No país que pratica uma das taxas de juros mais altas do mundo, parece uma ironia que as vendas a prazo façam tanto sucesso. Prova disso é que a prática de parcelar o pagamento de produtos ou serviços chegou à área da saúde. Seguindo essa tendência, um tradicional laboratório de análises clínicas de Curitiba, o Frischmann Aisengart, passou a oferecer o parcelamento de exames de paternidade em até 12 vezes, financiados pela Losango, a juros que variam de 4,5% a 7,3% ao mês, de acordo com o número de parcelas e a forma de pagamento.
Apesar de a grande maioria dos exames realizados pelo Frischmann ser pago por convênios médicos, a opção do financiamento é oferecida justamente para procedimentos mais caros, que muitas vezes não são cobertos pelos planos de saúde. "Nenhum plano paga exame de paternidade, por exemplo. Apesar de estes exames estarem bem mais baratos hoje, o mais simples custa R$ 400, ainda tem gente que tem urgência em saber o resultado e não tem o dinheiro à vista. São essas as pessoas que procuram o financiamento", explica o médico Marcelo Malaghini, responsável pela área de biologia molecular do Frischmann.
Segundo o médico, um exame de paternidade complexo, como o que exige a exumação, pode custar até R$ 10 mil. Há também exames de imagem que não são cobertos por planos. "Normalmente o paciente não pode esperar, depende de um diagnóstico rápido", completa. O mesmo acontece com exames de DNA, como o que detecta a tipicidade do vírus de hepatite e permite um tratamento mais efetivo.
Ainda na área de saúde, clínicas de cirurgia e de estética aproveitam a demanda impulsionada pela vaidade - para oferecer financiamentos para quem quer ficar mais bonito hoje e terminar de pagar só daqui a um ano ou dois. A clínica Athena, de Curitiba, conseguiu, por meio de uma parceria com o Banco Real/ABN Amro, atrair clientes dispostos a passar 2 anos pagando a conta da cirurgia. O parcelamento em 24 vezes, no entanto, não é o mais procurado. A divisão mais comum é entre 10 e 15 parcelas. O juro cobrado é de 3,5% ao mês e para efetuar o financiamento é preciso ainda receber aprovação do banco e dar uma entrada de, no mínimo, R$ 400. Segundo a clínica, a facilidade aumentou o fluxo de clientes.
Mesmo quem permite dividir seus preços em menos vezes, como a clínica Boulevard, também em Curitiba, que financia em até quatro parcelas, concorda que essa possibilidade ajuda a manter cheias as salas de espera. O médico Alfredo da Silva, que atende na clínica, faz uma média de 35 cirurgias mensais.
A possibilidade de parcelar uma cirurgia de prótese de silicone para os seios pela clínica curitibana Visage levou a empregada doméstica Lúcia Rodrigues, 33, a realizar um sonho antigo. Na última quarta-feira ela decidiu começar a pagar a sua cirurgia, que só será realizada depois de quitada em 10 parcelas iguais de R$ 313,20. Para fazer o procedimento Lúcia terá que comprometer 70% do seu salário (R$ 450) por quase um ano. Além disso, o implante, exames e fotos serão pagos à parte na data da cirurgia (marcada para 2007). Mesmo correndo o risco de não conseguir pagar, Lúcia não pretende desistir. "Há dez anos eu sonho com isso. Sei que é vaidade, mas tem gente que faz este tipo de esforço para comprar um carro, por exemplo. Eu quero ficar mais bonita", afirma.



