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Como pensam as mulheres que investem em startups no Brasil

Em um ambiente em que os homens são predominantes, executivas de venture capital contam sobre os desafios e diferenciais das mulheres no setor

  • Flávia Silveira Especial para a Gazeta do Povo
Luciana Ribeiro, da EB Capital | Divulgação
Luciana Ribeiro, da EB Capital Divulgação
 
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A popularização das startups abriu espaço para um novo mercado no país: o de investimentos de risco (conhecido como “venture capital”). É ainda um mercado dominado por homens — mas um grupo de mulheres poderosas emerge como líderes deste processo. Em 2018, 82 investidoras da América Latina, algumas delas brasileiras, foram reconhecidas pela Associação Latino-Americana de Private Equity e Venture Capital (LAVCA) na lista Top Women Investing In Latin American Tech.

Em todo o mundo, dentre os principais 100 fundos de Venture Capital, apenas 8 possuíam sócias mulheres. Na América Latina, a realidade não é muito diferente do que vemos no panorama global. A ação da Lavca busca dar visibilidade às mulheres que atuam em fundos de venture capital.

A Gazeta do Povo conversou com quatro destas executivas para saber quais os desafios e dificuldades que elas encontraram em suas trajetórias, bem como os diferenciais e oportunidades que as mulheres podem trazer para este mundo de investimentos e empreendimentos em tecnologia.

“O fator humano não está na matemática”

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Paula Rechtman, Head de Investimentos da Inseed Divulgação

O mercado de investimentos tende a ser muito lógico, pragmático, focado em números. É preciso construir para teses, elaborar planos e executá-los, e, claro, evitar ao máximo que qualquer um dos envolvidos perca dinheiro. “Cursos superiores que ensinam isso formam, historicamente, muito mais homens, como a Engenharia. Mas isso está mudando”, avalia Paula Rechtman, Head de Investimentos da Inseed para os mercados do Rio de Janeiro e do Espírito Santo.

Além do surgimento de mulheres ligadas às profissões mais técnicas, aos poucos o mundo dos investimentos começa a valorizar o fator humano na tomada de decisões. Muitas das startups, conta a executiva, acabam cavando o próprio buraco quando não trabalham este lado, seja por briga de sócios, egos inflados, dificuldade de lidar com frustrações.

“Nós sabemos dialogar melhor e somos mais flexíveis, conseguimos acalmar estes ânimos nas empresas, quando acontece. Acho que esta é a grande oportunidade das mulheres e as empresas que não perceberem isso, terão dificuldades no mundo atual”, acredita. “Entender o plano de investimento é fundamental, mas a execução dele é feita por humanos, e este fator não está na matemática”, completa.

Rechtman traz em sua trajetória 15 anos de trabalho em uma das principais empresas de tecnologia do mundo, a IBM, onde transitou por diversas áreas e pôde trabalhar com inovação sob diferentes óticas. “Inovação está em todos os lugares, é a maneira como você olha para o mundo que define se você vai identificá-la e então abordar situações de uma forma diferente”, diz.

Em 2012, depois de anos morando em São Paulo, Paula, que é carioca, voltou para sua terra natal para assumir um cargo na IBM. Ao chegar ao Rio, encontrou um cenário diferente do que conhecia, que, segundo ela, não tinha muito de empreendedorismo. “Foi quando vi muitas pessoas empreendendo em negócios relacionadas à tecnologia. Comecei como mentora de algumas startups e me apaixonei”, conta. Desde 2016, ela está na Inseed.

Mito do homem provedor

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Isabela Rugani, Investment Officer da InseedDivulgação

Colega de Rechtman, Isabela Rugani trabalha há dois anos com venture capital. Para ela, existem muitos mitos que precisam ser contestados como de que mulher não gosta de tecnologia ou que o homem deve ser o provedor, enquanto a mulher cuida da casa. “Crescemos com essas crenças que são limitantes, e isso é muito duro tanto para homens, como para mulheres”, avalia.

Formada em Comunicação, ela nunca atuou na área e, logo que se formou, foi trabalhar como consultora em estratégia e inovação. Uma das consultorias por que passou foi a Inventa, do mesmo grupo da Inseed, onde, agora, ela é Investment Officer. “Sempre ouvi de meus pais que eu podia ser o que eu quisesse e cresci acreditando nisso, que não existiam limites entre meninos e meninas. Não sou obrigada a desistir de algo porque sou mulher”, conta.

Empoderada desde jovem, como ela mesma diz, Rugani vê com cautela rótulos de que certas características são masculinas ou femininas, como por exemplo de a mulher ser sempre sensível e o homem sempre racional. “As mulheres também podem ser frias e pragmáticas no contexto profissional, e isso não as torna menos mulheres”, diz. “O importante é que elas sejam protagonistas de suas vidas e que saibam que serão mais feliz e produtivas se estiverem vivendo o que querem viver, seja como executiva, empreendedora, mãe, ou tudo isso ao mesmo tempo”, completa.

Mulheres nos times das startups

Rechtman diz que, ao olhar um investimento, não é tão relevante se a ideia de negócio vem de uma mulher ou de um homem. O que a preocupa é quando não vê mulher alguma dentro da empresa. Segundo ela, compondo times com mais mulheres os negócios se tornam mais perenes. “Os times precisam ser complementares, e se os gestores de investimentos e startups, que vivem de risco, não entenderem isso, os negócios não vão se sustentar em longo prazo”, diz.

Luciana Ribeiro, sócia-fundadora do EB Capital e do braço de venture capital do mesmo grupo, o e.Bricks, vai além e ressalta a importância de fomentar a presença feminina nos mais diferentes níveis. “Vemos poucas mulheres empreendendo, poucas mulheres no mundo dos investimentos e também muito poucas presentes em conselhos de administração”, aponta.

Otimista, Ribeiro diz que tem participado de muitas discussões sobre este tema e, cada vez mais, vê a questão da diversidade ser abordada. Ela conta que percebe que, quanto mais diversos os grupos, maior é o acolhimento a ideias e perspectivas diferentes e os consensos são construídos pelo viés da diferença, e não do conflito. “Vemos que as decisões tomadas, nestes casos, são mais ajustadas e as chances de sucesso dos negócios são maiores”, conta.

Ela é mais uma que caiu no mundo dos investimentos não pela sua formação acadêmica, mas pela trajetória que construiu. Formada em Direito, ela ficou 19 anos em um grande grupo de comunicação, já atuando próxima a área de investimentos. Aos 31 anos, em 2008, resolveu dar uma guinada em sua vida profissional, foi fazer um MBA fora do país, e ao retornar um ano depois, seu interesse se voltava principalmente a negócios em fase inicial, mas com crescimento acelerado.

Desafio de ser pioneira

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Camila Folkmann, sócia da e.Bricks VenturesDivulgação

Ainda dentro da mesma empresa, deu início a uma área voltada para negócios diversificados de alto crescimento e logo ajudou a criar o braço de investimentos em venture capital dentro do grupo, o e.Bricks Ventures, onde é sócia.

Para ela, um dos diferenciais, e também dos desafios, das profissionais mulheres é que na maioria das vezes elas são pioneiras ao atuarem neste setor. Esta característica faz com que elas sejam muito determinadas, engajadas em trazer a diversidade aos ambientes e crentes de que isso é fundamental. “Existe uma garra maior por serem pioneiras. Percebo que, nas diferentes funções, estas profissionais acreditam em sua missão e em sua vocação”, afirma.

Neste mesmo sentido, Camila Folkmann reafirma como times formados com proporções mais igualitárias tendem a ter mais sucesso. “O cenário tem mudado muito, para melhor, porque a melhor nos resultados, inclusive em receita, é perceptível”, aponta.

Na Mindset Ventures, Folkmann é responsável pela parte de operação, compliance e gestão de fundos. Nada parecido com o que fazia no escritório de advocacia onde atuou por cinco anos. Também formada em Direito, foi em 2012 que ela resolveu fazer uma aposta em business e foi parar em Berkeley, na Califórnia, onde entrou em contato com o universo do Vale do Silício. Lá, estudou negociação, economia, empregabilidade, empreendedorismo e até programação, “para abrir um pouco a cabeça e entender esta linguagem”, diz. Quando voltou ao Brasil, em 2014, não queria nem saber de escritórios ou do mercado financeiro tradicional, e sim de trabalhar com tecnologia.

Naquela época, este mercado estava começando a crescer. Ela fez contato com aceleradores, startups e fundos. Acabou indo parar em uma pós-aceleradora planejada e construída por um executivo da Microsoft, que atuava com foco no mercado brasileiro, a Acelera. Ali, entrou em contato com startups em Tel Aviv, capital de Israel, e logo percebeu que o mercado por lá era muito mais rápido e ágil do que no Brasil. “As empresas levantavam rodadas de investimentos altos em questão de quatro meses. Vimos a oportunidade de investir lá fora para, então, trazermos esses projetos para o Brasil”, conta.

Ela e seu então colega, Daniel Ibri, levaram a ideia para o conselho da Acelera, que entendeu que era uma grande oportunidade, mas que fugia do foco em startups brasileiras. Deram, porém, o aval para que se os dois quisessem, tocassem a ideia adiante. Em meados de 2016, surgiu a Mindset Ventures, visando investir em empresas americanas e israelenses para abrirem mercado no Brasil e na América Latina. A Mindset possui uma parceria com a Microsoft até hoje. Em 2018, o fundo fechou uma captação de U$ 18 milhões de dólares, sendo 99% dos investidores brasileiros.

Sem vergonha de se fazer perceber

Camila diz que não acredita que tenha sofrido preconceitos pelo gênero, mas por sua idade e aparência, que, muitas vezes, acabam sendo interpretadas como de uma pessoa inexperiente. “Já fui interrompida durante algumas falas, mas não sei se por ser mulher ou se por falta de modos da pessoa. Os homens também têm mais facilidade com networking. Já vi mulheres terem suas intenções mal interpretadas nestes momentos”, revela.

Segundo ela, no entanto, a mulher interessada em entrar para o setor de venture capital não pode ter vergonha de se fazer perceber. “Procure pessoas do mercado que já trabalham em fundos, conheça startups. Entenda com o que elas trabalham e veja onde você se encaixa melhor”, orienta. Se a ideia é trabalhar com tecnologia, participar de eventos das comunidades de startups e buscar uma vivência completa deste sistema, visitando também grandes polos como Inglaterra, Portugal, Alemanha e Israel também são atitudes que fazem toda a diferença.

Já Ribeiro acredita que, em primeiro lugar, é preciso encontrar o que faz a pessoa levantar da cama pela manhã. Depois disso, muita dedicação e perseverança, sem desanimar frente às primeiras dificuldades. “Networking é fundamental não só para possibilitar oportunidades de trabalho, mas principalmente para entender o mundo mais amplamente, com sua diversidade. É conversando com pessoas que entendemos isso”, diz. “Por último, entenda quais são as ineficiências brasileiras que podem virar excelentes negócios”, finaliza.

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