| Foto: Jonathan Campos/Gazeta do Povo

O ano é 2017. Estamos em pleno século 21, era da tecnologia, da internet das coisas, do mundo digital. As pessoas estão mais conectadas, a informação está na palma da mão e as notícias chegam rápido, principalmente quando elas são ruins, negativas e têm impacto coletivo na sociedade. É por isso que não dá para entender a audácia, que prefiro chamar de insanidade, no âmbito da Operação Carne Fraca, deflagrada na semana passa pela Polícia Federal. Indignação, comoção e revolta, com o público e o privado.

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Colocar em risco a saúde e a vida da população não é apenas um crime. É demência, é insano e qualificado. A se confirmar, uma fraude hedionda e que requer punição exemplar. Tem a ver com sanidade, abastecimento e segurança alimentar. E o denunciado é justamente aquele que deveria zelar por esses princípios. São como lobos em pele de cordeiro. Antes de serem presos, precisam ser internados. E tratados com a carne estragada.

Da propina à adulteração criminosa do produto está o técnico, o frigorífico e as empresas nacionais e multinacionais que dominam e controlam o mercado de carnes no Brasil e em boa parte do mundo. E o mais estarrecedor é que os problemas e os envolvidos não param por aí. Há fortes indícios da participação de políticos e ministro, com foro privilegiado, nessa engrenagem. Um custo que o Brasil paga por lotear politicamente estruturas técnicas, de fiscalização e zelo pelo interesse público. Um cuidado e um controle que deveria ser do governo e não de partidos políticos.

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E o produtor, como fica? Com o rebanho no pasto e o mico na mão?

Com todo respeito aos bons profissionais – tenho certeza de que eles são maioria absoluta –, a superintendência do Ministério da Agricultura no Paraná, por exemplo, é do PMDB. Tecnicamente, atende a interesses do agronegócio. Politicamente, do partido. O problema é quando a estrutura trabalha para conciliar interesses técnicos do agronegócio, competência primeira da superintendência, com interesses políticos, do partido e dos seus. O resultado está aí. Má gestão da coisa pública, propina, prejuízo financeiro e, neste caso, o que é pior, o risco à saúde da população.

Ponta do iceberg

Ao que tudo indica, o que o Brasil e o mundo viram na semana passada é apenas o começo de uma operação que tem potencial para desvendar enriquecimentos ilícitos e esquemas de financiamento de campanhas políticas similares aos da Operação Lava Jato. A comparação pode ser mais coerente em estratégia do que em numerário. Mas ela é pertinente. Isso para o desespero não somente daqueles que recebem como daqueles que pagam propina. Para lembrar, o todo-poderoso da construção civil Marcelo Odebrecht, um dos maiores empreiteiros do país, está há mais de um ano preso pela Lava Jato.

O mercado

E o ministro da Agricultura, Blairo Maggi, falando mais do mesmo. Que as irregularidades prejudicam a imagem do Brasil no exterior e oferecem risco ao mercado brasileiro no comércio internacional. O Brasil é o maior exportador de carne bovina do mundo. É preciso agir rápido e dar respostas rápidas à população e à comunidade internacional. O risco: embargos sanitários e comerciais à carne brasileira, não só de boi como de frango e suínos. Assim como no boi, o Brasil também é o maior embarcador de carne de frango do mundo. No suíno somos o quarto, tanto em produção quanto em exportação. O detalhe aqui é o potencial. No ano passado o país bateu recorde em exportação dessa proteína.

Caso mais recente, não de propina, mas de sanidade, foi o da febre aftosa no Paraná, em 2005. Dezenas de mercados fecharam as portas para as carnes brasileiras. Perdemos mercado, liquidamos e jogamos carne fora, inclusive leite. Um estrago que, no caso das exportações bovinas, o Paraná levou dez anos para recuperar e atingir novamente o volume de exportação da época. O prejuízo foi grande. E agora, se não forem tomados os devidos cuidados na condução do assunto, o estrago pode ser ainda maior.

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O produtor

E, se o Brasil é o maior exportador de carne bovina, isso se deve em grande parte à estruturação da base dessa cadeia produtiva, que é onde está o pecuarista. No caso, o produtor rural, que agora representa o elo mais frágil do processo produtivo. As empresas serão penalizadas; os fiscais serão punidos; políticos envolvidos serão denunciados e, se comprovado o crime ou a falta de decoro, condenados. Mas e o produtor, como fica? Com o rebanho no pasto e o mico na mão? Como preservar o produtor, suas apostas e seus investimentos diante desse revés? Ministros, a palavra está com vocês – da Justiça e da Agricultura.