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Rodoviária do Plano Piloto, em Brasília: Covid-19 atropelou economia brasileira em 2020
Rodoviária do Plano Piloto, em Brasília: Covid-19 atropelou economia brasileira em 2020.| Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Quando 2020 começou, após um ano de crescimento aquém do esperado, as apostas eram de que a economia brasileira deslancharia com a continuidade da agenda reformista. Não foi o que aconteceu. Após 12 trimestres de discreta expansão econômica, o país entrou novamente em recessão já no primeiro trimestre deste ano, conforme a medição do Comitê de Datação de Ciclos Econômicos (Codace), ligado à Fundação Getulio Vargas (FGV).

Nem um mês se passou entre o primeiro caso confirmado do novo coronavírus no país, no finzinho de fevereiro, e o início das medidas de distanciamento social. Foi quando muitos estados e cidades passaram a decretar estado de emergência e limitar a realização de atividades, do comércio à educação, como forma de conter o avanço da doença e evitar o colapso dos sistemas de saúde público e privado.

Só que essas medidas de distanciamento social e restrição de circulação acabaram impactando fortemente a atividade econômica. Ao longo do ano, apenas os serviços considerados essenciais, como mercados e estabelecimentos de saúde, não ficaram fechados, mesmo que tenham sofrido alterações nos horários de funcionamento. Comércio, restaurantes, academias e as atividades turísticas foram fortemente afetados pelos lockdowns.

O Supremo Tribunal Federal (STF) entendeu que estados e municípios tinham autonomia para determinar o que poderia abrir ou fechar, e a maioria dos locais adotou um sistema de bandeiras para indicar o nível de risco da pandemia e as medidas que seriam necessárias. Por isso, os impactos variam entre os estados e os setores – em geral, o de serviços sofreu mais.

Para aliviar o pior da crise, o governo federal adotou uma série de ações de mitigação. A mais impactante foi o auxílio emergencial, benefício de R$ 600 mensais – depois reduzido a R$ 300 – voltado a trabalhadores informais e população vulnerável. Mas também houve linhas de crédito específicas para empresários, como o Pronampe e via maquininhas, além do socorro a estados e municípios, que mais do que compensou as perdas com a pandemia.

Passado o profundo mergulho do PIB do segundo trimestre, que teve queda recorde, a retomada no terceiro trimestre não foi tão boa quanto a esperada. A economia avançou 7,7%, insuficiente para compensar as perdas do ano. No último trimestre, o recrudescimento da pandemia e a possibilidade de adoção de medidas mais rígidas de distanciamento acenderam novamente o alerta sobre a economia.

Veja como a economia brasileira foi afetada por diferentes fatores em 2020:

Fechamento do comércio e restaurantes pela Covid-19

Foi na terceira semana de março que a pandemia da Covid-19 começou a assustar mais o Brasil: o governo decretou estado de emergência e governos estaduais e municipais começaram a adotar medidas para fechamento de espaços e restrição de circulação de pessoas. Essas ações tiveram impactos diretos na economia.

Em Brasília, por exemplo, o governador Ibaneis Rocha (MDB) já havia determinado uma série de medidas preventivas, como a restrição de acesso a serviços públicos, fechamento de escolas e universidades e a proibição de aglomerações. Em São Paulo, o governador João Doria (PSDB) determinou o fechamento de bares, restaurantes, cafés e lanchonetes por 15 dias em 24 de março, permitindo apenas a operação por sistema de delivery. No Rio de Janeiro, as restrições foram ainda maiores. No dia 19 de março, o governador Wilson Witzel (PSC) determinou o fechamento das divisas do estado para meios de transporte que viessem de outras localidades em que havia circulação do vírus.

O avanço da Covid-19 foi provocando sucessivamente um maior número de fechamento de estabelecimentos, do comércio aos prestadores de serviço, o que se refletiu no péssimo resultado da economia no segundo trimestre. O comércio varejista, por exemplo, sofreu forte contração nos meses de março e abril, e vem batalhando para reverter esses indicadores no acumulado do ano. Situação semelhante ocorre com a indústria, que registrou queda acentuada entre fevereiro e abril, seguida de uma sequência de altas ainda insuficiente para compensar as perdas.

A situação mais crítica é a do setor de serviços, que se retraiu com muita força entre fevereiro e maio. Há um ensaio de retomada, mas insuficiente para tornar o resultado positivo. A confiança da retomada para o setor ainda é baixa. O turismo, por exemplo, tem perda acumulada de R$ 245 bilhões entre março e novembro, de acordo com projeção da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).

Os auxílios e as medidas de mitigação da crise

O governo agiu rapidamente para tentar conter os efeitos da crise imposta pela Covid-19. As principais medidas de mitigação adotadas, no entanto, ampliaram muito o gasto público. Segundo o Tesouro Nacional, esse pacote havia consumido mais de R$ 500 bilhões até 22 de dezembro.

A maior parte desses recursos – R$ 294 bilhões, até a mesma data, mas com mais pagamentos programados até 31 de dezembro – foi usada para bancar o auxílio emergencial. A ação transferiu renda para trabalhadores informais e população vulnerável, que receberam ajudas mensais de R$ 600 em cinco parcelas, prorrogados para mais quatro parcelas de R$ 300 – e com a possibilidade de acumular dois benefícios por mês, no caso de mulheres chefes de família. Havia expectativa de que parte dessas pessoas fossem absorvidas, em 2021, pela reformulação do Bolsa Família, que não deve mais ocorrer.

O governo também criou uma série de linhas de crédito para auxiliar empresas no período mais agudo da crise. A estratégia da União criou o Programa Emergencial de Suporte a Empregos (Pese); o Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte (Pronampe); o Fundo de Aval para as Micro e Pequenas Empresas (Fampe); e o Programa Especial de Acesso ao Crédito (Peac), operacionalizado pelo BNDES por meio do Fundo Garantidor de Risco de Crédito (FGI).

Em alguns casos, como o do Pronampe e seus R$ 71 bilhões, obter o empréstimo foi uma saga e muitos acabaram correndo atrás de outras alternativas, principalmente junto a cooperativas de crédito e fintechs. Já o Peac Maquininhas, por exemplo, teve pouca adesão e o dinheiro acabou “sobrando”.

Outra medida importante foi o socorro a estados e municípios. No fim das contas, a ajuda dada pela União acabou compensando as perdas de estados – em R$ 36 bilhões – e municípios – em R$ 24 bilhões. Apesar da ajuda polpuda, esses entes precisam ficar alertas para 2021, quando voltarão a enfrentar os velhos problemas fiscais de sempre.

Retomada ameaçada pelo avanço da doença

Ao longo dos últimos meses, estados e municípios foram afrouxando as medidas de distanciamento e lockdown, à medida que a pandemia dava uma “folga”. Com isso, foi possível restabelecer o funcionamento de diversos setores da economia, especialmente serviços, e houve uma retomada de atividades. Inclusive, uma série de indicadores mostravam que era possível olhar com otimismo esse movimento, ainda que alguns nichos teriam uma volta mais atribulada.

O abre e fecha de estabelecimentos acabou virando rotina, assim como a troca de bandeiras que sinalizavam a gravidade da pandemia. O que não se esperava era um avanço tão forte da pandemia nos últimos meses. A partir do início de novembro, o número de contaminados e mortos pela doença voltou a crescer, o que exigiu que muitos prefeitos e governadores voltassem a determinar medidas mais restritivas. Muitas críticas foram feitas em relação ao timing desse endurecimento, que ocorreu após o resultado das eleições municipais.

A Covid-19 voltou a avança – seja considerada a primeira ou segunda onda. E afetará o país em meio à tímida recuperação e na véspera das festas de fim de ano, que geram aumento de circulação e também seriam boas oportunidades para consolidar a retomada da atividade econômica nos setores de comércio, serviços e turismo.

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