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Ciclista fotografa instalação onde passava o Muro de Berlim: Alemanha é pressionada para apoiar recuperação econômica | Frabrizio  Bensch/ Reuters
Ciclista fotografa instalação onde passava o Muro de Berlim: Alemanha é pressionada para apoiar recuperação econômica| Foto: Frabrizio Bensch/ Reuters

Receituário

Com juros perto de zero, BCE tem poucas alternativas de estímulo

Além do expansionismo fiscal, a Europa poderia aplicar sua versão de relaxamento monetário para voltar a crescer, que significa imprimir mais dinheiro. A medida foi adotada pelos Estados Unidos e pelo Reino Unido recentemente e pode aumentar a demanda dentro do bloco. "Este receituário já funcionou muito bem para reativar essas economias. O grande problema é que a Alemanha é traumatizada com a inflação decorrente do relaxamento quantitativo e resiste em adotá-lo", diz Marcos Vinícius de Freitas, professor da Faap.

Como exemplo da resistência alemã, lembra Giorgio Romero Schutte, coordenador do curso de relações internacionais da Universidade Federal do ABC, está a reivindicação da formação de um fundo de estabilização dos bancos, similar ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC) do Brasil, para evitar insolvências no sistema financeiro no futuro.

Além disso, os investidores já estão caminhando naturalmente para os Estados Unidos, que exibem taxas mais consistentes de crescimento econômico. "Com a previsão de um aumento de até 3% do PIB norte-americano neste ano, a desvalorização do euro é uma realidade", diz Silvio Campos Neto, economista da Tendências Consultoria.

Estímulo

Outra medida que poderia ser adotada é a redução da taxa de juros. Mas, no caso europeu, já não há mais onde cortar, uma vez que taxa praticada é de 0,05% ao ano. "Há inclusive casos de linhas de juros negativos, que mostra que alguns bancos preferem mais ter renda zero do que emprestar dinheiro", diz Fernando Sampaio, da LCA Consultores. O que resta é a injeção de mais liquidez no mercado com a compra de títulos soberanos.

Pressionada pelo risco crescente de deflação e de uma nova recessão, a Zona do Euro voltou a ser a peça mais frágil da economia global. Congregação de 18 países com visões diferentes sobre como gerir a economia, o bloco está dividido entre os que pedem uma maior expansão dos gastos públicos e os defensores da responsabilidade fiscal. Divisão que pode levar a uma ação fraca ou tardia, com efeitos que chegariam até o Brasil.

INFOGRÁFICO: A Zona do Euro engloba 18 países que fazem parte da UE e usam o euro como moeda

Segundo o último relatório do Banco Central Europeu, a expectativa de crescimento média dos países integrantes da Zona do Euro caiu de 1,2% para 0,8% neste ano e a inflação deve ficar perto de zero tanto em 2014 quanto em 2015. Porém, países como a Grécia e Espanha, onde o desemprego e o temor de uma possível perda de renda são mais fortes, exibem deflação de, respectivamente, 0,8% e 0,4% acumulada no ano.

O quadro é delicado porque uma deflação pode detonar uma espiral de estagnação econômica como a ocorrida no Japão dos anos 90 e 2000, com grandes chances de contaminar outras economias que ainda estão se recuperando da crise de 2008, como Estados Unidos e Reino Unido. Para o Brasil, uma recessão forte na Europa significaria a perda de um mercado importante e a possível fuga de investidores.

"Embora o Brasil tenha relações comerciais diversificadas, incluindo um intercâmbio forte com os Estados Unidos e Ásia, não há dúvida de que o cenário prolongado de baixo crescimento na Europa afeta o humor dos mercados e emperra ainda mais um país que já está debilitado", diz o diretor da LCA Consultores Fernando Sampaio.

"Do ponto de vista da economia brasileira, que deve ter um crescimento de 0,2% neste ano, interessa que a Europa, se não ajudar, ao menos não atrapalhe o desempenho de nossos outros importantes parceiros comerciais [EUA, China e Mercosul]", afirma Welber Barral, sócio da consultoria Barral M Jorge, especializada em comércio exterior.

Divisão

A economia da Zona do Euro passou por duas recessões desde 2008 e continua dividida entre o sul em crise aguda e o norte, em especial a Alemanha, em velocidade de cruzeiro. O poder da economia alemã, aliás, foi o que levou países como Portugal e Grécia a fazerem ajustes profundos. Passados seis anos do início da crise, porém, a estratégia do ajuste parece estar se esgotando e mesmo a Alemanha exibe um crescimento menor. Para muitos analistas, a Zona do Euro precisa de estímulo e não de mais cortes de gastos.

Cobrada pela Alemanha desde o auge da crise financeira em 2008, a austeridade provoca efeitos recessivos. Em razão disso, aos cortes de gastos público deveriam somar-se uma redução da carga tributária e uma desregulamentação do trabalho, defende o cientista político Christian Lohbauer, do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo. "A Europa precisa desengessar os custos do trabalho, de modo a aumentar a competividade com os rivais. Hoje, o setor privado é pesadamente taxado e seria um bom momento para corrigir os custos tributários elevados."

Já na visão defendida por alguns líderes políticos de países como França e Espanha, deveria haver um maior expansionismo fiscal, ou seja, aumento dos gastos públicos. "A corrente expansionista prega que as medidas de austeridade já não surtem mais efeito e o estado deveria investir em obras de infraestrutura, como portos e estradas. Mas, como a relação dívida-PIB de muitos países do bloco é enorme, a disputa não parece ter fim cedo", afirma Lohbauer.

Banco Central

O presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi, tem feito esforços para evitar a saída de países-membros e hoje a possibilidade de algum deles deixar o bloco e retomar sua antiga moeda já parece distante. No entanto, segundo Marcos Vinícius de Freitas, professor de relações internacionais da Fundação Armando Alvares Penteado (Faap), ele ainda não conseguiu conciliar o lado que pede mais austeridade, encabeçado pela Alemanha, com a porção liderada pela França, que reivindica que as conquistas sociais não sejam abandonadas.

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