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Imagem de arquivo da produção da Ford em Camaçari, na Bahia
Imagem de arquivo da produção da Ford em Camaçari, na Bahia| Foto: Divulgação/Ford

Na segunda-feira (11), a Ford anunciou o fim de uma história de mais de um século com o Brasil. A montadora decidiu fechar as fábricas que mantinha no país – em Camaçari (BA), Taubaté (SP) e Horizonte (CE) –, concentrando a produção da América do Sul na Argentina e no Uruguai. Em solo brasileiro permanecerão, apenas, o Campo de Provas, em Tatuí (SP); o Centro de Desenvolvimento de Produto, na Bahia; a sede administrativa da América do Sul; e um rastro de 5,3 mil trabalhadores diretamente afetados pelo fechamento das plantas (sem contar fornecedores e empregos indiretos).

A decisão, que pegou de surpresa os trabalhadores da montadora, é resultado de um conjunto de fatores. A crise do novo coronavírus contribuiu para a o fechamento das fábricas, segundo comunicado da montadora. Somados à pandemia e ao cenário político do país, porém, há fatores estruturais, que inevitavelmente levariam a uma reestruturação dos negócios.

A Gazeta do Povo ouviu especialistas e detalha 4 pontos que ajudam a entender por que a Ford decidiu deixar o país. Confira:

1. Transformações no mercado automobilístico afetam a Ford

A decisão de fechamento das fábricas vem em meio a um processo mais amplo, de transformações que a indústria automobilística vem sofrendo mundialmente. Nos países desenvolvidos, a perspectiva é de que o futuro será de automóveis movidos a energia limpa, e não a gasolina ou diesel. "Isso está trazendo desafios enormes para as empresas", avalia Josilmar Cordenonssi, professor de Economia da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Sintomas do cenário de transformação já aparecem em outras gigantes do setor. No início do ano, por exemplo, acionistas da Peugeout e da Fiat Chrysler aprovaram a fusão entre as duas marcas, com a criação da Stellantis. "A tendência é de redução no número de plantas, porque não há espaço para tantas fábricas. É um movimento natural de enxugamento", completa Cordenonssi.

Otto Nogami, professor do Insper, destaca que o próprio conceito em torno da indústria automobilística vem sofrendo alterações. "Hoje, o automóvel é muito mais um serviço do que um produto. Isso implica em um volume de investimentos gigantesco e, principalmente, em uma infraestrutura adequada", explica.

2. Mudança de estratégia na Ford

Em meio aos desafios mundiais, a própria Ford vem remodelando seus negócios, buscando aumentar sua competitividade. "A Ford já tinha problemas operacionais no mercado brasileiro. Depois da separação da Autolatina [joint venture com a Volkswagen], ela não conseguiu mais se recolocar no mercado de forma competitiva", lembra Nogami.

Em 2019, a montadora já havia fechado uma planta no país, destinada à produção de caminhões, em São Bernardo do Campo (SP). Naquele ano, a marca também deixou de produzir o Fiesta.

Agora, a montadora decidiu deixar de lado modelos como o Ka e o Ecosport, focando a estratégia de mercado em automóveis de maior valor. No comunicado em que anunciou o fechamento das plantas, a Ford informa que pretende investir seus esforços na nova Ranger, no Bronco, no Mustang Mach 1 e na Transit, e que também " planeja anunciar outros modelos totalmente novos, incluindo um veículo híbrido plug-in".

"A Ford está focando naquilo que é mais rentável. É um processo de consolidação do mercado de automóveis, que precisa ter escala e volume de investimentos para fazer frente ao processo de transição pelo qual o setor vem passando", avalia Antônio Carlos Alves dos Santos, professor da PUC-SP.

Na Argentina e no Uruguai – países em que a produção da Ford para a América do Sul foi centralizada –, o incentivo é, justamente, para a produção de modelos como picapes e SUVs, que têm maior valor agregado.

3. Impacto do coronavírus

A mudança de estratégia e a nova configuração do mercado global de automóveis se somou, ainda, ao choque provocado pela pandemia de Covid-19. Com a diminuição da circulação de pessoas no mundo todo, caíram também as vendas de veículos.

No caso brasileiro, além da redução da demanda, o aumento do dólar pressionou os preços dos componentes importados. Em maio, reportagem da Gazeta do Povo já mostrava que o setor temia a combinação entre aumento dos custos e queda nas vendas – no que o presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Luiz Carlos Moraes, classificou como uma "combinação explosiva".

O fim de 2020 concretizou o cenário de perdas para a indústria automobilística. Segundo balanço da Anfavea, houve queda de 26,2% no número de veículos licenciados no ano passado, na comparação com 2019. Na produção, o tombo foi de 31,6%, mesmo com a recuperação registrada no mês de dezembro.

A redução na produção se reflete, também, no índice de ociosidade das fábricas das montadoras no país. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Economia, ligado à Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), as plantas do setor usaram, em média, 69,33% de sua capacidade instalada nos últimos quatro meses de 2020. A média histórica era de 83,54%.

No caso da Ford, o número de veículos licenciados caiu de 196.330 em 2019 para 119.454 no ano passado – redução de quase 40%.

4. O combo de incertezas e falta de competitividade no Brasil

Se a tendência pela diminuição no número de fábricas parece ser inevitável, o cenário político e econômico no país pode ter contribuído para que a decisão tenha sido tomada pela Ford já em 2021. A propósito do anúncio, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) divulgou nota em que classifica a decisão da montadora como um "alerta" para governo federal, estados e municípios "sobre a necessidade se aprovar, com urgência, medidas para a redução do Custo Brasil". Entre as ações citadas pela CNI está a realização da reforma tributária, que caminha a passos lentos tanto no Ministério da Economia quanto no Congresso Nacional.

Ainda na segunda (11), o Ministério da Economia emitiu nota sobre o caso, afirmando que a decisão ocorreu "em meio à forte recuperação" da indústria no país, com "resultados superiores ao período pré-crise". O presidente Jair Bolsonaro também comentou o caso, lamentando as demissões e afirmando que a Ford queria subsídios de R$ 20 bilhões para ficar no país.

De fato, a indústria automobilística, historicamente, recebeu generosos subsídios não só do governo federal, mas também de estados e municípios. A questão é que os incentivos sempre tiveram caráter fiscal, sem foco em transferência de tecnologia ou inovação. "É dinheiro público que foi usado para subsidiar uma tecnologia já ultrapassada", diz Cordenonssi, da Mackenzie.

E, mesmo com os incentivos, o período pré-crise do coronavírus não era dos melhores para a indústria – não só a automobilística. Não é à toa que, no passado recente, empresas como a Sony e a farmacêutica Roche já haviam decidido deixar o país.

"O governo vem, há décadas, com soluções pontuais. Os grandes investidores têm necessidade de uma percepção de longo prazo. As multinacionais projetam sua operação para 10, 20 anos", destaca Nogami, do Insper. "Por isso, para o mundo empresarial, o Brasil é um país extremamente difícil de se trabalhar. É sempre um clima de incerteza, de insegurança. Você acorda de manhã e diz 'o que será que vai acontecer hoje?'", completa.

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