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Linha de produção em uma indústria: setor está em queda livre desde 2010. | Brunno Covello/Gazeta do Povo
Linha de produção em uma indústria: setor está em queda livre desde 2010.| Foto: Brunno Covello/Gazeta do Povo

Desde a primeira metade do século XX, os economistas trabalham para incluir em seus cálculos um sentimento, não uma variável econômica: a confiança. Há listas de agraciados com prêmio Nobel que estudaram a melhor maneira de medir o medo ou a confiança no futuro. O Brasil passa por um momento difícil nesse quesito. Empresários e analistas citam o resgate da confiança como condição imprescindível para que o país volte a crescer, principalmente depois que o IBGE anunciou que o PIB do país caiu 1,6% no primeiro trimestre frente ao início do ano passado.

“As expectativas jogam um papel muito importante. As pessoas projetam as ideias que têm do futuro nas tomadas de decisão de investimento e de consumo de hoje. As firmas fazem expansões, acreditando no crescimento da economia e da demanda. Se o futuro é melhor, consome-se mais hoje”, afirma o economista Aloisio Araujo, da Fundação Getulio Vargas (FGV).

Esse componente intangível, abstrato da economia, quando está em queda, deprime o indivíduo. Espera-se a tempestade passar para voltar a consumir e planejar o futuro.

Disputa política colabora para clima ruim na economia

A queda de braço entre governo e Congresso adiciona mais um ingrediente nesse quadro de desesperança. Empresários e investidores temem que medidas de ajuste fiscal não sejam concretizadas. A disputa subverteu a lógica de governo e oposição. O PSDB votou pelo fim do fator previdenciário, que dificulta a aposentadoria. O PT votou contra o governo, e alguns parlamentares pediram a cabeça de Joaquim Levy, o ministro da Fazenda.

Mas ele é quem sustenta a certeza de que o governo vai realmente ajustar as contas públicas, afirma Francisco Carlos Teixeira, historiador da UFRJ e da Fundação Dom Cabral. “Mesmo com a tensão que a presença de Levy tem provocado, Dilma não pode prescindir dele hoje e nem tão cedo.”

O cientista político da UFF Eurico Figueiredo cita um ditado popular para ilustrar a situação: “Em casa que falta pão, todo mundo grita e ninguém tem razão. Crescimento negativo, inflação renitente são fatores que alteram o humor inclusive dos que votaram na presidente Dilma.”

A enxurrada de números econômicos ruins vem abatendo o humor do brasileiro. A recessão chegou, mais de 384 mil trabalhadores ficaram desempregados de um ano para cá nas grandes metrópoles, houve corte de 100 mil vagas com carteira assinada somente em abril, o salário caiu 2,9% no mesmo período e a indústria está em queda livre desde 2010.

“Em crise, a sociedade paralisa. Comportamentos irracionais também aparecem. Alguns poucos conseguem avançar. O futuro é tão incerto que parece mais uma ameaça”, afirma o o sociólogo Elimar Nascimento, professor associado da UnB.

Quando é possível medir esse sentimento, constata-se que a confiança está no buraco. Na indústria, de acordo com a Fundação Getulio Vargas, está no menor patamar desde 1998, ano de crise cambial, que forçou a mudança do regime cambial de bandas para dólar flutuante no ano seguinte. A desconfiança com o Brasil estava tão grande naquela época que o dólar subiu 53,2% em um ano, com a fuga de investidores.

Entre os consumidores, a sondagem feita pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostra que o medo do futuro chegou ao maior patamar desde 1999.

“As sondagens anteriores mostravam que o consumidor acreditava que o desemprego ia aumentar, mas que ele não perderia o emprego. Agora, caiu a ficha: o medo do próprio desemprego ou de alguém da família deu um salto, com as notícias das demissões”, afirma Renato Fonseca, gerente executivo de Pesquisa e Competitividade da Confederação Nacional da Indústria (CNI).

As pesquisas de confiança mostram que 42% dos entrevistados avaliam que ficará mais difícil conseguir emprego nos próximos seis meses. Somente 15% veem mais facilidade para conseguir uma vaga.

“Em termos históricos, esses dados retratam uma situação ruim, de pessimismo”, afirma Aloísio Campelo, superintendente adjunto de Ciclos Econômicos da FGV.

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