Com a Selic na descendente, ressurge nos bastidores uma conversa antiga: a de mudar as regras das cadernetas de poupança, que pode se tornar "rentável demais", o que comprometeria tanto a rolagem da dívida pública quanto a captação dos bancos.

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O assunto já havia sido mencionado aqui na Gazeta, numa matéria do editor-assistente Felipe Laufer publicada em 24 de fevereiro. Naquele momento, economistas falavam na possibilidade de o governo mexer com a poupança, por meio de um redutor (que já existe, aliás) ou alterando o cálculo da TR. O rendimento da poupança, convém lembrar, é definido pela variação da Taxa Referencial (TR) mais 6% ao ano de juros.

A novidade agora é que o tema vem a público por meio do presidente do Banco Central. Não é nada oficial, mas um sinal de que o governo está interessado em verificar a reação da sociedade a uma mexida como essa. Na semana passada, o tema apareceu em uma conversa entre o presidente do BC, Henrique Meirelles, e senadores da comissão parlamentar que trata da crise financeira internacional. Saiu no Correio Braziliense, jornal da capital federal, na sexta. De acordo com os senadores, Meirelles teria dito que a correção de TR mais 6% ao ano pode levar a poupança a um rendimento superior ao dos títulos públicos. Nesse caso, ainda segundo Meirelles, poderia haver uma fuga de recursos dos papéis do governo para as cadernetas e o governo teria de pagar mais para financiar a sua dívida. Para os bancos, a coisa também é complicada: os clientes de seus fundos de renda fixa deixariam a aplicação para colocar seus recursos na poupança – uma opção isenta de qualquer tarifa.

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O economista Christian Luiz da Silva, professor da PUCPR e da UTFPR, a proposta é absurda. "O governo tem muitas alternativas antes de mexer numa instituição nacional como a poupança", opina. Na opinião dele, a caderneta é uma aplicação cuja popularidade se baseia no fato de ser acessível a qualquer um e confiável. "É um rendimento baixo, mas honesto", define. "Há muitas pessoas que investem na poupança justamente porque ela é confiável e sem riscos. Não se pode tirar isso delas."

É esse o tipo de queixa que o governo sabe que vai ouvir. Mas é possível que, mesmo assim, acabe fazendo algum tipo de intervenção – baixando o porcentual de 6% para 4%, por exemplo. É o que acredita o economista Fábio Araújo, da consultoria Brain Bureau de Inteligência Corporativa. "Não tem outra maneira, vai ser preciso", diz. "Se não for assim, ninguém vai comprar os títulos públicos." Para ele, o desafio de Lula, Meirelles e companhia será fazer essa mudança parecer parte de uma melhora geral na economia. Isso não deixa de fazer sentido – afinal, a taxa de juros está caindo para o patamar mais baixo em mais de 20 anos. É certo que isso não ocorreu por vontade do governo, mas por obra de uma crise que ceifou milhares de empregos. Por outro lado, uma é provável que os bancos sejam forçados a reduzir suas taxas de administração (os 4% ao ano que alguns cobram chegam a ser um insulto).

A novela está só começando, mas promete. Para quem gosta de conspirações, é mais um complô entre governo e banqueiros para secar uma aplicação que costuma ser a única alternativa de rendimento para quem ganha pouco. Ou não. Mas para o poupador, o que fica é a sensação de estar sendo passado para trás.

Mais tarifa, menos rentabilidade?

A leitora Gisele escreveu, com múltiplas dúvidas a respeito de fundos de renda fixa. Uma delas é bem interessante, e deve ser muito comum. Ela conta que tem dinheiro aplicado em dois fundos de renda fixa, um deles com taxa de administração de 0,4% ao ano e o outro, de 0,75% ao ano. "No entanto, muitas vezes o fundo com a taxa maior tinha rendimento maior. Como pode ser isso?", pergunta.

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Isso pode acontecer, porque os fundos têm gestores diferentes e políticas de investimento distintas. "A taxa de administração não é o melhor parâmetro para verificar a rentabilidade de um fundo", diz o professor Jackson Sandrini, da Universidade Federal do Paraná. "Embora ela tenha influência, o que interessa é a rentabilidade, medida pela variação das cotas. O que manda é a composição da carteira e, consequentemente, seu desempenho."

Por isso é importante ler com atenção o prospecto do fundo, para saber em que tipo de papéis ele está colocando o seu dinheiro, e discutir o assunto com o gerente de investimentos do banco sem medo de fazer perguntas.

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