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Opinião

O Google é influente demais para não ser criticado e cobrado

Com toda a influência cultural e política que conquistaram, empresas como Facebook e Google passam a ser mais cobradas pela opinião pública. O futuro de todos pode depender disso

  • PorJonathan Taplin
  • New York Times
  • 16/08/2017 09:37
 | GoogleDivulgação
| Foto: GoogleDivulgação

O Google processa mais de três bilhões de buscas por dia. A empresa alterou as nossas noções de privacidade, rastreando tudo que compramos, o que procuramos na Internet e até nossa localização física em todos os momentos do dia. Toda empresa que quiser obter dados da demanda de consumo online dos mercados de massa sabe que o Google é o guardião deles.

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O fato de que se trata de um monopólio, com quase 90% do mercado de publicidade em buscadores online, é algo que todos nós já aceitamos. É o mundo do Google; nós só vivemos nele. Por isso é tão importante saber como a companhia trabalha — quem ela contrata, quem demite e por quê.

Quando uma empresa se torna tão dominante, ela passa a dar o tom de toda uma era. Em 1985, eu era vice-presidente do grupo de fusões e aquisições de mídia da Merrill Lynch, em Los Angeles, e de vez em quando tinha que comparecer a alguma reunião, às cinco da manhã, no escritório da Drexel Burnham Lambert, em Beverly Hills. Fazia isso porque Mike Milken, o rei dos “títulos-lixo” (junk bonds) da empresa, assim o exigia — pois, uma vez que o dia de negociações começasse, lá pelas seis e meia, estaria indisponível.

Os executivos morriam de medo que a Drexel começasse a aliciar seus negócios. Políticos buscavam os conselhos e o dinheiro de Milken. Sua atitude, tipo “quem me impedirá?”, era o credo libertário perfeito para a era de desregulamentação de Reagan. A Drexel também nos deu cultura: “Os Bárbaros de Wall Street”, “A Fogueira das Vaidades” e Gordon Gekko em Wall Street - Poder e Cobiça nos dizendo que “é bom ser ambicioso”. Só que ela, em seu voo, chegou perto demais do sol. Milken acabou preso e a firma foi para o espaço.

Hoje, as grandes fortunas não são mais feitas em companhias como a Drexel, mas sim no Facebook, Amazon e Google. E as regras ditadas por essa última são as que todos obedecemos.

Semana passada, o Google demitiu um engenheiro de software por ter escrito um memorando que questionava sua política de diversidade de gênero e fazer comentários sobre a adequação biológica feminina para cargos técnicos.

“Trechos do documento violam nosso código de conduta e são inaceitáveis por propagarem estereótipos de gênero no ambiente de trabalho”, escreveu o CEO do Google, Sundar Pichai, em e-mail distribuído para a corporação.

É impossível crer que o Google ou qualquer outra empresa grande de tecnologia, há apenas alguns anos, teria uma reação dessas a um documento interno. Em 2011, quando a CNN entrou com um pedido, com base na Lei de Liberdade de Informação, para ter acesso aos dados de diversidade no local de trabalho das grandes companhias de tecnologia, o Google, entre outras, pediu ao Departamento do Trabalho dos Estados unidos que excluísse seus dados, alegando que a divulgação de tal informação poderia causar “prejuízos competitivos”. Foi só em 2014 que o Google começou a divulgar as estatísticas que mostravam que apenas 17% da sua mão-de-obra técnica era composta por mulheres.

A ascensão do Google e outros conglomerados gigantes do Vale do Silício foi guiada por uma cultura libertária que prega apenas palavras e noções vazias de diversidade. Peter Thiel, um dos líderes ideológicos da área, escreveu, em 2009, em um blog afiliado ao Instituto Cato, que “desde 1920, o grande aumento de beneficiários da assistência social e a inclusão e concessão de privilégios às mulheres, duas circunscrições eleitorais famosas por serem difíceis para os libertários, transformaram o conceito de ‘democracia capitalista’ em um oximoro.”

Se as mulheres não deveriam nem ter direito de voto, por que nos preocuparmos com diversidade de gênero nos cargos de engenharia?

Hoje o Google é objeto de um exame cada vez mais minucioso e a dissonância cognitiva entre a atitude de fachada “don’t be evil” (”não seja mau”) e a retórica misógina interna do “brogrammer” se tornou extrema.

O Google teve que demitir o tal engenheiro, James Damore, mas qualquer um que passe algum tempo nos fóruns frequentados por engenheiros do Vale sabe que a cultura “bro” que nos deu o Gamergate — movimento chauvinista cujo alvo são as mulheres do setor de games — é muito mais prevalente do que Pichai quer reconhecer.

Segundo o site The Verge, colegas que se opuseram a Damore viram suas fotos do perfil da empresa postadas no Breitbart. “O que me incomoda é que quando os funcionários do Google vazaram essas imagens, eles sabiam muito bem o que estavam fazendo. Eles tinham plena consciência de que estavam sujeitando os colegas a esse tipo de abuso”, comenta um ex-funcionário.

A empresa cancelou uma reunião de que participariam todos os funcionários, na quinta passada, alegando temores de possíveis retaliações externas.

Apesar de relativamente recém-estabelecido, os EUA têm uma visão romântica do Vale do Silício e do setor de tecnologia. Homens como Steve Jobs e Bill Gates são tidos em alta conta, mas, cada vez mais, empresas como Google, Amazon e Facebook estão sendo examinadas sob o mesmo microscópio cultural que questionou a cultura da “ambição do bem” dos anos 1980. Quem assiste ou assistiu à série Silicon Valley sabe que o uber-libertarismo e o machismo uber-geek andam de mãos dadas. E certamente Mark Zuckerberg não ficou nem um pouco satisfeito com o retrato de ganhou de David Fincher em A Rede Social, da mesma maneira que ninguém no Vale deve ter gostado do livro O Círculo, de Dave Eggers, ou Zero K, de Don DeLillo.

CRÍTICA: O pouco em comum entre o filme “O Círculo” e o Facebook

Os efeitos do lado mais sombrio da cultura da tecnologia se estendem muito além do Vale, começando com a relutância em controlar as notícias falsas (“fake news”) e o sexismo generalizado que, sem dúvida, contribui para as diferenças de renda entre os gêneros, mas que, em breve, deve envolver o cerne do negócio do Google: o capitalismo de vigilância. A filosofia do “se você não paga, você não é o cliente — é o produto” já existe há um tempo. Só que agora a União Europeia aprovou a Lei de Proteção de Dados Gerais, que entrará em vigor em maio do ano que vem. A legislação pretende dar às pessoas mais controle sobre os próprios dados, de modo que os sistemas de busca não possam segui-los o tempo todo quando estiverem online — ou seja, será um ataque direto à base do negócio do Google.

Temos a obrigação de ficar de olho nos valores daqueles que administram o Google porque demos a ele um controle imenso sobre nossas vidas e as vidas de nossos filhos. Como o ex-especialista em ética da própria empresa, Tristan Harris, observa: “Sem pensar nas implicações, um grupo de líderes do setor montou o sistema mais centralizado e invasivo de desvio de atenção jamais criado, ao mesmo tempo em que dá meios para que instrumentos cuidadosamente engendrados (aplicativos viciantes, robôs, governos estrangeiros) sequestrem nossa atenção para fins de manipulação”.

As implicações futuras de permitir a meia dúzia de companhias tamanha influência em nossa atenção e comportamento só estão começando a ser sentidas; a ascensão da inteligência artificial, combinada com a onipresença do Google em nossa vida é uma questão que ainda não foi bem compreendida por políticos e agências reguladoras.

LEIA: É possível viver sem o Google?

Lentamente, os EUA estão despertando, cultural e politicamente, para o fato de que nossa economia é controlada por algumas poucas empresas de tecnologia. Sabemos que estamos sendo levados por homens como Peter Thiel e Jeff Bezos em direção a um futuro que será melhor para eles. Para nós também? Não sabemos.

Como George Packer, escrevendo para a New Yorker em 2011, colocou: “Na utopia tecnológica de Thiel, alguns milhares de norte-americanos talvez possuam carros dirigidos por robôs e vivam até os 150 anos, enquanto milhões perderão seus empregos para computadores muito mais rápidos e eficazes e morrerão aos 60”.

Não se sabe como, mas os cidadãos foram deixados de fora da discussão do próprio futuro. Por ferramentas como o Google e o Facebook terem se tornado tão essenciais e quase não termos a opção de usá-las ou não, precisamos parar e pensar no papel que elas desempenham em nossas vidas.

Ao dar a empresas como o Google e o Facebook o controle do presente, estamos lhes cedendo a liberdade de decidirmos o nosso futuro.

Jonathan Taplin é diretor emérito do Laboratório de Inovações Annenberg da Universidade do Sul da Califórnia e autor de “Move Fast and Break Things: How Google, Facebook and Amazon Cornered Culture and Undermined Democracy” (ainda sem tradução no Brasil).

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