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Apesar do Estado

Após três recomeços, irmãos empresários criam negócio de mobilidade milionário

Irmãos empresários
Nascidos em Londrina (PR), os irmãos Maurício (esq.) e Leandro (dir.) empreenderam nos mais variados pontos do país, do Paraná a Rondônia, passando pelo Mato Grosso. (Foto: Divulgação/Syella Pinheiro)

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Em 2001, poucos meses depois de se mudarem para a Flórida, os irmãos brasileiros Leandro e Maurício Dias de Farias decidiram voltar ao país. Os atentados de 11 de setembro haviam mudado o ambiente econômico nos Estados Unidos e alterado os planos dos dois, que até então não pretendiam retornar ao Brasil.

Passaram-se 25 anos e Maurício ainda se pergunta o que teria sido do destino dos dois, caso tivessem permanecido no exterior. “Uma coisa é certa: também estaríamos empreendendo”. Com uma diferença crucial: “Eu admiro a cultura americana de fazer negócios. Se você se destaca, tem recompensa pelo que faz. Lá, o empresário é aplaudido. Aqui, muitas vezes, ele é criticado”.

De volta ao país natal, os dois seguiram rumos distintos, até se encontrarem novamente e darem início a uma série de empreendimentos em logística. O mais recente, a Autonomoz, é uma plataforma de mobilidade corporativa surgida em 2017 e que atualmente conta com quase mil motoristas parceiros, operando em 14 estados. A expectativa dos empresários é de encerrar o ano com faturamento de R$ 15 milhões, que representaria um crescimento de 18%.

“Empreender no Brasil é muito difícil. Três crises nos levaram a ter que reiniciar do zero. Mas a cada recomeço voltamos maiores do que antes”, relata Leandro. “Com as taxas de juros que temos no país, seria mais fácil investir em renda fixa. Mas empreender não é apenas um trabalho, é um propósito. Hoje, mais de mil famílias dependem de nós”.

** Esta matéria faz parte da série de reportagens Apesar do Estado, da Gazeta do Povo, que retrata a trajetória de grandes empresários brasileiros que venceram os desafios de empreender em um dos ambientes de negócios mais hostis do mundo. Confira outros textos da série neste link.

Da Flórida à Amazônia

Leandro tem 44 anos. Maurício, 45. Nasceram e cresceram em Londrina (PR). “Crescemos juntos, com as mesmas amizades. Estudávamos na mesma sala na graduação em Administração de Empresas quando decidimos trancar o curso e nos mudar para os Estados Unidos”, diz o irmão mais novo.

“Na Flórida, em pouco tempo alcançamos um crescimento substancial na qualidade de vida e no rendimento financeiro. Eu cheguei a trabalhar das 9h às 23h. Entrava no restaurante para arrumar o salão, depois ajudava a atender às mesas e, nos momentos vagos, colaborava com o delivery. Depois, fazia a limpeza do salão. Tinha várias funções em um único local e era remunerado por isso”, conta Leandro.

 “Lá, quem trabalha consegue ter uma vida confortável. O esforço é valorizado e recompensado”, diz Maurício.

Ao retornar ao Brasil, Leandro abriu uma agência de marketing digital em Curitiba (PR). “Troquei o carro que eu tinha comprado nos Estados Unidos por um notebook, e com ele comecei a empresa”, aponta.

Já Maurício se instalou em Cuiabá (MT), onde conquistou um contrato para prestar serviços de transporte escolar rural na cidade. O CNPJ aberto na época, em 2005, continua ativo até hoje, e o funcionário número 1 ainda trabalha para a empresa.

A partir de 2008, a empresa de Maurício assumiu um contrato de transporte de trabalhadores envolvidos com a construção das usinas hidrelétricas de Santo Antônio e Jirau, que formam o complexo hidrelétrico do Rio Madeira, em Porto Velho (RO). “Chegamos a transportar 4 mil pessoas por dia”, conta o empresário.

Leandro encerrou a agência e se instalou em Cuiabá para abrir a frente de locação de veículos da empresa. “Em Porto Velho, aprendemos a operar uma grande empresa, com mais de 250 funcionários”, diz.

Em 2012, entretanto, o contrato foi cancelado sem aviso prévio. “A operação com transporte escolar em Cuiabá ainda existia, mas parecia pequena perto do que tínhamos em Porto Velho, onde tivemos que encerrar as atividades”, diz Leandro.

Os irmãos ainda retomariam o contrato, meses depois, e chegariam a contar com 300 colaboradores. No intervalo até recuperar o cliente, passaram 15 dias na China em busca de contatos e informações sobre tendências de mercado. “Voltamos de lá com inúmeras ideias”, diz Maurício. A atenção constante a soluções inovadoras levaria os dois a fundar a Autonomoz. Mas, antes, seria preciso superar outros desafios.

De 300 para 30 colaboradores

Em 2015, os irmãos empresários venceram uma licitação para atender ao transporte de trabalhadores da obra da usina hidrelétrica Itaocara, planejado para ser executado no Rio Paraíba do Sul, na divisa entre o Rio de Janeiro e Minas Gerais.

“Nos estabelecemos, levamos ônibus para a região e estávamos posicionados para operar quando veio a crise do impeachment de Dilma Rousseff e as investigações da Operação Lava-Jato. O Brasil parou, em termos de obras de construção civil de grande porte”, recorda Leandro. “Reduzimos novamente a empresa, para 30 colaboradores, e precisamos recomeçar mais uma vez”. A usina nunca saiu do papel.

Maurício voltou a Cuiabá, enquanto Leandro tentou manter, em São Paulo (SP), uma frota de veículos a serviço da Uber, que havia chegado ao Brasil em 2014. Rapidamente, as grandes locadoras de automóveis identificaram e dominaram este mercado. “Recuamos nessa frente de atuação. Nem imaginávamos que, poucos anos depois, criaríamos nossa própria plataforma de transporte”, diz.

Em paralelo, em 2016, os irmãos iniciaram uma negociação para prestar serviços de transporte de colaboradores para a Rumo Logística. “Propusemos um projeto que ia além do que o edital previa. Concorremos com as maiores empresas do Brasil em fretamento e acabamos por conseguir 31 dos 32 contratos da companhia”.

A operação dos empresários, então, ganhou escala: era preciso atender a 67 cidades, em seis estados. Esta característica da operação levou os sócios a investir em tecnologia de monitoramento.

“Antes, tínhamos os motoristas e os veículos à nossa vista. Agora, precisávamos monitorar à distância. Criamos então a Autonomoz como um centro de controle operacional, para funcionar 24 horas por dia”, diz Maurício.

A empresa de transportes dos irmãos, chamada Rhyno, passou então a contar com a Autonomoz como base de suas operações, até que a solução ganhou vida própria e se tornou um empreendimento de alcance nacional, para além das demandas da Rumo Logística.

Irmãos empresários AutonomozLeandro e Maurício à frente da frota de um de seus empreendimentos, a empresa de transportes Rhyno, em 2018: resiliência apesar das crises. (Foto: Divulgação/Paula de Souza)

Ambiente brasileiro pesa sobre decisões de investimento dos empresários

Os sócios mantêm olhos abertos a outros possíveis empreendimentos, desde que o cenário brasileiro viabilize suas apostas. “O Brasil é o país do futuro, mas o futuro nunca chegou. Temos que pagar pela farra de um governo populista e irresponsável. Neste momento, a palavra de ordem é cautela”, afirma Maurício.

Os sócios consideram que diversificar atividades e mercados pode representar um caminho para ampliar a resiliência. “Vemos empresas nacionais de grande porte desanimadas com o Brasil e investindo em mercados no exterior. Também consideramos a possibilidade de explorar outros países”, diz o irmão mais velho.

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