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Combustíveis e energia estão pressionando fortemente a inflação.| Foto: Pedro Ventura/Agência Brasília

Não bastasse a forte alta de preços dos últimos meses, as perspectivas para os próximos não são das melhores. A deterioração do cenário econômico e as turbulências políticas têm piorado as expectativas de inflação para 2021 e 2022, com consequências para famílias, trabalhadores, empresas e governo.

As estimativas para 2021 estão em alta há 24 semanas, segundo o relatório Focus — um conjunto de projeções coletadas pelo Banco Central junto a instituições financeiras. Apenas nas últimas cinco semanas, a mediana das projeções para o IPCA (a "inflação oficial") ao fim do ano saltaram de 7,05% para 8,35%. As expectativas para 2022, por sua vez, sobem há nove semanas e, nas últimas cinco, o ponto médio passou de 3,9% para 4,1%.

O IPCA encerrou agosto com alta de 0,87%, a maior para o mês em 21 anos. A alta nos preços é generalizada. Segundo o BC, 71,88% dos produtos e serviços tiveram reajuste em agosto. É a maior disseminação desde dezembro de 2020.

Os dados preliminares deste mês assustam. O IBGE revelou nesta sexta-feira (24) que o IPCA-15 — prévia do IPCA "cheio" — foi de 1,14%, pior índice desde fevereiro de 2016 e o mais alto para meses de setembro desde 1994.

“A inflação está mais alta e mais persistente. Não é um fenômeno transitório”, diz Simão Davi Silber, presidente do conselho curador da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) e professor da Universidade de São Paulo (USP).

Uma série de fatores explica a alta nas expectativas para a inflação, segundo o economista Nicolas Borsoi, da Nova Futura Investimentos: o choque das commodities, problemas climáticos, disrupção em cadeias produtivas e a retomada do segmento de serviços. “Muitos já estão repassando custos.”

Outro fator que contribui para a elevada inflação é o câmbio desvalorizado. Na quinta-feira (23), a cotação média do dólar comercial foi de R$ 5,29, segundo o Banco Central. Modelos de várias instituições sinalizam que a taxa deveria estar no patamar de R$ 4,80. No fim de junho, o dólar comercial chegou a ser vendido por uma média de R$ 4,92, o menor nível do ano.

As pressões devem continuar: por causa da maior inflação neste ano, há uma inércia mais elevada para 2022, aponta o Borsoi: “Há muitos contratos que são indexados”. Além disso, há incertezas em relação ao cenário climático.

As eleições também começam a entrar na ordem do dia, e têm potencial de manter o real desvalorizado em relação ao dólar. “Questões fiscais, como o teto de gastos, passam a pesar. São fatores que podem ter quatro, oito anos de impacto”, diz Marco Caruso, economista-chefe do banco Original.

Juros em alta reduzem expectativa de crescimento

A principal carta na mão que o governo tem para controlar a alta nos preços é o aumento na taxa básica de juros. Algumas instituições financeiras projetam que a Selic poderá encerrar 2021 em 9% ao ano. Atualmente ela está em 6,25%.

O remédio tem um efeito colateral na economia, que já está sendo sentido: as expectativas de crescimento estão perdendo vigor.

Dados do relatório Focus sinalizam para uma expansão de 5,04% para o PIB em 2021. Há cinco semanas o número era de 5,3%. E o ponto médio das projeções para 2022 caiu para 1,63%, terceira semana seguida de queda.

Há previsões mais pessimistas: a MB Associados projeta que o PIB crescerá 0,4% no ano que vem e o Itaú, 0,5%. O governo, por outro lado, mantém sua projeção para 2022 em 2,5%, apostando no efeito de carregamento estatístico herdado de 2021, crescimento do investimento privado e consolidação fiscal.

População de baixa renda: afetada por inflação nos alimentos e na energia

A alta generalizada nos preços afeta mais as famílias de baixa renda. “Com menos qualificação e com o desemprego elevado, elas têm a inflação nos calcanhares”, diz Silber.

Cálculos feitos pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) indicam que a inflação para as famílias de renda muito baixa (menor que R$ 1.808,79) foi de 10,6% nos últimos 12 meses. As de renda baixa (R$ 1.808,79 a R$ 2.702,88), viram os preços aumentarem 10,37%, em média.

Um fator que faz com que elas sejam mais afetadas é a maior dependência de itens essenciais, como alimentos e energia em seu orçamento doméstico, explica o coordenador de pesquisas de preços na Fundação Getulio Vargas (FGV), André Braz.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), nos últimos 12 meses, a alimentação em casa ficou, em média, 16,59% mais cara — o arroz com feijão, um “clássico” na mesa dos brasileiros, aumentou em torno de 20%. A energia aumentou 21,08% e os combustíveis, 41,33%.

Serviços em alta devem afetar mais a população de renda alta

A tendência para os próximos meses é de que a população de alta renda comece a sentir mais o impacto da inflação. Dados do Ipea mostram que a inflação para as famílias com renda mensal superior a R$ 17.764,49 foi de 8,04% em 12 meses. O motivo é a retomada do setor de serviços.

“Há uma demanda reprimida por lazer”, cita Caruso, do banco Original. Isso levou a um represamento nos preços e, agora, muitas empresas estão recompondo suas margens, cita a economista Lisandra Barbero, também do Original. As passagens aéreas, por exemplo, acumularam alta de 20,8% nos últimos dois meses.

Na avaliação da economista Tatiana Nogueira, da XP Investimentos, o IPCA-15 divulgado nesta sexta trouxe uma "surpresa" justamente nesse segmento de serviços, cuja inflação subiu 0,74% na prévia de setembro, após alta de 0,29% em agosto. "Os desvios mais significativos de nossa projeção vieram de passagem aérea", escreveu a economista, em relatório.

Mas não são só os serviços que estão ficando mais caros. Itens que tiveram as vendas represadas durante os piores momentos da pandemia, como é o caso do vestuário, estão aumentando desde fevereiro. A alta é concentrada nos últimos três meses.

Cenário de desemprego elevado segura reajustes salariais

O cenário de desemprego elevado — 14,1% no fim do segundo trimestre, segundo o IBGE — e de crescimento mais tímido em 2022 contribui para afetar o poder de barganha dos trabalhadores nas negociações salariais.

“A reposição da inflação nos salários não acontece com tanta facilidade”, diz Braz. Ele lembra que, em um cenário de baixo crescimento, as empresas têm dificuldades em ampliar a folha de pagamento.

Segundo pesquisa feita pela Fipe, nos 12 meses encerrados em julho, a inflação medida pelo INPC — indicador usado nos reajustes salariais — foi de 9,2%. E o ponto médio (mediana) das correções foi de 7,6%. No ano, a proporção de reajustes salariais abaixo da inflação foi de 50,5%. “É um momento muito delicado”, conclui Braz.

Perdas para o governo: mais despesas com benefícios sociais e juros

A alta na inflação traz um problema para o governo: o aumento de uma série de despesas que estão baseadas no salário mínimo, lembra Silber, da Fipe.

Por lei, o piso salarial tem de acompanhar a inflação. A previsão na Lei de Orçamento Anual (LOA) é que ele suba para R$ 1.169 em 2022. O problema é que essa projeção se baseia num INPC de 6,2% ao fim deste ano, número que muito provavelmente será superado — o que significará um salário mínimo mais elevado. Estimativas de bancos privados apontam para um índice mais próximo de 9%.

“O custeio da máquina pública tende, naturalmente, a ficar mais caro”, destaca o professor. Entre as despesas vinculadas ao salário mínimo estão o pagamento de aposentadorias — a maioria dos beneficiários recebe o piso —, seguro-desemprego, abono salarial e Benefício de Prestação Continuada (BPC).

Outro problema é que o teto de gastos é corrigido anualmente em junho, quando a inflação acumulada em 12 meses estava em 8,36%. De lá para cá, o panorama piorou. Isso significa que a despesa máxima autorizada para o governo deve crescer menos que os gastos vinculados ao salário mínimo. Com isso, sobra menos espaço para gastos discricionários (de livre escolha), num Orçamento que já é dos mais apertados.

E o cenário é de pressão política por aumento de gastos públicos, pois 2022 é ano eleitoral. É por isso que o governo quer a todo custo postergar o pagamento parte dos precatórios — eles serão de pouco mais de R$ 89 bilhões em 2022 — e com isso abrir espaço fiscal para ampliar o Auxílio Brasil, substituto do Bolsa Família.

Outro impacto negativo para o governo vem nos títulos públicos. Em junho, a dívida mobiliária (em títulos) federal era de R$ 4,61 trilhões, o equivalente a 57,5% do PIB, segundo o BC. Títulos indexados pela taxa Selic representavam 37,25% da carteira. “À medida que a Selic avança, acontece o mesmo com o gasto com a dívida pública”, explica Braz.

O caminho, segundo ele, vai ser o de fazer uma gestão do Orçamento, de modo a priorizar despesas essenciais. “É fundamental o governo encolher as suas despesas. Só a política monetária não consegue dar conta do recado. Inflação boa é inflação na meta.”

O especialista da FGV aponta que uma boa gestão da dívida contribui favoravelmente para o investimento público. “O Estado precisa recuperar a capacidade de investimento porque só o setor privado não dá conta de sustentar o crescimento.”

Inflação atinge empresas com insumos e energia mais caros

As empresas foram duplamente atingidas pelo aumento da inflação. Em um primeiro momento, com o aumento de matérias-primas, que no acumulado dos últimos 12 meses atinge 48,27%, segundo a Fundação Getulio Vargas.

E, em um segundo momento, o reajuste das tarifas de energia. A crise hídrica pressiona os custos das empresas, particularmente a indústria automobilística, a construção civil e os serviços, justo na sua retomada.

“Margens comprimidas obrigam repasse aos produtos finais, mesmo sem a demanda estar aquecida”, ressalta o coordenador da FGV.

As empresas que mais sofrem, segundo Borsoi, da Nova Futura Investimentos, são as que ficam nas pontas da cadeia produtiva. Elas são mais afetadas pelos sucessivos choques de oferta. Um dos exemplos é a indústria automotiva, que demanda muita energia e foi afetada pela elevação no preço do aço e pelos problemas na cadeia de suprimentos de semicondutores.

Outras afetadas são as empresas ligadas ao consumo e importadoras. “Com o aumento nos preços, há uma desaceleração no consumo por causa dos impactos na renda.”

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