
Pela lógica da seleção natural, uma boa tecnologia não poderia passar mais de 100 anos no limbo boas ideias, afinal, sempre encontram uma forma de derrotar concorrentes mais fracos no mundo da inovação. É esse o tempo, porém, que os carros elétricos ficaram guardados no armário da história antes de voltarem como a aposta de longo prazo da indústria automotiva. Não há uma única grande montadora que não tenha um projeto sério que envolva baterias e cabos para ligar seus carros a tomadas. E elas terão de concorrer com dezenas de pequenas firmas que estão saindo do zero com ideias promissoras para substituir a gasolina por substâncias como lítio, níquel e sódio, usadas na fabricação de baterias.
Há uma conjunção bastante promissora de fatores que levarão à multiplicação de carros elétricos nos próximos anos. Primeiro, a experiência com modelos híbridos, que combinam motores elétricos e a explosão mostra que o apelo ambientalmente correto é capaz de criar um batalhão de consumidores dispostos a pagar mais para poluir menos. O maior sucesso nesse mercado é o Prius, modelo da Toyota com dez anos de mercado e mais de um milhão de unidades vendidas, e que acaba de chegar à terceira geração.
A segunda razão para se acreditar que carros elétricos serão viáveis está na necessidade de se combater o aquecimento global. "O setor de transportes responde por 23% das emissões de gases do efeito estufa relacionados com energia", explica Alice Grimm, professora do Departamento de Física da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e especialista em mudanças climáticas. "Sem uma alteração no padrão de uso de energia em transportes, essas emissões vão aumentar 80% até 2030."
A tendência é que surja algum tipo de pacto global que determine uma redução gradual nas emissões. Mesmo que esse acordo demore, ou não saia, já há incentivos para o desenvolvimento de carros elétricos. No mês passado, por exemplo, o presidente dos EUA, Barack Obama, liberou US$ 8 bilhões em empréstimos para três montadoras que desenvolvem veículos a bateria. Além de oferecer dinheiro e benefícios fiscais, os governos tendem a apertar os padrões de emissões dos veículos.
Vontade política e um grupo de consumidores ecológicos, porém, não bastam. São necessários projetos viáveis e indústria parece responder bem ao estímulo. Além da recente proliferação de carros híbridos, existem dezenas de modelos em fase de desenvolvimento. A corrida comercial lembra o que ocorreu no fim do século 19, quando ainda não estava claro qual tecnologia seria a vencedora na criação de uma sociedade sobre rodas. Na época, havia experimentos com motores a vapor, baterias elétricas, derivados de petróleo e biocombustíveis. Venceram a gasolina e o óleo diesel.
Evolução
"O sucesso dos híbridos, em especial nos EUA, mostra que o carro elétrico é uma realidade", diz Marcelo Alves, professor de engenharia mecânica da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. "Houve aumento na autonomia dos híbridos e o desenvolvimento de carros puramente elétricos depende de baterias melhores.". Ao combinar motores a explosão e elétricos, os híbridos resolvem problemas como o custo, o peso e a durabilidade das baterias.
No Prius e outros híbridos produzidos em larga escala, o propulsor elétrico é usado nas arrancadas, enquanto a peça movida a gasolina entra em seguida para sustentar a velocidade e recarregar as baterias que, por isso, não são as melhores e mais caras do mercado. Um passo adiante desse modelo estão os híbridos em que somente o motor elétrico move as rodas, enquanto o a explosão gera energia para recarregar as baterias. É assim que funciona o Volt, carro que a General Motors pretende lançar comercialmente no ano que vem nos EUA por US$ 30 mil.
"O grande salto virá quando os carros forem totalmente movidos a bateria. É o modo mais eficiente de usar energia", diz Antônio Nunes Jr., da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE).



