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Defesa

Brasil eleva gasto militar quatro vezes acima da média mundial mesmo sem estar em guerra

Gasto militar brasil
Presidente Lula acena para o primeiro caça Gripen F-39 E montado no Brasil, na unidade da Embraer em Gavião Peixoto (SP) (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

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O gasto militar do Brasil disparou para US$ 23,9 bilhões em 2025, alta real de 13% em relação ao ano anterior — mais de quatro vezes a média mundial, segundo o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (Sipri, na sigla em iglês).

Apesar do aumento, uma parcela cada vez maior dos recursos continua destinada ao pagamento de militares inativos (aposentados e pensionistas), que hoje já custam mais do que o efetivo na ativa.

Segundo dados do Observatório de Pessoal do Ministério da Gestão, a folha de aposentados e pensionistas cresceu mais de duas vezes mais rápido que a de ativos e segue pressionando o orçamento de defesa. Em 2020, para cada real gasto com militares na ativa, outros R$ 1,63 iam para inativos. Em 2025, já eram R$ 1,82.

Os gastos com militares inativos saltaram de R$ 50 bilhões para R$ 60,7 bilhões entre 2020 e 2025, uma alta nominal de 21,4%. Já as  despesas com pessoal militar ativo cresceram 9,2% entre 2020 e 2025, passando de R$ 30,6 bilhões para R$ 33,4 bilhões. 

Gasto militar do Brasil na contramão das Américas

A disparada nos gastos militares em 2025 colocam o Brasil na contramão do restante das Américas: os gastos no continente recuaram 6,6% em termos reais no período.

Com isso, o país consolidou a liderança em gastos com a Defesa na América do Sul. Em escala global, o Brasil ocupa a 21ª posição no ranking dos maiores orçamentos militares.

Apesar da aceleração recente, o esforço brasileiro continua pequeno em comparação internacional. O dispêndio militar brasileiro representou apenas 1,1% do PIB em 2025, contra média mundial de 2,5%, também segundo o Sipri. Uma razão histórica é que o Brasil não participa diretamente de um conflito armado desde a Segunda Guerra Mundial.

A última vez que o paíse envolveu em conflitos foi há oito décadas com o envio de tropas e equipamentos para apoiar o Quinto Exército dos EUA na libertação de cidades italianas durante a Segunda Guerra. O território nacional não sofre invasão há mais de 160 anos, desde a ofensiva paraguaia ao Mato Grosso, em 1864.

Fragatas, caças e submarinos lideram investimentos em equipamentos

Além da ampliação dos custos com pessoal inativo, especialistas ouvidos pela Gazeta do Povo atribuem o crescimento das despesas com defesa à destinação de recursos a desenvolvimento tecnológico naval e aéreo.

As fragatas da classe Tamandaré, os submarinos Scorpène e os caças Gripen são contratos que finalmente chegam à fase de entrega. Os submarinos foram encomendados ainda no segundo mandato de Luiz Inácio Lula da Silva; os caças, na gestão Dilma Rousseff.

O volume de importações de sistemas de armas de grande porte cresceu 150% entre 2021 e 2025 na comparação com o quinquênio anterior (2016-2020), segundo o Sipri. O país tornou-se o 25º maior importador de armas do mundo e absorveu 60% das compras sul-americanas.

Para Gunther Rudzit, professor de relações internacionais da ESPM, isso mostra o estado precário das necessidades mais básicas das Forças Armadas. "O problema não se limita a projetos estratégicos. Há um fosso de reposição de itens elementares", diz.

Especialistas descartam "corrida armamentista"

Apesar da disparada de verba pública destinada à Defesa, especialistas ouvidos pela reportagem descartam uma corrida armamentista por parte do governo brasileiro.

Rudzit classifica o aumento nos gastos militares como reação tardia a duas realidades, uma interna e outra externa. Internamente, os sucessivos governos brasileiros nas últimas três décadas não tiveram a área da Defesa como prioritária.

"Já externamente, o enfraquecimento da Ordem Internacional Liberal — o sistema de instituições e regras moldado pelos Estados Unidos após a Segunda Guerra — levou o governo brasileiro a acordar para essa nova ameaça", afirma.

O professor da ESPM avalia que as despesas são uma recomposição das capacidades perdidas nas últimas décadas e não representam uma mudança profunda na postura estratégica ou na base industrial militar. "Basicamente você tem o Brasil com equipamentos militares já relativamente ultrapassados e poucos. O aumento não representa uma transição estrutural da doutrina de soberania ou uma guinada belicista."

Dinâmica política afeta o gasto militar brasileiro

A política doméstica, porém, explica para onde vai o dinheiro. Leonardo Paz, pesquisador do Núcleo de Prospecção e Inteligência Internacional da FGV. identifica dois momentos políticos distintos que contribuíram para ampliar o orçamento de defesa.

"No governo Jair Bolsonaro, fortemente apoiado nas Forças Armadas, a alocação de verbas priorizou pessoal. Não houve foco em equipamento", diz.

"Já na gestão Lula, o governo busca acalmar os ânimos das Forças, mas ele também vai lá e dá uma grana pros militares", observa Paz, que atribui a movimentação orçamentária mais à dinâmica política doméstica do que a uma mudança na doutrina de defesa.

Em novembro de 2025, Lula sancionou lei complementar que aloca R$ 30 bilhões adicionais em seis anos para projetos estratégicos de defesa. A medida cria exceção orçamentária — uma brecha no teto de gastos — que permite aplicar até R$ 5 bilhões por ano fora do limite fiscal.

Os projetos incluem a modernização de frota militar, caças, sistemas de monitoramento de fronteiras e o desenvolvimento do submarino nuclear brasileiro.

Na prática, a medida amplia os recursos disponíveis para reequipar as Forças Armadas, mas também aumenta a pressão sobre um orçamento federal que já enfrenta déficits recorrentes.

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