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Tom Hanks, Emma Watson e Patton  Oswalt atuam em “O Círculo” | Paris FilmesDivulgação
Tom Hanks, Emma Watson e Patton  Oswalt atuam em “O Círculo”| Foto: Paris FilmesDivulgação

Mark Zuckerberg tem uma nova missão para o Facebook: “dar às pessoas o poder de criar comunidades e unir o planeta”. Ela se alinha melhor às ações do cofundador e CEO no ano de 2017, que tirou o ano para visitar norte-americanos em todos os estados do país e fortalecer a ideia de comunidade, palavra que usou quase 100 vezes no manifesto que publicou em fevereiro.

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A nova missão se distancia da anterior, “dar às pessoas o poder de compartilhar informações e fazer do mundo um lugar mais aberto e conectado”. Essa era muito similar à da fictícia empresa megalomaníaca do filme O Círculo, uma espécie de Facebook misturado com Google, que estreou esta semana no Brasil.

O anúncio da mudança de missão foi feito por Zuckerberg, em entrevista à CNN, durante o Groups Summit, em Chicago, evento para debater e apresentar novidades para os grupos do Facebook, ferramenta usada por mais de um bilhão de pessoas e tida por ele como chave para esse futuro repleto de comunidades e de um mundo mais próximo.

Tal mudança em uma das empresas que inspiraram o filme O Círculo, a ficção científica de James Ponsoldt baseada no best seller de Dave Eggers, não poderia ter acontecido em momento mais simbólico. Ela reflete bem o anacronismo visto na tela. 

O Círculo teria um lugar de destaque na discussão sobre privacidade em 2009, quando o então CEO do Google, Eric Schmidt, disse em entrevista à rede americana CNBC que “se você tem algo que não queira que ninguém saiba, talvez não devesse estar fazendo isso” e Mark Zuckerberg, em um texto publicado pelo Washington Post, previu que “se as pessoas compartilharem mais, o mundo será mais aberto e conectado. E um mundo mais aberto e conectado é um mundo melhor.”

Na obra ficcional, o CEO Eamon Bailey (Tom Hanks) repete, em alguns momentos, os mantras d’O Círculo: “compartilhar é se importar” e “saber é bom; saber tudo é melhor”. A certa altura, a Mae Holland (Emma Watson), a protagonista da história, se torna “transparente”: todas as suas mensagens e dados se tornam públicos e ela passa a ser uma youtuber em tempo integral, com câmeras espalhadas pela casa e uma pendurada em sua roupa, 24 horas por dia, concedendo-lhe apenas com três minutos por cada ida ao banheiro de privacidade. A lógica é que um mundo sem segredos seria melhor para todos.

A questão abordada mais interessante e importante para nós, pessoas que vivem em 2017, é a da privacidade de pessoas em cargos públicos, como políticos, demanda que soa tentadora a alguns, apesar de todos os poréns que algo assim carrega. Ela acaba servindo de mera apresentação da ideia a fim de preparar o público para a transparência de Mae. De todas as propostas descabidas e vencidas em 2017 que passeiam pela tela, essa é a única que talvez rendesse uma boa discussão. Infelizmente, é ignorada.

No mundo real, é notável que o futuro distópico que O Círculo prevê está, em certa medida, superado. O Facebook não incentiva mais o tipo de compartilhamento público que é criticado no filme e Mark Zuckerberg, por mais errado que esteja em suas convicções, não é o vilão inescrupuloso e quase cartunesco vivido por Tom Hanks. A realidade não é maniqueísta como é apresentada em O Círculo.

O Círculo mostra o que o Facebook de 2009 seria no futuro se não tivesse se adaptado para continuar crescendo e presente na vida de todos. E nada garante que, se esse caminho fosse trilhado, as pessoas o assimilariam tão facilmente quanto os entusiasmados funcionários d’O Círculo e praticamente toda a humanidade daquele mundo.

Emma Watson interpreta Mae Holland
Paris FilmesDivulgação

O que o filme deixa de fora é um aprofundamento do debate acerca da posse de dados e da privacidade que se perde por uma comodidade aqui, uma gratuidade ali e por regulações complexas que times de advogados habilidosos distorcem até que lobistas experientes consigam mudá-las no legislativo. Novamente: outro assunto que poderia render fica restrito a plano de fundo, nesse caso o da personagem Annie, sempre ocupada em viagens internacionais para desembaraçar enroscos legais da empresa.

O Facebook não insiste mais para que compartilhemos tudo publicamente porque não precisa. O WhatsApp tem criptografia de ponta a ponta, que blinda o conteúdo das conversas até mesmo para o Facebook, porque os meta dados bastam. O Facebook consegue detectar e processar mais de 50 mil sinais distintos na hora de escolher qual anúncio mostrar a cada um dos seus quase dois bilhões de usuários. O mesmo vale para o Google e seus apps, muitos deles com mais de um bilhão de usuários – o YouTube chegou, nesta semana, à marca de 1,5 bilhão deles.

Em sua crítica ao manifesto de Mark Zuckerberg, o escritor Nicholas Carr coloca a questão que importa hoje

“Agora que a história penetrou a bola [das empresas de tecnologia do Vale do Silício] e irritou os algoritmos, a história precisa ser colocada de volta em seu lugar. Determinismo tecnológico precisa, novamente, ser feito sinônimo de determinismo histórico.”

Zuckerberg, Travis Kalanick, Larry Page, Sergey Brin, Elon Musk… todos os grandes visionários do Vale do Silício acreditam que o mundo pode ser reduzido a termos binários e que a solução para os problemas muito humanos com que nos deparamos em suas plataformas, resolvíveis com mais tecnologia. Grandes são as chances de que, afinal, não seja tão simples assim. 

Mostrar essa complexidade na tela não seria tarefa fácil, mas poderia revitalizar um livro que, de início, também não empolga, mas pelo suporte mais espaçoso, cerca de 500 páginas escritas, dá ao leitor subsídios sólidos para extrapolar os cenários exagerados e ingênuos que retrata. Em vez disso, optou-se por uma adaptação conservadora e datada, que nada acrescenta à discussão em torno da violação de privacidade dos usuários, do poder descomunal das empresas de tecnologia e da crença cega que se tem de que tecnologia é o remédio para todas as doenças do mundo.

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