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| Foto: Marcelo Andrade/Gazeta do Povo

O exército de pessoas em busca de emprego no país ultrapassou a marca histórica de 11 milhões no primeiro trimestre. Mesmo assim, as empresas se queixam de que ficou mais difícil preencher vagas. Segundo especialistas, a crise aumentou o descompasso entre o contingente à procura de trabalho e quem quer contratar. Em média, o número de candidatos por vaga triplicou, de acordo com as agências de recrutamento e seleção de pessoal. Com a recessão, mais gente sem qualificação ou experiência procura uma ocupação. Ao mesmo tempo, as empresas, diante da necessidade de enxugar custos, elevaram as exigências aos candidatos que, por um salário menor, têm de se desdobrar em múltiplas atividades. Somente na última sexta-feira, um dos principais sites de busca de emprego na internet oferecia cerca de 700 mil oportunidades de trabalho em todos os estados do país.

“A exigência está um pouco diferente. A reposição de funcionários privilegia quem pode entregar mais por um salário menor, e o processo seletivo fica mais difícil. As empresas querem pessoas com conhecimento mais amplo, prontas, porque precisam de resultados a curto prazo”, avalia Luis Testa, diretor de Marketing da Catho.

Anteriormente, explica Testa, uma pessoa era contratada na área administrativa somente para cuidar da gestão de contratos. Hoje, esse funcionário “três em um” também terá de cuidar da gestão de fornecedores e da compra de material. Para ser selecionado, o candidato precisa ter conhecimento em todas essas áreas.

A última edição de uma pesquisa anual da agência de recrutamento e seleção ManPowerGroup, realizada com 41,7 mil empresários de 42 países, apontou que o Brasil é a quarta nação onde os empregadores têm mais dificuldades para preencher vagas. Só perde para Japão, Peru e Hong Kong e empata com a Romênia. Globalmente, 38% dos empregadores pesquisados disseram ter dificuldades de preencher vagas. No Brasil, essa proporção sobe para 61%. As principais dificuldades relatadas são falta de candidatos ou de aspirantes com habilidades técnicas e experiência.

Para Paulo Sardinha, presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos no Rio de Janeiro (ABRH-RJ), empresas e trabalhadores se despreocuparam com a qualificação nos últimos anos. “São ironias que surgem num sistema produtivo de trabalho. Quando o mercado está bom, não se tem tempo de qualificar. Os brasileiros são pouco produtivos, e você precisa usar a mão de obra por mais tempo para dar conta de um volume grande de trabalho, como se tinha nos anos de pleno emprego. As empresas não investiram em capacitações internas, e os trabalhadores se acomodaram, já que havia emprego para todo mundo.”

Segundo as agências, hoje há mais pessoas sem qualificação ou com pouca experiência buscando emprego porque jovens, mulheres e até aposentados – que antes não trabalhavam – agora precisam ajudar a recompor a renda familiar, que foi corroída pela inflação ou caiu em razão da perda do emprego por um dos integrantes.

Seleção

Falhas na apresentação e no comportamento na hora da entrevista também são comuns, principalmente no caso de quem passou a procurar emprego há pouco tempo. Recrutadores já viram de tudo: do vestuário informal, como bermudas e miniblusas, ao comportamento inadequado. Há quem compareça a entrevistas com fone de ouvido ou atrapalhe a apresentação de outros candidatos conversando com o colega ao lado.

A disposição para aceitar qualquer trabalho é um discurso comum entre quem procura emprego em tempos de recessão. Mas, aos olhos dos empregadores, essa manifestação pode não ser bem vista, alerta o diretor de operações da agência Luandre, Fenando Medina. “Você não pode dizer ‘faço qualquer coisa’. Isso pega muito mal. Demonstra desespero e falta de foco.”

Esse tipo de comportamento também tem dificultado a reinserção de profissionais mais experientes e qualificados, que perderam o emprego por receberem salários mais altos. Hoje, para se recolocar, aceitam ganhar menos e até se candidatam a vagas de perfil júnior. Os empregadores receiam contratá-los, aponta Medina, porque avaliam que, a médio prazo, esse profissional vai acabar deixando a empresa, gerando custos com demissão e uma nova contratação. “As pessoas têm contas para pagar e estão dispostas a dar um passo atrás, aceitando cargos e salários mais baixos. Mas, depois de seis meses, podem ficar insatisfeitas e desmotivadas.”

Teresa Fraga, presidente da agência DSRH, conta que clientes têm preterido candidatos subdimensionados em razão do que chama de fator “ponte”. “São profissionais que tendem a ficar nessa função como ponte até poder voltar ao ponto em que estavam antes. As empresas querem pessoas que queiram crescer na empresa.”

A diretora de RH da ManPowerGroup, Márcia Almström, lembra que toda crise econômica resulta na reestruturação do mercado de trabalho. “Uma crise sempre tem grandes efeitos. A crise global e financeira de 2008/2009 provocou uma saída de profissionais para outros mercados e mudanças de carreira. As pessoas, num momento como esse, acabam migrando para áreas onde há trabalho.”

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