
A história de um cientista que construiu um veículo que permitia viajar no tempo e ser testemunha da história, do filme Máquina do Tempo , de 1960, foi um dos acontecimentos marcantes do amor de Mari Kakawa e Hermann Friedrich. Nos votos do casamento, em 2009, eles relembram o desejo de viver juntos na eternidade. “Queremos 800 mil anos de amor”, avisou, na ocasião, Hermann.
“A beleza oriental e o olho puxado eram encantadores”, define o marido. Mari nasceu em Yokohama, no Japão, por desejo da mãe, Nioe, que queria estar perto da família naquele momento. Ganhou dupla cidadania. Uma japonesa e outra brasileira. A família morava em Curitibanos (SC). Diferentemente dos orientais, que são mais reservados, Mari tinha um jeito carinhoso e interessado no convívio com as pessoas. “Gostava muito de estar com crianças”. Foram muitas as tardes nas quais promoveu a hora do game com os filhos de amigos. Ela se divertia como criança. Nos últimos anos, o casal planejava ter um filho. Três dias antes do atropelamento, Mari tinha feito todos os exames para dar o primeiro passo para a realização do sonho.
Hermann se lembra, com saudades, da alegria de Mari quando era surpreendida com um jantar temático em casa. O marido é chef e sommelier. Os pratos tailandeses eram os preferidos dela. Dizia que o marido tinha o poder de adivinhar todos os seus gostos, tamanha a cumplicidade. Também era comum eles saírem para conhecer novos restaurantes. Como Mari não bebia, voltava dirigindo.
A alegria vinha somada a um largo sorriso, lembra a Elisa, irmã da ciclista.“Era a mãe de fim de semana. Enchia de mimos, mas também sabia exigir estudo, educação e atitude perante as pessoas”. Para a enteada Stephanny, Mari era a “boadrasta”. Um pacote completo de alegria e extroversão. “Sempre preocupada com as escolhas e com o futuro”.
Desde 2005, Mari era advogada e gerente-assistente da diretoria de participações na Companhia Paranaense de Energia (Copel). Dedicava-se com afinco ao trabalho. Formada em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), em 1998, passou no Exame da OAB no mesmo ano. Fez diversas pós-graduações e planejava cursar o Mestrado na área de Direito Elétrico, em 2016.
Havia adotado o uso da bicicleta há três anos, segundo Hermann. A mobilidade servia para os passeios em parques e pelo bairro. Há seis meses Mari aderiu ao programa de paraciclos da empresa em que trabalhava. Saía do bairro Jardim das Américas, onde morava, e ia pedalando alguns quilômetros até o Batel.
No dia 10 de abril, ela foi atropelada por um veículo na alça de acesso entre a Avenida Comendador Franco (Avenida das Torres) e a Linha Verde, em Curitiba. Dias depois, o motorista ligou para pedir perdão, conta Hermann.
Com a perda abrupta, ele resolveu que deveria mostrar para a sociedade a importância da conscientização sobre a segurança no trânsito. Com a campanha #permitaavidaandar, pretende evitar o sofrimento de outras famílias. Deixa o viúvo Hermann, a mãe Nioe, quatro irmãos e os sobrinhos.






