Bolsa bate recorde de pessoas físicas cadastradas. Mas você sabe como começar a investir em ações?| Foto: Garoa Fotografia/B3/Divulgação
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Com a baixa histórica da taxa de juros no Brasil, muitos investidores se viram tentados a procurar novas fontes para aplicação de recursos e movimentar o próprio capital. Com isso, a Bolsa de Valores tem atraído cada vez mais a atenção de aplicadores na expectativa de melhores rendimentos, mesmo em tempos de pandemia.

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Dados da B3, a bolsa brasileira, indicam que em agosto o número de pessoas físicas com conta aberta na instituição chegou perto dos 3 milhões (eram 2.958.442 CPFs cadastrados), contra pouco mais de 30 mil pessoas jurídicas. Se comparado a dezembro de 2019 o crescimento chega a 76%. Grande parte desse aumento surgiu logo no início da pandemia. De março a agosto deste ano o incremento de novas contas foi de 52%.

Mas, apesar desse crescimento, muita gente ainda não sabe como investir em renda variável, tampouco está habituada aos jargões do mercado financeiro. Além disso, com a profusão de corretoras, o que facilita o acesso à B3, muitas pessoas se sentem perdidas antes mesmo de começarem a investir.

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A Gazeta do Povo elaborou um pequeno guia com dicas para você dar os primeiros passos na Bolsa de Valores e investir em ações.

Investir em renda variável exige paciência

O mais importante antes de entrar nesse campo da renda variável é ter em mente que o lucro não é certo e que o auxílio de profissionais gabaritados para te orientar nos primeiros passos, além de muito estudo, são primordiais para escapar das armadilhas. Num primeiro momento fuja das operações de curto prazo – compra e venda de ações antes de um ano – e tenha muita paciência nas quedas decorrentes que vão ocorrer durante o período.

Analise seu perfil de investidor antes de entrar na Bolsa

De acordo com Pedro Lang, head de renda variável da Valor Investimentos, antes mesmo de pensar em entrar nesse mercado é necessário ver se você tem o perfil necessário. Caso contrário, é melhor nem se arriscar para evitar dores de cabeça e prejuízos certos. “Tem gente que não deveria investir em Bolsa”, enfatiza.

Segundo o especialista, são três as características daqueles que devem passar longe dos pregões. A primeira é a pessoa que vai precisar desse dinheiro num curto período de tempo. É sempre importante ter em mente que a renda variável é uma aplicação de médio e longo prazo. “Quando você tem alguma coisa planejada para realizar com aquele dinheiro em um curto ou médio prazo, você não deve em hipótese alguma investir na bolsa. Vai chegar lá na frente, a bolsa cai e o investidor, que vai precisar dos recursos, ficará no prejuízo”, alerta.

Outro aspecto é pensar na amplitude dos seus sonhos. Se você já tem certa estabilidade, um dinheiro guardado e não tem grandes ambições num longo prazo, não faz muito sentido se arriscar nesse mercado.

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O último aspecto destacado são os nervos de aço para as oscilações da Bolsa. De acordo com Lang, tem gente que não aguenta ver o dinheiro desvalorizar e investir em ações nada mais é que testemunhar a sua aplicação perder valor em alguns momentos. Investir em renda variável é saber administrar e tolerar riscos.

“As pessoas muitas vezes vêm para o mercado de ações em busca de uma maior rentabilidade, que não deixa de ser legítimo, mas na primeira balançada ela sai. Supondo que esse investidor tinha R$ 100 mil e perdeu 10% desse valor, ou R$ 10 mil, para ele recuperar esse prejuízo na renda fixa e começar a ganhar novamente vai demorar uma eternidade”, alerta.

Diversifique os investimentos

Antes de entrar de cabeça nos investimentos de renda variável pensando apenas na rentabilidade, busque construir uma carteira diversificada. Nunca é demais relembrar que para reservas de emergência, a renda fixa ainda é a melhor opção.

Depois de construído esse colchão, busque diversificar, mas não pulverizar, seus investimentos: não é recomendado investir todos os seus recursos numa única aplicação. Parece básico, mas muita gente se deixa levar pelo aparente ganho fácil da balança de ações e acaba tendo reduzido o único dinheiro disponível.

Abra conta em uma corretora

O primeiro passo para se investir na bolsa de valores é abrir uma conta em uma corretora de valores de sua confiança, independente ou ligada a um banco, que em seguida irá traçar o seu perfil de investimento. Essas corretoras são credenciadas para operar na B3 e emitir ordens de compra e venda de ações.

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Na hora da escolha, avalie as taxas de corretagem – valor cobrado cada vez que você compra ou vende uma ação - ou o sistema de taxa variável - porcentagem sobre o valor operado pelo investidor.

Algumas ainda podem cobrar a chamada taxa de custódia, que é quando a corretora é remunerada pela guarda das ações por um determinado período. Atualmente 90 corretoras estão listadas no site da B3 e todas elas podem auxiliar na realização de negócios.

Escolha o modelo operacional: home broker ou mesa de operações?

Existem basicamente duas maneiras de operar no mercado de ações. Você pode optar pelas negociações por meio da mesa de operações, que é quando o investidor comunica e autoriza o corretor a realizar as ordens de compra e venda de ações. Nesse caso podem ocorrer taxas de corretagem, que normalmente seguem uma tabela pré-determinada.

Outra via é operar por meio dos chamados home brokers, que são os sistemas oferecidos pelas próprias corretoras, que conectam o investidor ao mercado de ações. Dessa forma você pode lançar operações de compra e venda diretamente do seu dispositivo conectado à internet de forma simples e administra a sua carteira de ações individualmente.

O ideal é escolher corretoras que ofereçam um sistema estável, seguro e rápido. Feito isso, o próprio operador da corretora que escolheu pode auxiliá-lo nas primeiras vezes em que for utilizá-lo. “Geralmente as corretoras têm algumas carteiras recomendadas, que são as sugestões da própria empresa para determinados ativos. Essa é uma saída para quem tem pouco tempo para acompanhar de perto o mercado financeiro”, sugere Lang.

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Escolha a ação que deseja comprar

Essa com certeza é a parte que vai demandar mais estudos e atenção. Além das dicas do corretor, procure ler muito sobre a empresa em que pretende investir. Avalie a cotação atual da ação, o histórico de altas e quedas – análise técnica – para descobrir tendências de curto, médio e longo prazo. Outra análise possível de se fazer é a fundamentalista, quando o investidor avalia a empresa de acordo com sua situação de mercado, financeira – balancetes patrimoniais – e até mesmo política.

Uma dica é sempre ficar de olho nos relatórios elaborados por analistas que são especialistas no mercado de ações e seguir as recomendações. Grande parte das corretoras oferece esse tipo de estudo aos clientes investidores. “Na falta de tempo, o interessante é relegar a sua tomada de decisões para um gestor e investir em um fundo de ações, pagando uma taxa de administração e performance. Você delega essa tarefa para um gestor profissional tomar a decisão por você”, orienta o especialista da Valor.

Agora se a pessoa quiser se desenvolver, aprender e entender melhor o mercado de ações por conta própria, é interessante dar um passo atrás e estudar antes de aplicar o dinheiro na renda variável.

“Essa pode ser uma jornada muito engrandecedora em vários aspectos. Mas supondo que a pessoa não vai fazer isso, é pegar sugestões das casas de análises, das corretoras e entender os relatórios, formar a própria opinião e criar o próprio portfólio aos poucos. Nesse aspecto, para os investidores mais conservadores, é importante ter uma boa diversificação, não menos que 5 ou 6 ativos. O nível de concentração é perigoso”, diz.

A partir de quanto eu posso investir na Bolsa?

No mercado de ações não existe um valor mínimo para ser aplicado. Entretanto, é importante ficar atento de que um recurso muito baixo pode inviabilizar a sua permanência na Bolsa pois, muitas vezes, as taxas de corretagem e o custo operacional podem consumir uma parte importante desses valores aplicados.

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Empresas abrindo capital na Bolsa são boa opção?

A B3 está vivendo um momento de explosão de ofertas de abertura de capital: diversas empresas já fizeram ou solicitaram seus IPOs e também há um movimento interessante de follow on no mercado nacional. Mas será que vale a pena investir nessas novas ações?

Lang faz o alerta de que o momento de bolsa em euforia acaba trazendo pessoas e empresas para o mercado, uma vez que as companhias aproveitam essa situação para vender suas ações por um preço mais atrativo. Bolsa é uma questão de oferta e demanda e, nesse caso, não seria diferente.

“Historicamente essa é uma boa oportunidade de investimento”, diz. Mas a regra de ouro é: um investidor novo sempre deve ver com desconfiança uma empresa nova no mercado, pois ele não tem o recurso do histórico de negociação disponível naquele momento.

Nesses casos, o estudo e a pesquisa, mais uma vez, são aliados. “É preciso gastar o dobro ou até o triplo de tempo de análise nessa empresa que está entrando. Lembre-se de que a Bolsa tem 500 empresas. Uma estreia é apenas mais uma empresa dentre elas. É mais uma oportunidade”, conclui.

Simuladores ajudam a praticar e entender o mercado

Se mesmo assim você ainda se sente inseguro em dar um passo mais arriscado na bolsa de valores, o ideal é começar a investir de maneira fictícia por meio dos simuladores do mercado de ações disponíveis na internet, alguns deles de forma gratuita. Dessa maneira você pode acompanhar a volatilidade do mercado e aprender, quase que na prática, um pouco mais sobre o mundo dos investimentos em renda variável.

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Infográficos Gazeta do Povo[Clique para ampliar]