais de 200 mil os nossos mortos, os quais lamentamos profundamente. Então como disse o grande Moisés quando gravou as tábuas da lei: [subindo o tom de voz] não matarás, não ma-ta-rás!!!! E desinformar é matar. Não é lícito a ninguém, nem a secretário, nem a governador, nem a presidente da república, muito menos a ministro da Saúde, matar ou desinformar. É preciso fazer tudo certo e de maneira correta para o bem do Brasil.

Como o senhor avalia a gestão do presidente Jair Bolsonaro e do ministro da Saúde, o general do Exército Eduardo Pazuello, à frente da pandemia?

O ministro me tratou sempre muito bem. Não tenho motivo para falar mal dele e muito menos do presidente da República, que também sempre teve boas atitudes em relação a Curitiba. Eu me dou com o líder do governo no Congresso, o Ricardo Barros [deputado federal do Paraná], me dou muito também com o general Augusto Heleno [ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional e um dos principais conselheiros do presidente]. Mas vejo que não pode haver bravatas nesse momento. Agora é hora de agir, de agir e de agir. Não tem volta.

E a questão da cloroquina foi superada, porque não sou eu que estou dizendo [que não tem efeito]. São os 55 maiores hospitais do mundo, é a Organização Mundial de Saúde, e agora também é o Tribunal de Contas da União. E parece até que o Ministério da Saúde aceitou isso, porque semana passada o ministério apagou de seu site qualquer indicação de cloroquina. E também o presidente da República apagou de seu Instagram as suas fotografias segurando as caixinhas de cloroquina.

Então, veja, eles têm até direito de exercer suas posições políticas dentro da democracia. Mas eles não têm o direito de ter uma opinião contrária à ciência. É isso. É bem simples. É como eu, engenheiro, querer negar a resistência dos materiais. Uma viga suporta o peso que lhe for solicitado na proporção do ferro, do cimento, da pedra, que ela possui na sua consistência. Eu não posso advogar que, para ser mais barato ou mais rápido, eu vá fazer uma trincheira com menos ferro, menos aço, menos cimento... A trincheira vai cair. E é mais ou menos isso, levando para a medicina, o que acontece quando não se luta para imunizar a maior parte do povo, da maneira mais rápida possível, quando não se dispõe dos elementos científicos para combater uma doença tão grave como é a causada pelo coronavírus.

O senhor falou que a questão da cloroquina e outros remédios sem efeito para a Covid-19 está ultrapassada com questões judiciais e o próprio Ministério da Saúde tirando de seu site a indicação de uso. Mas isso ainda é muito forte no imaginário da população, tanto que o senhor tem respondido constantemente as pessoas no seu Facebook que pedem para incluir esses tratamentos na rede de saúde municipal. Como tirar isso da cabeça das pessoas, de que é errado, de que não tem comprovação científica?

Pela resistência da luz contra as trevas, pela permanente afirmação daquilo que nos dizem os infectologistas daquilo que é eficaz. Só assim. Não tem outro caminho. E veja, eu até não deveria conversar com as pessoas sobre isso nas minhas mídias sociais, pela boa técnica da política e da comunicação. Mas não dou a mínima para a ideia de ser antipático ou de perder o eleitor. Procuro sempre trabalhar no sentido de fazer a pregação do que é luminoso, do que é correto, do que é eficaz.

Curitiba voltou à bandeira amarela nessa semana, com mais flexibilizações. É a primeira vez que a cidade vai para a bandeira amarela já com a vigência da nova lei municipal 15.799, sancionada nesse mês de janeiro, que multa pessoas que descumprirem as regras de prevenção do coronavírus. Ou seja, agora o município tem um recurso jurídico que permite aplicar multas às pessoas em geral, não só aos estabelecimentos. O senhor pretende usar a lei em casos de aglomerações, como com frequentadores de festas clandestinas?

Pretendo usar a lei sim. Quando faltam os neurônios e o pudor com a saúde coletiva, que arda o bolso, essa “parte do corpo” que faz pensar os que não pensam por si próprios. Fizemos muitas ações educativas. Só ainda não multamos as pessoas individualmente porque a Guarda Municipal ainda não estava treinada para isso. Mas a Guarda está começando a ser treinada para fazer isso. E agora vou ter um secretário de Defesa Social muito eficiente, que é coronel Péricles de Matos, que deve assumir dia 14 de fevereiro, após se desligar do comando da Polícia Militar. O coronel Péricles vai junto com o comandante Celso [Carlos Celso dos Santos Jr, comandante da Guarda Municipal] e demais inspetores da Guarda Municipal agir nesse sentido.

Mas a gente sempre espera que numa cidade inteligente isso não se repita mais. Porque as pessoas que vão às festas são até de uma elite econômica. E a ignorância das elites é imperdoável. A ignorância dos vulneráveis ainda é desculpável pela falta de igualdade, de oportunidade que o nosso país possui. Então, que as elites sejam penalizadas com multa pela sua ousadia de tentar disseminar o vírus.

O senhor tem um desafio na sua nova gestão para quando acabar a pandemia que é desafogar as cirurgias eletivas que tiveram de ser suspensas para que se garantisse leitos e medicamentos para o tratamento da Covid-19. A Secretaria Estadual de Saúde calcula que deve levar dois anos para desafogar as filas de cirurgias deles se a pandemia acabasse hoje. Como está essa situação na rede municipal de Saúde?

Eu nunca proibi cirurgias eletivas emergenciais. Todas as cirurgias de hérnia, cardíacas, oncológicas. As que são necessárias estão sendo feitas. A regulação de Curitiba nunca proibiu, a não ser cirurgias plásticas, estéticas, aquelas cirurgias eletivas mesmo, que podem esperar.

Faremos mutirões e estou estudando manter o Hospital Vitória até o final do ano. Se a pandemia arrefecer, vamos usá-lo como espaço de desafogamento da fila de cirurgias eletivas. Temos essa experiência, pois encontramos uma cidade com tudo represado, herdado do meu antecessor. Em dois anos fizemos com que a fila praticamente ficasse normalizada. Sabemos como fazer e vamos fazê-lo sem medo.

O senhor disse que pretende manter o Hospital Vitória até o fim do ano. Quando a pandemia acabar, haverá um lado bom, que é o fato de o município ficar com um estrutura maior de equipamentos hospitalares adquiridos para a pandemia, inclusive mesmo mais leitos. Como o senhor pretende aproveitar essa estrutura após a pandemia?

Vamos usá-los no SUS curitibano. Agora, veja, o Hospital Vitória não é da prefeitura, ele foi cedido gratuitamente pela Amil por um ano inteiro. Agora foi renovado até março. Parece até que eles querem alugar e eu autorizei alugar até o final do ano, se for possível.

O Instituto de Medicina do Paraná é objeto de uma disputa trabalhista que conseguimos entregar na Justiça para a Santa Casa de Misericórdia administrar. Eles estão trabalhando no sentido de ficarem donos do Instituto de Medicina do Paraná. E aí, claro, a Santa Casa entra no SUS curitibano como nossa parceira.

A maternidade do Bairro Novo vai voltar a ser maternidade. O Hospital Municipal do Idoso, que temos capacidade de transformá-lo inteiro em UTIs, vai voltar a funcionar como hospital, porque as UPAs tanto do Boqueirão, como da Fazendinha, que hoje são leitos clínicos de Covid, vão voltar a ser UPAs.

Então dentro de uma medida de virtude, o que puder, será aproveitado. E o que acabar, vai acabar. O que não podemos é pretender espoliar, por exemplo, o Hospital Vitória. E a Amil nem merece isso porque foi muito solidária com a cidade nos entregando aquele espaço, me livrando da provação de fazer um hospital de campanha, livrando nossas famílias de verem seus doentes morrerem numa tenda. Não precisou isso.

O senhor alegou segurança para escolher o pavilhão do Parque Barigui para centralizar a vacinação da Covid-19, seja no manejo das doses, com menos risco de perda, seja da Guarda Municipal, para que não haja furtos de doses. Mas no Plano Municipal de Imunização consta que os locais de vacinação podem ser ampliados para dez unidades de saúde nos bairros. Quando essa expansão de locais será feita e em que condições?

[Nota da edição: a resposta foi dada poucas horas antes do primeiro dia de aglomeração no pavilhão do Parque Barigui, na quinta-feira (29)] Eu não quis atrapalhar a rotina dos postinhos, até porque alguns estão fechados porque estou usando esse pessoal para manter os hospitais de emergência. É a primeira vez que estamos usando um imunizante que requer cuidados, porque é um vacina emergencial. Se for vacinar você, tenho que anotar todos seus dados, o seu quadro clínico e tenho que ver para poder controlar como você vai reagir. Isso porque pode acontecer de haver alguma alteração no estado geral das pessoas.

Por isso optamos pelo criterioso pavilhão da cura do Parque Barigui, que não está errado, porque vi a vacinação no Japão, na cidade de Tóquio, e o meu pavilhão é melhor do que o de Tóquio. É mais bonito, é mais organizado e mais eficiente do que o de Tóquio. Calem a boca os que estão falando bobagem. Querem furar fila, querem fazer caos e fazer confusão. Não passarão! Vamos fazer tudo direito, como Curitiba merece. E venham brigar comigo se acharem ruim.

63 COMENTÁRIOSDeixe sua opinião
Use este espaço apenas para a comunicação de erros
Máximo de 700 caracteres [0]