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Pós-covid

Ressaca da pandemia: retomada do Brasil deve ser mais lenta que em 90% dos países

    • Estadão Conteúdo
    • 16/06/2020 14:02
    Shopping de São Paulo volta a receber clientes após longo período fechado: economia do Brasil vai demorar para se recuperar da crise causada pela coronavírus.
    Shopping de São Paulo volta a receber clientes após longo período fechado: economia do Brasil vai demorar para se recuperar da crise causada pela coronavírus.| Foto: Nelson Almeida/AFP

    A recuperação do mundo após a pandemia do novo coronavírus será mais difícil agora do que foi em recessões anteriores — e especialmente para os brasileiros. Nove em cada dez países devem atravessar esta crise melhor do que o Brasil, de acordo com levantamento que cruza previsões do Fundo Monetário Internacional (FMI) com a edição mais recente do Boletim Focus, do Banco Central.

    A expectativa é que o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro desabe este ano e tenha uma recuperação tímida no ano que vem, com o impacto econômico das medidas de isolamento social implementadas para conter a covid-19. No biênio 2020/2021, o PIB deve cair 1,6%.

    O levantamento do pesquisador Marcel Balassiano, do Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), aponta que o Brasil ficará na 171ª posição entre 192 países. Na lista dos sul-americanos, apenas a Venezuela terá um resultado pior e deve ficar em penúltimo lugar. Enquanto isso, a China, onde a epidemia começou, poderá crescer 5,1%.

    "O Brasil vive uma crise de saúde e uma crise política ao mesmo tempo, isso não tem paralelo internacional. O otimismo do começo do ano com o país ficou para trás e os principais agentes preveem uma queda forte para a economia nacional este ano", avalia Balassiano.

    Ele lembra que as perspectivas do FMI e do Focus estão até otimistas, na comparação com outros agentes internacionais, como o Banco Mundial, que já espera uma queda de 3% para o Brasil neste biênio. "O FMI deve fazer uma nova rodada de previsões no mês que vem e o desempenho esperado para o Brasil deve ser ainda pior."

    Brasil começa largando atrás

    Um agravante para o baixo desempenho da economia brasileira é que o país já crescia pouco mesmo antes da pandemia. Desde 2017, o Brasil vinha crescendo na casa de 1%, após duas quedas seguidas de mais de 3%. O país estava atrás da maior parte do mundo: para se ter uma ideia, sete em cada dez países cresceram mais do que o Brasil no ano passado, ainda segundo o FMI.

    "O Brasil veio de uma recessão forte e não conseguiu sair rápido dela. Entramos na crise atual com desemprego em dois dígitos e quase 70 milhões de vulneráveis", diz Balassiano.

    Já sob efeito da pandemia, a desocupação era de 12,6% no trimestre até abril, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, do IBGE. Como muita gente não consegue sair de casa para procurar trabalho, estima-se que a taxa seja, na verdade, de 16%, segundo o Itaú Unibanco.

    O economista Luiz Carlos Mendonça de Barros, ex-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), avalia que a crise da covid-19 deve marcar uma geração. "Órgãos como a OCDE (o clube dos países ricos) falam que será a pior crise em cem anos. A forma como a enfrentarmos será lembrada por anos."

    Condução oscilante deve afetar recuperação

    Na avaliação de economistas, a forma descoordenada como o Brasil vem lidando com a pandemia faz com que as medidas de distanciamento durem mais e sejam menos efetivas do que as soluções encontradas por outros países, o que vai prejudicar a recuperação da economia brasileira.

    Eles ressaltam que, embora políticas importantes como a implementação do auxílio emergencial de até R$ 1.200 para desempregados e informais tenham sido acertadas, a falta de organização levou uma multidão de brasileiros de baixa renda a se aglomerar nas agências da Caixa Econômica Federal, prejudicando o isolamento.

    Outras medidas, como as linhas de crédito, sobretudo para as empresas médias e menores, não chegaram na ponta. Uma pesquisa da FGV e do Sebrae apontava que, até o mês passado, 38% dos empresários solicitaram crédito. Desses, só 14% receberam e 86% aguardavam ou tiveram o pedido negado.

    O balanço é que, na contramão de outros países, o governo federal coleciona uma série de erros. Nos últimos meses, o presidente Jair Bolsonaro chegou a subestimar a gravidade da covid-19 e insistiu no isolamento vertical. O governo alterou o protocolo para a hidroxicloroquina e tentou mexer na divulgação do número de mortes.

    O ex-presidente do BNDES Luiz Carlos Mendonça de Barros lembra que o mundo inteiro terá o grande desafio de se recuperar após o baque de 2020. "A Alemanha, pela primeira vez na história recente, vai reduzir o imposto sobre o consumo, dar um bônus de US$ 300 para as famílias de baixa renda, socorrer empresas. É o caminho."

    Ele avalia que o governo brasileiro precisa fazer um novo pacote fiscal para acelerar a recuperação a partir do ano que vem. "O problema aqui é que o governo é uma bagunça. Mas é preciso acenar com um projeto de reconstrução para depois da quarentena, dar esperança, mostrar à sociedade que algo está sendo planejado."

    "Estamos há mais de 90 dias sem sair de casa e a curva está subindo. Na Espanha, foram 45 dias de lockdown total e eles começaram a reabrir em maio. Outros países que reabriram, como Portugal, chegaram a trancar fronteiras", compara José Luis Oreiro, professor da Universidade de Brasília (UnB).

    Ele concorda que os sinais trocados do governo vão atrapalhar a recuperação, mas diz que o país poderá se reerguer, desde que a política econômica não crie obstáculos para a volta da demanda. "Se voltarmos a discutir austeridade fiscal, será outra década perdida. É preciso uma política contracíclica."

    Já Marcel Balassiano, do Ibre/FGV, defende que o país volte a fazer reformas, para crescer e gerar empregos sem descuidar das contas públicas. "Agora não há o que fazer, a dívida vai subir. Mas depois, as reformas devem voltar à mesa."

    "Marolinha" de 2008 no Brasil agora vai virar ressaca

    A crise da covid-19 será pior para os brasileiros também quando se compara com um outro momento recente que abalou a economia mundial: a crise de 2008. Se agora a expectativa é que 90% dos países analisados pelo FMI atravessem o baque melhor do que o Brasil, logo após 2008 eles eram pouco mais de um terço (35%).

    Naquela ocasião, o crédito fácil e a disseminação de investimentos "podres" fez estourar a pior crise mundial desde 1929. Um marco foi a falência do banco de investimentos Lehman Brothers, mas quem mais sofreu foi o trabalhador americano, que empobreceu e viu o mercado imobiliário ruir.

    "Em poucos meses, o mercado de ações perdeu quase US$ 10 trilhões. Quando o quarto maior banco de investimentos — depois do Goldman Sachs, do Morgan Stanley e do Merrill Lynch — afundou o crédito evaporou e não havia nada que impedisse seus similares de seguir o mesmo caminho", contou o jornalista Matthew A. Winkler, em artigo publicado no jornal O Estado de São Paulo em 2018, quando a quebra do banco completou dez anos.

    Na época, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que a crise tomava o mundo como um tsunami, mas seria sentida como uma marolinha no Brasil. O país respondeu com uma política de expansão do crédito e foi beneficiado pelo "boom das commodities". A recessão viria na década seguinte.

    O PIB brasileiro ficou estagnado em -0,1% em 2009 e cresceu 7,5% no ano seguinte — uma alta de 3,6% no biênio 2009/2010. Isso é bem acima da queda de 1,3%, esperada para o biênio de 2020 e 2021, na crise atual.

    Mar revolto

    Marcel Balassiano, do Ibre/FGV, concorda que a crise de 2008 foi amortecida no Brasil pelas commodities, enquanto outros emergentes que dependiam da exportação de manufaturados, como o México, sentiram o baque mais profundamente.

    "Agora, a incerteza é maior para todos. Os países que estão reabrindo suas economias, como a China e grande parte da Europa, vão ser um espelho do que vai acontecer no resto do mundo nos próximos meses. Mas tudo ainda é muito incerto e os mercados temem uma segunda onda de contágio."

    Para o economista da UnB José Luis Oreiro, o Brasil parece descolado da realidade internacional. "Isso se percebe desde o início da crise atual, quando o ministro (da Economia) Paulo Guedes queria continuar com a discussão de austeridade fiscal, durante um cenário totalmente diferente, de pandemia." Ao comparar com os efeitos da crise de 2008, ele avalia que a crise atual será catastrófica do ponto de vista do agravamento da desigualdade de renda.

    Pesquisadora do Peterson Institute, nos Estados Unidos, a economista Monica de Bolle já alertava desde o início da pandemia no Brasil que o país parecia não compreender a gravidade da crise e que as respostas do governo eram lentas e insuficientes.

    "Em uma crise tradicional, a gente conhece as políticas econômicas necessárias para combatê-la. Em 2008, a resposta foi dar estímulo monetário e fiscal." Ela lembra que isso serviu para apagar o incêndio na época, mas na crise atual, que tem origem fora da economia, o desafio é muito maior.

    9 COMENTÁRIOSDeixe sua opinião
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    Comentários [ 9 ]

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    • M

      Maquiavel

      ± 5 dias

      É lógico, pois não deixam o povo trabalhar por causa desta gripezinha chinesa! Deixem as empresas funcionar que isso não acontecerá!!

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    • F

      Flavio Teixeira

      ± 5 dias

      Se todas as previsões dos “iminentes economistas” se tornassem verdadeiras, o brasil já não existiria mais desde 1900...

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      1 Respostas
      • F

        Flavio Teixeira

        ± 5 dias

        Eminentes...

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    • M

      Marco Aurelio Borges

      ± 5 dias

      Complexo de vira-lata, sempre achando que nós vamos ser pior que todos.

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    • N

      Nico Gavelick

      ± 5 dias

      A dívida pública no Brasil já está enorme e ficará maior ainda após o fim da pandemia, e o cara da Universidade de Brasília ainda vem me falar que precisamos de medidas anticíclicas, ou seja, mais gastança. É brincadeira.

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    • A

      Austríaco-PR

      ± 5 dias

      Com STF, Botafogo e Batoré impedindo reformas e criando confusão de braços dados com a extrema imprensa, se houver recuperação já está louco de bom....

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    • C

      CLEUSA

      ± 5 dias

      Todas as previsões são catastróficas para o Brasil!!! Pior nisso, pior naquilo! Como pode Bolsonaro ter recebido um país maravilha registrado em cartório, com tudo funcionando de maneira exemplar, com hospitais super equipados, políticos honestos, alunos top de linha e esse presidente estragar tudo? Merece a forca!!!

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    • A

      Afonso Celso Frega Beraldi

      ± 5 dias

      Com politicos sem carater fazendo oposição a todo custo, o povo remando contra, STF ditatorial, vermelhos querendo derrubar qualquer governo que não seja comunista, nem em 1000 anos sairemos dessa meleca

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    • L

      Luzalvo

      ± 5 dias

      P/ mim deu, não assinei a Gazeta para ler porcaria de matéria do Estadão, colunista da Veja e caloteiro do MBL. Acesso a Gazeta e parece que abri a página do UOL e G1, só SENSACIONALISMO BARATO. Chega!

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