Fábrica de São José dos Pinhais, deixada pela Audi em 2006, produz hoje a família Fox e o Golf “abrasileirado”| Foto: Marcelo Almeida/Arquivo/ Gazeta do Povo

Parceria alemã teve sucesso e erros

A volta da produção dos hatches médios A3 e Golf no Paraná deve reeditar uma parceria de sucesso, e também de erros na época, entre Volkswagen e Audi no Brasil. As duas fabricantes se uniram em 1999 e construíram a fábrica de São José dos Pinhais para abrigar a linha de produção dos dois carros.

A aposta era tida como certa pela aliança alemã, uma vez que os modelos, mesmo importados, tinham boa aceitação pelo consumidor brasileiro. Nacionalizá-los permitiria oferecer volume de produção e preço mais competitivo. Sem contar o atrativo do câmbio daquele período, cuja paridade estabelecida pelo governo federal era de um para um entre real e dólar.

E as duas marcas trilharam a mesma estrada nos primeiros anos de compartilhamento da planta. Aqui eram produzidas a quarta geração do Golf e a primeira do A3, com bons desempenhos nas vendas. Destaque maior para o hatch da Volkswagen, que por diversas vezes fechava o mês na liderança do segmento em número de emplacamentos.

Apesar de não acompanhar a performance de loja do irmão de plataforma, o A3 ainda era o objeto de desejo de muitos jovens de classe média em busca de status. Chegou a ser o carro do ano no Brasil em 2000.

Mas, com o tempo, essa imagem foi se desgastando e de "carro de playboy" ele virou a vedete do movimento tuning, com direito à suspensão rebaixada, rodas "cromadas" e acessórios pra lá de chamativos. Era o começo do fim para o A3, que viria a ocorrer em 2006, já com a cotação do dólar não mais vantajosa.

Na época, o então diretor de Vendas no Brasil, Peter Englschall, admitiu que houve um erro nas projeções feitas sobre o crescimento do mercado brasileiro de automóveis. "A fábrica precisava de uma produção de 20 mil unidades por ano para ser rentável para a Audi e para os fornecedores", disse ele dias antes de encerrar a linha no Paraná.

Os números, na verdade, nunca chegaram perto disso. Em 2001, seu melhor ano no país, a Audi fabricou 13.700 carros. Depois disso, a curva inverteu. Fechou 2005 com 4.475 unidades e no ano do encerramento produziu menos 2 mil modelos do A3.

A partir dali, o hatch passou a vir da Alemanha cobrando a pesada tributação para importados. No caso da Volks, a estratégia de manter o Golf em produção até hoje, porém sem acompanhar as evoluções do modelo europeu, custou a briga pela liderança entre os hatches médios. Desde 2007, o carro ostenta um visual abrasileirado da quarta geração e atualmente emplaca cerca de 800 unidades/mês.

Renyere trovão

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Novo Golf, da Volks, será um dos carros produzidos na fábrica de São José dos Pinhais
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O governo federal e a Audi vão fechar acordo na próxima terça-feira para a retomada da linha de produção de automóveis da empresa na fábrica da Volkswagen em São José dos Pinhais, na região metropolitana de Curitiba. O negócio envolve investimentos de R$ 600 milhões dentro dos próximos quatro anos. O anúncio será feito em encontro da presidente Dilma Rousseff com o presidente mundial da montadora alemã, Rupert Stadler.

A empresa alemã já agendou uma coletiva de imprensa para a terça, às 14 horas, na capital federal, na qual Stadler falará sobre as estratégias da marca para o Brasil e América Latina, oficializando a fábrica no país.

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De acordo com informações confirmadas por fontes no Palácio do Planalto, o plano da Audi é começar a operar em setembro de 2015, com uma meta de 7 mil veículos por ano e a contratação de 700 funcionários. Até 2019, a ideia é ampliar a produção para 25 mil a 30 mil unidades ao ano e admitir até 3 mil funcionários.

A nova linha vai trabalhar, a princípio, com o modelo A3, hatch e sedã, juntamente com o novo Volkswagen Golf, que virará produto nacional provavelmente na mesma época – a sétima geração será lançada no Brasil no próximo dia 27, importada da Alemanha.

A negociação está inserida no programa Inovar-Auto, do governo federal. A iniciativa concede benefícios no pagamento de Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para empresas que estimularem e investirem em pesquisa e desenvolvimento dentro do Brasil. O desconto de IPI pode chegar a até 30 pontos porcentuais para automóveis produzidos e vendidos no país, mas as montadoras precisam cumprir uma série de contrapartidas relacionadas à eficiência energética e investimentos em inovação. No caso da Audi, essas exigências devem gerar, em médio prazo, a necessidade de instalação de um parque industrial próprio.

A montadora foi a última de 37 empresas automobilísticas a solicitar a habilitação no programa, desde novembro de 2012. O pedido ocorreu em março deste ano e, a partir de então, começaram as especulações sobre a volta da produção na fábrica de São José dos Pinhais. O diálogo da montadora com o governo federal passou pela interlocução da ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann.

Ainda na sexta-feira, a assessoria de imprensa do Palácio Iguaçu confirmou que existe uma negociação com as montadoras (a Audi faz parte do Grupo Volkswagen) e que elas estão avançadas. Mas não caberia ao governo fazer o anúncio, e sim às empresas.

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Na Alemanha

Os executivos da empresa que falam pelas montadoras estão na Alemanha participando do Salão de Frankfurt. Lá, durante a semana, rumores de uma retomada da produção de carros Audi no Brasil ganharam força. Primeiro, Ulrich Hackenberg, membro do Conselho para Desenvolvimento Técnico da empresa, confirmou que o novo A3 será feito no país, mas não quis revelar onde. Já o presidente da marca, Jörg Hofmann, afirmou que a montadora pretende vender 30 mil carros por ano no país nos próximos cinco anos. A meta é alta e só seria viável com uma fábrica no Brasil.

Luca de Melo, CEO de Marketing e Vendas da marca, também informou no evento a intenção de investir no Brasil. "O Brasil é um mercado fundamental para nós, e por inúmeras razões é importante que tenhamos uma produção local", analisou. Segundo ele, o A3 sedã é o modelo mais "interessante" para o mercado brasileiro.