Em seus discursos de encerramento na cúpula do Mercosul no Rio de Janeiro, todos os presidentes dos países participantes defenderam a integração econômica e social do bloco e da América do Sul – mas a harmonia entre os líderes parece acabar por aí. Apesar de concordarem que o Mercosul é a única maneira de fortalecer a posição econômica e geopolítica dos países da região, os parceiros ainda não se entenderam sobre como sustentar essa integração.De um lado, os presidentes da Venezuela, integrante do bloco desde julho do ano passado, e da Bolívia, que pode ser aceita em alguns meses, acreditam que o caminho é a nacionalização das economias. Foi o que pregou o venezuelano Hugo Chávez em seu discurso final. "Eu sugiro uma maior participação do Estado na economia", afirmou. Segundo ele, somente desta forma os governos sul-americanos poderão tomar decisões sobre estratégicas de crescimento para o continente.

Evo Morales, da Bolívia, por sua vez, sugeriu que o Mercosul se mobilize contra o "império dos países desenvolvidos e do FMI (Fundo Monetário Internacional)". Ele causou polêmica ao provocar seu colega colombiano, Álvaro Uribe, durante a cerimônia de encerramento. "Cuba, Argentina e Venezuela vivem com dignidade, no anti-neoliberalismo, enquanto a Colômbia, apesar da ajuda americana, tem déficit comercial", disse.

As diferenças entre ricos e pobres também foi tema do discurso do presidente uruguaio, Tabaré Vázquez, mas ele se referiu às desigualdades internas do bloco. Uruguai e Paraguai reclamam que, por serem economias menores, levam desvantagens nas negociações comuns. O presidente uruguaio citou que o país coleciona um déficit comercial total com o bloco de cerca de US$ 1 bilhão, em especial com o Brasil. Por isso, pedem mudanças nas regras do Mercosul e tratamento diferenciado – para Vázquez, sem essas mudanças não haverá integração. "Quero enfatizar que o Uruguai tem confiança no processo de integração, mas o Uruguai pede justiça no tratamento das assimetrias", disse ele em seu discurso. As discussões sobre como tratar os países menores foram adiadas para o próximo encontro da cúpula, que acontecerá no Paraguai.

A ala "rica" do Mercosul, Brasil e Argentina, não discorda que existem diferenças internas e que elas precisam ser contornadas. O presidente Lula, no entanto, deixou claro ao longo do encontro que condena as negociações paralelas entre o Uruguai e os Estados Unidos, enquanto o argentino Néstor Kirchner desaprovou, também durante o encontro, a entrada da Bolívia – outro país pobre - no bloco com tratamento diferenciado. Os discursos de encerramento de ambos, no entanto, foi conciliatório. Lula disse o compromisso do Mercosul é com o aprofundamento da democracia, sem esquecer dívidas sociais dos países da região. Kirchner, por sua vez, afirmou que a entrada de novos integrantes fortalece o bloco – sem esquecer de mencionar que as diferenças internas ameaçam a integração.

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