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Vizinhança próspera

O que o Uruguai faz melhor que o Brasil – e como os brasileiros podem aproveitar

Ambiente institucional mais estável e previsível são pontos fortes para investir no Uruguai
Ambiente institucional mais estável e previsível são pontos fortes do Uruguai (Foto: Imagem criada utilizando Dall-E/Gazeta do Povo)

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O Uruguai é muito menor que o Brasil, em população, território e PIB. Mas está ganhando a disputa por capital e talento. Enquanto o Brasil convive com insegurança jurídica, complexidade tributária e mudanças frequentes de regras, o vizinho consolidou marcos regulatórios duráveis e um ambiente de certeza jurídica. O resultado é um fluxo crescente de empresas a investir no Uruguai e de profissionais brasileiros que apostam nesse país.

Especialistas ouvidos pela Gazeta do Povo afirmam que a percepção favorável em relação ao Uruguai se deve menos a fatores conjunturais e mais a fundamentos institucionais e macroeconômicos consistentes ao longo do tempo.

O economista-chefe do Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG), Izak Carlos, sintetiza a questão: a principal diferença entre o país vizinho e o Brasil está na qualidade do ambiente institucional.

Segundo ele, o Uruguai combina segurança jurídica robusta, respeito a contratos, estabilidade regulatória e Estado com poder limitado. "Isso reduz o risco percebido pelos agentes econômicos e, portanto, diminui o custo de investir e operar no país — seja em termos de juros mais baixos, prazos mais curtos de aprovação regulatória ou menor volatilidade cambial", avalia.

No Brasil, apesar da sofisticação do sistema financeiro, há elevada complexidade tributária, mudanças frequentes de regras e insegurança jurídica, o que aumenta o custo de transação e o risco.

Ricardo Gomes, CEO do Instituto Millenium, um think tank liberal, vai na mesma direção ao afirmar que o Uruguai se destaca pela clareza normativa. Segundo ele, o país não é necessariamente o mais barato ou o mais rico, mas é um dos mais estáveis — com inflação mais controlada, menor risco-país e regras que mudam menos ao longo do tempo. "O Brasil teria muito a melhorar simplesmente aprendendo com o vizinho do Rio da Prata", avalia.

Indicadores uruguaios estão à frente dos brasileiros

A vantagem uruguaia vai além da percepção de estabilidade. Claudio Shikida, professor de Economia do Ibmec, explica que os indicadores do vizinho são superiores aos brasileiros.

Na última edição do índice de liberdade econômica do Fraser Institute, o Brasil ocupa o 87º lugar, enquanto o Uruguai, o 53º. No subíndice dedicado à regulação, o Brasil está na 144ª posição, enquanto o vizinho ocupa a 76ª. Já no subíndice de proteção aos direitos de propriedade, o Uruguai está na 44ª posição e o Brasil, na 87ª.

De acordo com Shikida, o capital migra para onde consegue gerar ganhos para seus donos, e o governo uruguaio parece ter compreendido essa equação, trabalhando de forma consistente na manutenção de um bom ambiente de negócios. "Não é preciso muito esforço para ver que aqueles que geram empregos, os empreendedores, não querem ficar em um país que lhes traz mais insegurança e que lhes dificulta o ambiente de negócios", avalia.

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O Uruguai como hub invisível de capitais

Mas há um asterisco importante: o Uruguai é um laboratório institucional de escala reduzida. Com 3,4 milhões de habitantes e economia menor (o PIB corresponde a menos de 4% do brasileiro), a governança é naturalmente mais simples. Decisões que funcionam em um país de dimensões continentais como o Brasil enfrentam desafios de implementação, coordenação federativa e complexidade política que o Uruguai não conhece.

Além disso, a economia uruguaia é menos diversificada e mais dependente de commodities agrícolas, tornando-a vulnerável a choques externos.

Apesar de ser mais simples que o brasileiro, o sistema financeiro do Uruguai tem maior previsibilidade regulatória, menor interferência política e tradição de estabilidade monetária e financeira, resume Izak Carlos, do BDMG.

Em termos fiscais, a comparação com o Brasil também é mais vantajosa para o vizinho. Ao longo das últimas décadas, o Uruguai consolidou a reputação de responsabilidade fiscal e respeito à solvência, o que se reflete em menor volatilidade macroeconômica. "Já o Brasil, embora tenha um mercado de capitais mais desenvolvido, convive com juros estruturalmente elevados, maior volatilidade e risco fiscal mais pronunciado", explica.

No que diz respeito aos negócios, o Uruguai conta com menos burocracia, regimes tributários mais simples e incentivos claros à atração de capital estrangeiro, como zonas francas e regimes específicos para novos residentes fiscais.

Fluxo crescente de brasileiros buscam diversificação no país vizinho

Não por acaso, Izak afirma que há um fluxo crescente de investidores e indivíduos brasileiros de alta renda para o Uruguai. O fenômeno se intensificou a partir da pandemia e, com ainda mais força, nos últimos três anos.

A busca por diversificação patrimonial, maior previsibilidade institucional, qualidade de vida e regimes fiscais mais atrativos impulsiona essa tendência. Regiões como Punta del Este e Montevidéu passaram a concentrar esse tipo de migração, com aumento na demanda por imóveis, serviços financeiros e estruturas de planejamento patrimonial.

Somente no ano passado, a Direção Nacional de Migração do Ministério do Interior do Uruguai concedeu 2.403 autorizações de residência para brasileiros, o segundo maior número, ligeiramente atrás dos argentinos.

Investir no Uruguai: quando o capital brasileiro retorna disfarçado de estrangeiro

O Banco Central mostrou, em seus relatórios recentes sobre investimentos, um fenômeno estruturante: o Uruguai funciona como um hub de controle de capitais que influencia diretamente a economia brasileira.

Existe uma disparidade crítica entre o capital que entra formalmente via Uruguai (US$ 7,1 bilhões) e aquele efetivamente controlado por entidades sediadas lá (US$ 58,4 bilhões). Essa diferença revela que o Uruguai é uma sede preferencial para empresas que canalizam o Investimento Direto no País (IDP) por meio de países intermediários.

Segundo a autoridade monetária, essa estrutura é comum em corporações transnacionais que utilizam o país vizinho para organizar suas cadeias de controle e gestão de ativos. O Banco Central define o "país do controlador final" como aquele onde reside o investidor que detém o efetivo controle e o interesse econômico na empresa investida no Brasil.

A situação dos investimentos envolvendo o Uruguai reflete um comportamento de mercado focado na eficiência de gestão e estruturação societária. O país é frequentemente citado ao lado dos Países Baixos e Luxemburgo como sede preferencial para empresas intermediárias.

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Por que o Brasil não aprende com o vizinho

Diante do sucesso do vizinho, por que o Brasil não se espelha e segue o exemplo? Segundo Shikida, no Brasil, o "suor do trabalho" parece ser menos valorizado que as conexões políticas. "O recente caso do Banco Master ilustra isso. Não é que não existam conexões políticas no Uruguai. Existem, mas lá as instituições ainda funcionam em prol da sociedade e, portanto, dos mercados", comenta.

Segundo ele, no fim, são a poupança, o salário e a aposentadoria da população que acabam rendendo nos bancos e gerando bem-estar em razão do bom funcionamento da economia do país. Ou seja, a estabilidade se traduz em benefícios para as pessoas. "A sociedade brasileira, aposto, gostaria, ela mesma, de um governo mais parecido com o uruguaio", comenta o economista.

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