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Está pensando em trocar de carro? Então talvez você já tenha passado pela situação de pedir uma avaliação de seu veículo usado e receber em troca um número muito abaixo daquilo que você esperava. E não adianta informar-se nas tabelas da Fipe – a Fundação Instituto de Pesquisa Econômica de São Paulo, que levanta mensalmente os preços médios de dezenas de modelos. "Todo mundo vende abaixo da tabela", costumam dizer os experimentados vendedores da área. A sensação do sujeito é que o seu bem não vale nada, ao passo que aquele que lhe é oferecido, seja seminovo ou zero-quilômetro, está sempre "nos trinques" e supervalorizado.

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Há diversos fatores que influenciam esse mercado. Se você está negociando com uma loja, é preciso ficar claro que ela busca lucro na operação: o preço do seu veículo deve forçosamente estar abaixo do mercado, ou ela não terá ganhos. Tendo isso em mente, você pode negociar à vontade.

Outro fator, este mais conjuntural, por assim dizer, é a facilidade de comprar um carro novo. Quando haviam poucas montadoras instaladas no país e muitas restrições à importação de carros, havia momentos em que carro usado era investimento. Ele se valorizava mês a mês e tinha liquidez (ou seja, era fácil de vender). Lá se vão uns 30 anos dessa época. Hoje em dia, não apenas há uma larga oferta de modelos e procedência como também há crédito mais ou menos disponível para prováveis compradores. Quanto mais fácil e barato for comprar um carro novo, menos vai valer um carro usado.

E quanto mais baixos os preços em geral, mais difícil será encontrar um bom carro usado. Um estudo acadêmico sobre esse assunto rendeu o prêmio Nobel de Economia de 2001 para o americano George Akerlof, professor da universidade de Berkeley. Akerlof observa que nenhum comprador sabe com certeza se um carro é bom ou ruim. Entretanto, eles são sempre vendidos a preços semelhantes. Se você olhar a tabela da Fipe, não vai encontrar faixas específicas de preço para carros com motor barulhento, pneus velhos ou embreagem dura. Será apenas uma média de preço para cada veículo, ano e modelo. Por isso, o comprador tende a desvalorizar toda proposta de negócios que lhe aparece. Resultado: quem tem um carro novinho, bem cuidado e sem defeitos pode muito bem decidir mantê-lo, já que nunca vai obter por ele um preço que possa considerar justo. "A qualidade média de carros usados ofertados cai com uma queda no nível de preços", escreveu Akerlof. Segundo ele, "há um incentivo para os vendedores oferecerem mercadoria de qualidade pobre".

Nos últimos anos, o preço médio dos usados no país tem caído. Em janeiro do ano passado, um carro de modelo básico com um ano de uso custava em média R$ 28,9 mil (dados dos Indicadores Econômicos Consolidados do Banco Central); hoje, um veículo na mesma situação está na faixa de R$ 23,7 mil. Estamos rumando para uma situação em que os usados terão valor muito baixo. Em outros mercados isso é relativamente comum. Nos Estados Unidos, é frequente que as pessoas doem seus usados a igrejas ou organizações não-governamentais – a compensação tributária que recebem é superior ao valor que receberiam se vendessem o carro. Essas instituições reformam os veículos e entregam a pessoas carentes.

Vale o Nobel?

Por mais importante que seja para o dia a dia das pessoas comuns, dificilmente um estudo sobre carros usados mereceria o Nobel. Akerlof tratou do tema como exemplo concreto de fenômenos mais amplos nas relações econômicas. O "princípio dos limões" – lemon é uma gíria americana para um carro usado em mau estado – é aplicável a qualquer mercado dominado pela incerteza, do crédito aos seguros e às relações comerciais internacionais. "Este trabalho apresenta uma tentativa de dar estrutura à frase ‘É difícil fazer negócios com países subdesenvolvidos’", escreveu.

O trabalho de Akerlof intitula-se The Market for "Lemons": Quality Uncertainty and the Market Mechanism ("O mercado para ‘limões’: incerteza de qualidade e o mecanismo do mercado"). Para ler o texto (no original, em inglês), visite http://goo.gl/Tz34pn.

Até mais!

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