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Carreira

Legião de ‘excluídos’ trabalha no Google sem ter acesso ao lado ‘cool’ da empresa

Os crachás vermelhos não têm os mesmos benefícios que os crachás brancos, mas são maioria dentro da empresa, segundo uma fonte interna, desde o início deste ano

  • The Washington Post
Ao fim do segundo trimestre, a Alfabet reportou 89.058 funcionários diretos e não revela o número exato de temporários. | David Paul Morris/Bloomberg
Ao fim do segundo trimestre, a Alfabet reportou 89.058 funcionários diretos e não revela o número exato de temporários. David Paul Morris/Bloomberg
 
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Todos os dias, dezenas de milhares de pessoas entram nos escritórios do Google usando crachás vermelhos. Eles comem nos refeitórios do Google, usam as vans e ônibus e trabalham ao lado dos famosos nerds da gigante de tecnologia. Mas eles não têm acesso a determinados escritórios e nem a todos os benefícios celebrados globalmente pela empresa, como participação em ações e seguro saúde. Ou seja, não vivem exatamente o sonho do Google.

Antes de cada reunião semanal do Google, bandejas de canapés e, às vezes, barris de cerveja são levados para um auditório e escritórios satélites ao redor do mundo para os funcionários, mas não todos eles. Aqueles sem crachás brancos são convidados a retornar às suas mesas.

A Alphabet Inc. emprega uma horda desses funcionários contratados sob o selo vermelho. Eles servem refeições e limpam escritórios. Escrevem códigos, lidam com chamadas de vendas, recrutam funcionários, colocam vídeos do YouTube no ar, testam carros autônomos e até gerenciam equipes inteiras – um mar de trabalhadores qualificados que abastecem a empresa de US $ 795 bilhões, mas obtêm poucos dos benefícios e oportunidades disponíveis para funcionários diretos.

No início deste ano, pela primeira vez nos 20 anos de história do Google, esses contratados superaram em número os funcionários de diretos, segundo uma pessoa que viu os números em um banco de dados interno da empresa. Não se sabe se esse número ainda se mantém. No fim do segundo trimestre, a Alfabet reportou 89.058 funcionários diretos. A empresa não comenta o número de trabalhadores temporários.

Força de trabalho produtiva e barata é objetivo de qualquer gigante da tecnologia

Outras empresas, como Apple e Facebook, e algumas das empresas públicas mais ricas em dinheiro, também contam com um fluxo constante de temporários e terceirizados. E os investidores observam de perto o número desses funcionários nessas empresas, esperando que continuem dando ganhos impressionantes, mas mantendo os custos mais enxutos do que os dos antigos titãs corporativos. A contratação de temporários e terceirizados mantém a conta oficial baixa, deixa milhões de dólares livres para reter superestrelas em campos como a inteligência artificial.

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O resultado é uma força de trabalho invisível, fora das folhas de pagamento da empresa, que faz o trabalho pesado para os gigantes do Vale do Silício por apenas algumas migalhas como recompensa.

“Muitos desses trabalhadores não têm voz no trabalho. Eles não necessariamente obtêm os benefícios que muitos de nós pensamos quando trabalhamos em uma grande e chamativa empresa de tecnologia ”, disse Maria Noel Fernandez, diretora de campanha do Silicon Valley Rising, um grupo apoiado pelo sindicato com sede em San Jose, Califórnia, que defende questões trabalhistas e habitacionais na região. “Eles não são realmente parte dessa riqueza”.

Esses trabalhadores estão em ascensão no Google à medida que a empresa explora novos mercados, como dispositivos e serviços corporativos, que exigem uma força de vendas maior. Conversas com mais de 10 ex-contratados do Google e de outras unidades do Alphabet ilustram uma subclasse permanente. O Google tem um nome para eles: TVCs, ou “temps, vendors and contractors”, na sigla em inglês.

Eles são empregados por várias agências externas, incluindo o Adecco Group, a Cognizant Technology Solutions e a Randstad. O Google se recusou a dizer quantas agências a empresa usa. Muitos trabalhadores temporários e atuais e ex-empregados também se recusaram a falar coma reportagem porque não querem comprometer seu emprego.

Oposição a esse modelo de trabalho começa a surgir dentro do Google

Alguns funcionários diretos tomaram medidas incomuns este ano contra o trabalho da empresa com os militares norte-americanos, suas disparidades salariais entre homens e mulheres e seus incômodos problemas com o assédio on-line.

Outra questão que os funcionários do Google também estão começam a discutir para levar para a chefia é o estado da força de trabalho contratada, de acordo com quatro pessoas familiarizadas com as conversas. Yana Calou, organizadora do grupo de defesa Coworker.org, que fala com funcionários e contratados do Google, disse que os dois grupos estão preocupados com os funcionários que não são realmente funcionários do Google. “Eles se sentem isolados, precários e cidadãos de segunda classe”, disse Calou. “É um microcosmo do que está acontecendo na economia como um todo”.

Em um comunicado por e-mail, uma porta-voz do Google disse que a empresa contrata TVCs para duas finalidades primárias. Uma é quando a empresa não tem expertise ou funcionários para determinada função, como é o caso de motoristas de ônibus, testadores de garantia de qualidade e médicos. Outra é o preenchimento de vagas temporárias para cobrir licenças parentais ou picos de demanda.

Alguns dos temporários ou terceirizados viam Google como um local de trabalho generoso, que impulsionava suas carreiras. Ainda assim, apesar de serem maioria lá dentro, muitos se sentiam marginalizados. Vários deles notaram as sutilezas dissos logo após sua chegada na empresa.

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“Você está lá, mas você não está lá”, relata um prestador de serviço do Google.Michael Short/Bloomberg

A primeira coisa que as pessoas olham no trabalho, lembrou um ex-TVC, é a cor do distintivo de alguém. Os TVCs não são demandados ​​com tarefas fora de seu escopo limitado. Quatro outros desses funcionários descreveram a sensação de desânimo ao chegar às 9 horas da manhã para trabalhar e ver, uma ou duas horas mais tarde, os crachás brancos chegarem com a expectativa de irem embora logo em seguida, no meio da tarde, e ainda após um intervalo para a ginástica.

“As pessoas menosprezam você, mesmo que você esteja fazendo o mesmo trabalho”, disse um TVC que passou dois anos no Google gerenciando vários outros funcionários. “Você está lá, mas você não está lá”, relata outro.

A enxurrada inicial de prestadores de serviço do Google veio com seu primeiro grande projeto. Dezenas de trabalhadores temporários foram contratados, há mais de uma década, para fotocopiar páginas de orelha a orelha para a biblioteca digital gratuita da empresa, o Google Books. Como a própria empresa, o número de trabalhadores temporários cresceu descontroladamente.

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Como outras empresas, o Google depende de operações terceirizadas no Sudeste Asiático – filas e filas de funcionários de escritório na Índia e em outros países que rotulam dados de mapeamento e lidam com outros trabalhos de computação relativamente simples. Mas o Google também contrata temrpoários altamente qualificados em seu quintal. Alguns TVCs chegam com grau técnico avançado e anos de experiência, trabalhando em projetos de nicho como energia renovável e design de sensores.

A diferença entre TVCs e funcionários diretos é clara. Um contrato de emprego TVC de 2016 da Zenith Talent Corp., uma agência de recrutamento, afirma que a TVC “não terá direito a qualquer compensação, opções, ações, seguros ou outros direitos ou benefícios concedidos aos funcionários da Google”. Os termos permanecem mesmo que um tribunal determine, mais tarde, que o trabalhador era legalmente um funcionário do Google. A Zenith não respondeu aos pedidos de comentário.

Outra cláusula sugere o tipo de trabalho que o Google contrata. Um contrato TVC libera o Google da responsabilidade sobre qualquer “conteúdo adulto” que um temporário possa encontrar no trabalho. Em 2017, a empresa se comprometeu a contratar até 10 mil moderadores de conteúdo neste ano, após receber críticas de vídeos ofensivos no YouTube. Alguns desses moderadores são funcionários de pleno direito, mas o Google se recusou a informar quantos ou fornecer uma atualização sobre eles.

A maioria diferença entre contratados e terceirizados estão no plano de saúde. Todos os TVCs com quem a Bloomberg conversou disseram que as agências contratantes, que são responsáveis ​​pelo seguro de saúde, ofereceram planos inadequados ou nenhum. Um ex-TVC, que trabalhou para a Adecco, disse que pagou cerca de US$ 600 do bolso para o um tratamento de diabetes.

Alguns TVCs são bem pagos. Designers de software de contrato e outros especialistas receberam US$ 150 por hora fora os impostos, algo acima do que é oferecido por gigantes rivais. Já os TVCs menos qualificados ganham menos.

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Os zeladores subcontratados do Google, que hoje são cerca de 400, estão sindicalizados desde 2000. De acordo com o sindicato que os representa, eles ganham cerca de US $ 26,39 por hora. No condado de Santa Clara, no Google, uma família de quatro pessoas com renda de até US$ 94.450 por ano é considerada pelo Departamento Federal de Habitação e Desenvolvimento Urbano como “baixa renda”; a compensação anual total para um zelador do Google em período integral, incluindo benefícios e salários, é um pouco mais da metade desse valor.

Terceirizados podem virar funcionários diretos, mas esse não é um caminho para todos

Nos últimos anos, o Google contratou em definitivo alguns de seus TVCs. Em 2014, por exemplo, após críticas, anunciou que alguns guardas de segurança se tornariam funcionários diretos. A maioria dos temporários não trabalha mais do que dois anos, de acordo com o que vários deles disseram à Bloomberg, mas alguns cumprem vários períodos na esperança de se tornarem funcionários diretos. O Google não forneceu dados sobre quantos alcançam isso.

No fim das contas, para muitos TVCs, o status de segunda classe no gigante de tecnologia de primeira categoria compensa. Os TVCs são solicitados a mostrar seu status como prestadores de serviço em suas contas de LinkedIn, mas eles ainda podem mencionar o Google.

Chris Szymczak, um ex-TVC que trabalhou na área de marketing para o Google da Polônia, disse que vários colegas que eram funcionários diretos serviram como referência para trabalhos futuros. “Eles foram imensamente solidários até mesmo depois de nossa relação de trabalho terminar”, disse ele. “Foi um verdadeiro trampolim para mim.”

Mas essa escada não está disponível para todos. Um ex-TVC relembra uma lição desconfortável. Um novo executivo chegou à divisão, sentou-se com cada funcionário e perguntou sobre o plano de cada para os próximos cincos anos, uma tática gerencial padrão. No dia seguinte, o gerente retornou timidamente, explicando que não sabia que a equipe era de terceirizados e não de funcionários diretos. Ele pediu que eles esquecessem completamente a conversa – e os planos de carreira relatados – do dia anterior.

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