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Pagamentos via smartphone vão se popularizar cada vez mais: uma ferramenta é o QR Code.| Foto: Bigstock.

O dinheiro físico está desaparecendo em muitos países do mundo e alguns já estão em etapas mais avançadas dessa transição: exemplos vêm da China, Suécia, Índia e México. O Brasil ainda está na fase inicial dessa revolução: está implantando agora um sistema de pagamentos instantâneos e algumas políticas do governo parecem ir na contramão, como a hipótese de um imposto sobre transações financeiras e o lançamento da cédula de R$ 200.

De qualquer forma, o dado foi lançado e já não tem mais volta. "O Brasil está hoje como a Índia estava em 2017", afirma João Bragança, executivo da consultoria Roland Berger. Naquele ano, o país asiático implementou a UPI (Unified Payments Interface), plataforma equivalente o PIX brasileiro e três anos depois, 25% de todas as transações foram realizadas pelo sistema. "Daqui a três anos teremos no Brasil a mesma porcentagem de transações que na Índia? Eu diria que é um cenário conservador", avalia Bragança.

A Índia é um dos países que mais rapidamente vem se adaptando aos novos tempos com o objetivo de combater a falsificação de notas e a sonegação. Para isso, o Banco Central indiano criou a UPI, interface que integra todos os atores financeiros e seus respectivos recursos num único lugar. Por meio de um só aplicativo, o cliente pode acessar diversas contas bancárias, efetuar transações 24 horas por dia, sete dias na semana, fazer pagamentos de qualquer tipo. Atualmente 164 bancos participam da plataforma.

É suficiente ter um smartphone para poder controlar todos os aspectos da sua vida financeira num único aplicativo. Para fomentar a moeda digital e as transações instantâneas, o governo fixou o teto dos pagamentos em espécie a R$ 689 por dia. Para atender a população mais carente, que não dispõe de smartphone ou conexão à internet, desde 2007 existe um sistema que permite pagamentos e transferências via SMS. Uma ferramenta essencial para dezenas de milhões de pessoas.

No ano passado, o México lançou uma ferramenta semelhante ao PIX. Desenvolvido pelo Banco Central mexicano, o aplicativo CoDi permite transferências instantâneas entre pessoas físicas e jurídicas. A diferença com o Brasil é que o PIX não será um aplicativo único, mas apenas uma interface comum que vai integrar a miríade de apps desenvolvidos por bancos, fintechs e outros players do mercado.

Em dezembro de 2019, o CoDi contava com 1,8 milhão de usuários, de acordo com o BC mexicano. A estimativa para setembro deste ano é alcançar 18 milhões. Até o fim de julho foram realizadas operações por um valor total de 549 milhões de pesos, o equivalente a R$ 129 milhões.

A tendência é mundial e cada país desenvolve as ferramentas mais adequadas para atender a sua população. Suécia, Coreia do Sul e China estão entre os países cada vez mais próximos da sociedade “cashless”, sem dinheiro em espécie circulando. No país escandinavo, quatro em cada cinco compras já são feitas eletronicamente, de acordo com o governo. O resultado foi uma queda drástica nas fraudes e na economia informal, além de uma disparada do comércio eletrônico.

Os efeitos da digitalização se refletem na economia de um país como um todo. Economias que usam mais o dinheiro vivo tendem a crescer mais devagar e a perder significativos benefícios financeiros, segundo uma análise do Boston Consulting Group. Ao contrário, economias que substituíram o analógico pelo digital têm mais sucesso: a troca pode impulsionar o Produto Interno Bruto (PIB) até 3%.

A transformação que a moeda digital provocou na China

A China é talvez o exemplo mais emblemático de transformação da sociedade provocada pela moeda digital. Em 2019, 633 milhões de chineses – quase metade da população – usaram os meios eletrônicos de pagamentos. Ao longo dos anos, diversas tecnologias têm sido aproveitadas para fazer as transferências: bluetooth, biometria, comando vocal e até realidade virtual.

Aplicativos extremamente populares lideram a revolução digital, como o Alipay, da gigante do e-commerce Alibaba, e o WeChat, desenvolvido pela Tencent. Esses dois apps são verdadeiros canivetes suíços tecnológicos que disponibilizam inúmeros serviços numa única plataforma: pagamentos por QR Code, transferências entre usuários, cartão de crédito e gestão da conta bancária, além de chat, jogos eletrônicos e videoconferências.

Em algumas cidades, até o reconhecimento facial foi introduzido como meio de validação dos pagamentos em lojas, restaurantes e transporte público. A solução, controversa porque usada pelo governo chinês para monitorar a população, permite do ponto de vista prático pagamentos mesmo tendo esquecido a carteira ou o celular em casa. O nome da tecnologia, Smile to Pay, já diz tudo: basta sorrir na frente da câmera para liberar o dinheiro que é descontado da carteira digital associada ao rosto.

“Essa é uma lição que a China ensinou: aplicativos com muita recorrência que promovem o serviço de pagamentos ajudam a ‘pegar’ porque o serviço fica num aplicativo que todo mundo tem”, afirma Felipe Zmoginski, CEO da Inovasia e colunista do Gazz Conecta, da Gazeta do Povo, ao avaliar a entrada do WhatsApp Pay no mercado de pagamentos.

Segundo ele, porém, a taxa de 3,99% cobrada sobre as transações pelo aplicativo de Mark Zuckerberge pode ser um entrave para a disseminação do serviço. “Na China, na fase inicial de popularização dos apps, foi o contrário. Não só não tinha taxa, mas tinha até cashback”, explica o empresário.

Atualmente o WhatsApp Pay está em fase de testes e aguarda aval do Banco Central para começar a operar. As autoridades avaliam que o app tem potencial para concentrar grande poder nas mãos de apenas uma empresa.

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