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Uma propriedade rural pode ter poucos hectares e, ainda assim, abrigar um negócio de alto potencial econômico e grande complexidade. No Oeste do Paraná, famílias que combinaram grãos com aves, suínos, peixes e gado bovino ampliaram as fontes de receita, aproveitaram melhor a estrutura disponível e reduziram a dependência de uma única atividade. O resultado é uma mudança no peso econômico da terra: em vez de crescer para os lados, a propriedade passa a gerar mais valor dentro da mesma área.
As experiências de Lauro Soethe, em Santa Helena, e Raquel Claus, em Palotina, ilustram como essa estratégia de intensificação produtiva transforma pequenas propriedades. E mexe com a própria economia dos municípios onde vivem.
Santa Helena alcançou Valor Bruto da Produção Agropecuária (VBP) de R$ 2,73 bilhões em 2025, o quarto maior entre os 399 municípios paranaenses. Quase 89% vieram da pecuária. Palotina ocupou a 11ª posição no Estado, com R$ 1,94 bilhão. A criação de animais respondeu por cerca de 68% desse valor.
Os dois municípios integram uma região onde as cadeias de proteína animal ganharam densidade e escala. Os grãos continuam importantes, mas já não carregam sozinhos o peso da economia rural. Em 2024, o Oeste concentrava 64,9% do efetivo suíno do Paraná e respondia por 80,5% da tilápia produzida no Estado, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em dez anos, a produção regional do peixe saltou de 36,6 mil para 153,3 mil toneladas.
"Se não fosse dessa forma, não estaríamos mais na atividade"
A diversificação dessas propriedades está ligada a gigantes do cooperativismo agroindustrial. Raquel é associada da C.Vale, que reúne mais de 31 mil cooperados e faturou R$ 25,2 bilhões em 2025. Lauro integra a Lar, formada por aproximadamente 17 mil famílias e com receita líquida superior a R$ 23,2 bilhões no mesmo ano.
Essas estruturas conectam pequenas propriedades a cadeias produtivas de grande escala. Grãos viram ração, abastecem a criação de animais e chegam às indústrias antes de alcançar consumidores no Brasil e no exterior. No sistema de integração, a cooperativa fornece animais, insumos, assistência técnica e acesso ao mercado. O produtor entra com o investimento, a mão de obra e a gestão cotidiana.
“Não tenho dúvida de que, se não fosse dessa forma, com a cooperativa, certamente não estaríamos mais na atividade agrícola. Em uma pequena propriedade, plantar soja e milho já não gera renda suficiente para manter a família”, afirma Lauro Soethe.
Cooperação traz tecnologia, industrialização e acesso a mercados
Para o economista Valdir Galante, professor da graduação em Economia e do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional e Agronegócio da Unioeste, em Toledo, essa organização compensa parte das limitações da pequena escala. Reunidos, os produtores ganham acesso a tecnologia, industrialização e mercados que dificilmente alcançariam sozinhos.
No Oeste paranaense, onde predominam pequenas propriedades, ele vê a combinação de atividades agrícolas e pecuárias como uma estratégia de sobrevivência e melhoria da renda, frequentemente ligada às cooperativas. Os efeitos também chegam aos municípios, com maior circulação de renda e estímulo a outras atividades econômicas.
“Não é por acaso que as maiores cooperativas agropecuárias do Brasil atuam no Oeste do Paraná. Também não é por acaso o relevante padrão de desenvolvimento da região nas últimas décadas, apesar de ser geograficamente periférica”, afirma Galante.
Diversificação sustenta gerações em Santa Helena
Quando Lauro Soethe assumiu a propriedade dos sogros, no início dos anos 1990, a área tinha 17 hectares, ocupados por soja, trigo e uma pequena criação de suínos. A entrada na integração da Lar permitiu ampliar as atividades, com suinocultura, avicultura e, posteriormente, bovinocultura.
Mais de três décadas depois, a propriedade reúne aproximadamente 85 hectares. Cerca de 50 são destinados à soja no verão e ao milho na segunda safra. O restante abriga as estruturas de aves e suínos e a criação de bovinos.
A diversificação também mudou a composição da receita. As aves respondem por 40% do faturamento, os suínos por 35%, os grãos por 17% e os bovinos pelos 8% restantes.
Aos 63 anos, Lauro divide a gestão com os dois filhos e uma nora, todos formados em Agronomia. A propriedade gera emprego e renda para outros 15 funcionários.

Em Palotina, grãos dividem espaço com peixes e suínos
A trajetória de Raquel Claus e do esposo, Giuliano, também é marcada pela volta ao campo. Em 2016, o casal deixou a cidade para morar com os pais dela em uma propriedade até então dedicada aos grãos. A diversificação começou em 2021, com a implantação do primeiro crechário de suínos, em integração com a C.Vale.
Hoje, a família combina grãos, suínos, peixes juvenis e pré-secado. Os cinco tanques produzem cerca de 9 milhões de juvenis por ano. Com a ampliação do segundo crechário, a capacidade da suinocultura deverá chegar a aproximadamente 49 mil leitões anuais. Os dejetos dos animais fertilizam a área de pré-secado, cuja produção alcança 1,5 mil bolas por ano.
Em 2025, a soja respondeu por cerca de 35% da receita, praticamente empatada com os peixes, com 34%. A suinocultura representou 20% e o pré-secado, 12%. Os percentuais, arredondados, mostram que nenhuma atividade determinou sozinha o resultado do ano.
“Olhando para trás, vejo que, se eu não tivesse voltado, nada disso teria acontecido”, afirma Raquel, que, aos 42 anos, se define como “uma grande produtora rural de uma área pequena”.
Para Fernando Varolo, gerente do Departamento de Produção Animal da C.Vale, os investimentos realizados mostram que a mudança se tornou economicamente viável. “Eles estão lá vivendo disso e prosperando com essas atividades”, afirma.
Com riscos divididos, uma atividade protege a outra
Os grãos continuam sendo a base de muitas propriedades do Oeste. O problema econômico está na concentração da receita em uma única atividade. O agricultor planta exposto ao clima, ao câmbio e aos custos dos insumos. Na hora da venda, fica sujeito à demanda internacional e a cotações formadas a milhares de quilômetros dali.
“A demanda e os preços são determinados fora do controle do produtor, frequentemente fora do país. Ou seja, ele não escolhe por quanto vender”, explica Galante.
A diversificação distribui parte dessa exposição entre atividades sujeitas a fatores diferentes. Também permite aproveitar melhor a mão de obra e os equipamentos da propriedade e distribuir a entrada de receita entre ciclos de produção distintos. A proteção, porém, não é completa: as cadeias continuam parcialmente conectadas.
Nos lotes integrados, entretanto, a oscilação tende a ser menor. “Na lavoura, você pode perder a safra inteira. No lote, dificilmente perde um lote inteiro. Geralmente há uma variação de 10% a 15%, para mais ou para menos, mas existe uma estabilidade”, compara Varolo.
Gestão fica mais complexa e exige planejamento
Lauro Soethe percebeu esse equilíbrio nos anos em que o resultado da lavoura ficou abaixo do esperado. “Quando uma atividade enfrenta alguma dificuldade e a renda diminui, outra normalmente está um pouco melhor e complementa o resultado. Em anos de frustração da safra de grãos, as atividades pecuárias sempre conseguiram manter pelo menos parte da renda”, conta.
A estratégia, no entanto, exige capital e gestão. Aviários, tanques e crechários demandam investimento, financiamento, energia, mão de obra e controle sanitário. Sem planejamento, a atividade criada para distribuir riscos pode acrescentar dívidas e comprometer o resultado.
“Mantemos custos, investimentos e resultados acompanhados, porque entendemos que produzir bem é fundamental, mas conhecer os números da propriedade também é indispensável”, afirma Raquel.






