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Caso Master

CVM ignorou denúncias de irregularidades envolvendo o Banco Master

Banco Master
Sede do Banco Master, em São Paulo, liquidado pelo Banco Central em novembro de 2025. (Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)

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A Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que é o órgão responsável pela fiscalização do mercado de capitais do Brasil, teria ignorado denúncias recebidas desde 2022 sobre indícios de irregularidades nas operações do agora liquidado Banco Master e de fundos de investimentos ligados a ele. Ao todo, foram recebidas cerca de 60 denúncias, algumas delas feitas de forma anônima e consideradas inverosímeis ou não foram adiante por falta de pessoal para apurá-las.

Apurações da Gazeta do Povo com fontes a par da discussão e do UOL publicada nesta sexta-feira (7) aponta que muitas dessas denúncias apontavam manipulação de balanços do Master pelo agora ex-banqueiro preso Daniel Vorcaro, reavaliação de “ativos podres” em fundos fechados e que a conta de toda a fraude recairia ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC), como efetivamente ocorreu após a liquidação das empresas ligadas ao conglomerado gerando um prejuízo de R$ 57 bilhões.

Algumas das denúncias anônimas teriam sido feitas diretamente ao FGC e, posteriormente, encaminhadas à CVM, que deveria apurá-las e tomar providências contra o conglomerado de Vorcaro. “O mencionado arquivamento da denúncia sob o fundamento de ter sido anônima e inverossímil, sem instauração de apuração, é atualmente objeto de avaliação na Corregedoria da CVM, estando em processo de análise nesse momento”, disse o órgão ao UOL.

A Gazeta do Povo procurou a CVM para se pronunciar sobre a apuração e aguarda retorno. Já o FGC informou à reportagem que não comentará as informações.

A informação de que a CVM não tinha pessoal suficiente para apurar as denúncias já era de conhecimento da Polícia Federal após depoimentos, inclusive com o relato de que também não havia orçamento suficiente para dar conta de tantas demandas. No entanto, segundo fontes, até então não se sabia da dimensão do que havia sido ignorado pelo órgão, que chega agora a cerca de 60 denúncias.

“Essa conta vai ser paga pelo FGC. Hoje todo mundo conhece o tal do Banco Master, sede Faria Lima, jatinho, helicópteros e todos os dias páginas inteiras nos jornais e internet com atriz famosa e frase bonita que diz muito e não fala nada”, diz uma denúncia anônima feita em 2022 que o UOL teve acesso.

O relato também apontava que o banco estava preparando “mais um balanço fajuto que será discretamente engolido pelo Bacen (Banco Central)”. De quase R$ 5 bilhões de captação líquida, dizia, “mais de R$ 3 bi estão em ativos ilíquidos (fundos mobiliários, fundos de precatórios, títulos sem rating) e o Bacen não vê nada”.

O dinheiro desviado, disse, era usado por Vorcaro para “gastar feito gente grande”, mas que “o mineiro que é presidente é só um vaidoso que não manda muita coisa”.

Aliados de Vorcaro recebiam recursos desviados

A denúncia anônima ignorada pela CVM também cita aliados de Vorcaro que recebiam parte dos valores desviados, como o ex-sócio Augusto Lima, apontado pela Polícia Federal como principal interlocutor do senador Jaques Wagner (PT-BA) para atuar em interesses do Master no Senado, e o empresário Nelson Tanure que teria se financiado através do banco para fazer seus investimentos pelo país.

“É tão fácil de ver que qualquer estagiário de analista de balanço vê. O lucro do banco vai para a própria empresa do pastinha Augusto Lima que fica com tudo. Outro sócio oculto é o conhecido investidor abutre Nelson Tanure, que indiretamente também se financia no Banco e está comprando o Brasil todo. Os outros sócios são apenas laranjas dos dois”, relatou.

O denunciante anônimo também relatou o modo de operação do Master num “esquema de pirâmide” em que as captações mais novas cobriam as antigas, mas que os “ativos podres” seguiam crescendo até que não houvesse mais solvência. O denunciante anônimo citou que era preciso um “bancão”, ou seja, um banco robusto com mais recursos, “assumir essa bagunça antes que exploda”.

“Manipulação da cotação de fundos abertos (já são investigados na CVM por isso), reavaliação de ativos podres em fundos fechados, estornos de provisões e também a tradicional recompra de créditos podres por fundos de terceiros através de outros fundos em quem investiu foi o próprio banco”, completou.

Posteriormente, Vorcaro se aproximou do então presidente do Banco de Brasília, Paulo Henrique Costa, com quem negociou a venda de carteiras de crédito de R$ 12 bilhões sem lastro e tentou vender a ele parte do Master, que acabou barrada pelo Banco Central já em meio às investigações de irregularidades.

Investigação do Master na CVM

Ao UOL, a CVM informou que criou um grupo de trabalho em 2026 para consolidar o que já tinha recebido de denúncias e informações sobre o Banco Master, a gestora de investimentos Reag e outras instituições financeiras conexas ao grupo. O órgão informou que, em 2022, já tinha 56 processos abertos sobre o conglomerado de Daniel Vorcaro, embora as investigações tenham sido efetivamente tocadas adiante no ano passado até a deflagração da Operação Compliance Zero, no mês de novembro, com a primeira prisão do empresário.

O órgão ainda pontuou que as comunicações formais começaram ainda antes, em junho de 2017, sendo 13 encaminhadas até janeiro de 2026 para o Ministério Público Federal (MPF) e o próprio Banco Central como destinatários mais frequentes.

Em relação ao arquivamento da denúncia anônima retratada na apuração, a CVM afirmou que a área técnica entendeu, na época, que o relato não trazia a denominação específica dos fundos de investimento mencionados e que considerou inviável prosseguir com investigações além das que já estavam em curso. Para o órgão, “os fatos nela narrados vieram a se tornar públicos nos anos seguintes”.

No entanto, as informações apresentadas no relato anônimo passaram a ser reavaliadas posteriormente e que “os parâmetros para o tratamento de denúncias admitem aprimoramento”, mas sem responsabilização individual dos responsáveis.

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