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Aniversário de Curitiba

Pioneirismo histórico faz com que Curitiba siga com DNA inovador

Rua XV de Novembro: conclusão em 72 horas
Rua XV de Novembro: conclusão em 72 horas (Foto: Arquivo/Gazeta do Povo)

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Uma cidade planejada e inovadora. Curitiba é conhecida assim não apenas no Brasil, mas também mundo afora, ainda que tenha seus problemas como tantas outras metrópoles. O olhar cuidadoso para o cidadão através das décadas, na busca por melhorias estruturais e sociais, hoje é percebido no título de capital com o melhor índice de desenvolvimento humano, de acordo com um estudo de 2025 da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan).

O IDH — indicador que mede a qualidade de vida com base em emprego, renda, saúde e educação — reflete uma escolha histórica. “Não é por acaso que Curitiba é reconhecida como um resultado das políticas de longo prazo. Ela é pensada há muito tempo com relação a buscar a qualidade de vida, priorizar a questão social e a questão ambiental”, explica a historiadora Raquel Panke Bittencourt, doutora em Desenvolvimento Regional e em Gestão Urbana, e professora da Escola de Educação e Humanidades da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).

Praça Tiradentes: um arquivo a céu aberto

É na Praça Tiradentes que o desenvolvimento da Curitiba se inicia. O local abriga o marco zero, que mostra a partir de onde a cidade começou a se expandir em 1963. Jonatan Silva, jornalista, escritor e criador do canal Curitibando, no Youtube, conta em um de seus vídeos que, por ser o ponto central à época, o primeiro arruamento da vila partiu dali. O sistema composto por 12 vias que já incluía ruas como a XV de Novembro e Riachuelo tinha ligação direta com a praça ou se iniciava naquele ponto.

Para Raquel Bittencourt, a praça funciona como um arquivo a céu aberto, e reflete as transformações de cada época. “Um dos pontos-chave da Praça Tiradentes é a questão da religiosidade, marca de muitas cidades brasileiras. A Catedral Basílica reflete nossa origem colonial”.Já no século 20, reformas buscaram limpar o visual da praça, pensando em torná-la mais moderna e proporcionando que as pessoas pudessem também tomar posse e ter prioridade nesse lugar.

Calçadão da Rua XV: o desenvolvimento a partir do pertencimento

Um dos maiores exemplos do pensamento inovador da capital paranaense, a transformação da Rua XV de Novembro é marcante em diversos sentidos: na motivação em criá-la, na agilidade para ajustá-la e no símbolo que se tornou. O primeiro calçadão do país “nasceu” em 72 horas, sob a gestão de Jaime Lerner, a partir do dia 19 de maio de 1972. Às 18 horas daquela sexta-feira, cordões que fechavam a via havia alguns meses para reparos da Força e Luz, e da Telepar, foram reabertos apenas para que operários começassem o trabalho de calçamento.

A proposta vinha para acabar com o trânsito na região central de Curitiba, mas principalmente para dar ao pedestre o protagonismo. “Ela ocorreu no momento em que outras cidades investiam em obras para o automóvel. Nós trabalhamos no contrafluxo disso. Porém, o mais importante, não foi a obra física do calçadão, mas a revitalização urbana, estimulando atividades que reuniam gente”, contou Jaime Lerner, em entrevista à Gazeta do Povo, na ocasião dos 40 anos de criação da Rua XV.

Essa mentalidade orientada ao automóvel se mostra na fala de um dos comerciantes da região, que tinha receio de que a mudança impactasse ainda mais a economia. Como noticiou a Gazeta do Povo em 23 de maio de 1972, e em edição possível de ser consultada pelo site Memória Paraná, um dono de loja dizia que “se antes era difícil o freguês vir até aqui, quando não encontrava lugar para estacionar, que dirá agora que não pode passar com seu veículo pela rua”. Inclusive, a ideia de iniciar a obra de calçamento em uma sexta-feira foi pensada para evitar que recursos judiciais impedissem o trabalho.

Em 72 horas, um trecho do calçadão já estava concluído. Jaime Lerner lembrou que o resultado foi possível após muita negociação. “Fizemos. Quebramos um paradigma e foi aberta uma legitimidade para as outras mudanças que vieram depois”, disse. Oito dias depois do início das obras, na edição do dia 27 de maio de 1972 da Gazeta do Povo, era noticiado: “População já tem a nova Rua XV”. O jornal contava que no dia anterior, sem nenhuma solenidade, o calçadão havia sido entregue. “Como foi o primeiro calçadão do Brasil, ele consolidou a ideia de que o centro pertence às pessoas e assim seria possível preservar o patrimônio histórico da cidade e estimular a convivência. Esse olhar deu o tom para as futuras intervenções urbanas na cidade”, reforça Raquel.

Mobilidade com um sistema viário pioneiro

A busca por melhores condições de mobilidade e o cuidado com os cidadãos curitibanos, passa, claro, por um sistema viário adequado. E Curitiba foi pioneira entre as cidades com plano diretor mesmo quando ainda não havia a obrigatoriedade. Já na década de 1960 a prefeitura começou a planejar o desenvolvimento da capital, que começava a dar sinais de um crescimento desordenado. Diferentemente do que acontecia à época, com municípios crescendo de forma radial, Curitiba trouxe a perspectiva de um desenvolvimento linear.

“Curitiba tem um reconhecimento mundial justamente porque pensou num sistema que consiste em três vias paralelas: uma central com canaletas exclusivas para ônibus e duas laterais para tráfego rápido de carros em sentidos opostos”, diz a historiadora Raquel. “Essa estrutura proporcionou o crescimento para além do centro urbano. O sistema viário disse para onde a cidade deveria crescer”, afirma.

E em 1974, dois anos após a criação do calçadão da Rua XV, Curitiba apresentou mais uma inovação, com a chegada da linha de ônibus expresso. Na edição de 22 de setembro daquele ano, na capa da Gazeta do Povo, um comunicado do prefeito Jaime Lerner avisava que às 10 horas a linha começaria a funcionar. Lerner pedia também a compreensão da população ao entregar o benefício “e o mesmo otimismo que levou a prefeitura a implantar este sistema de transporte”. A reportagem sobre o assunto informava que "o expresso será constante e confortável e dará as opções necessárias para o curitibano deixar seu carro em casa e fazer uso do ônibus".

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