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O produtor musical Yoshihiro Masui e seu Ford hot-rod: uma visão incomum nas ruas japonesas, onde imperam os modelos locais. | Kio Ssasaki/NYT
O produtor musical Yoshihiro Masui e seu Ford hot-rod: uma visão incomum nas ruas japonesas, onde imperam os modelos locais.| Foto: Kio Ssasaki/NYT

O Ford hot-rod barulhento de Yoshihiro Masui, com as laterais pintadas com a bandeira americana, são prova de seu amor pelos carros dos Estados Unidos – uma paixão incomum no Japão, onde a Toyota, a Honda e outras marcas nacionais imperam nas ruas.

“Os carros japoneses não quebram, mas são entediantes”, afirmou Masui, de 67 anos, produtor musical semiaposentado. Além do hot-rod – uma réplica do Ford T com motor de carro de corrida – ele é dono de um Ford Thunderbird branco, o mais novo dos cerca de 70 carros fabricados em Detroit que ele comprou e vendeu ao longo dos anos.

“A gente se destaca na multidão”, afirmou.

Entretanto, Detroit sonha com o dia em que carros americanos deixarão de ser uma visão tão incomum nas ruas japonesas.

Embora os carros japoneses tenham ganhado cada vez mais espaço no mercado norte-americano, as marcas dos EUA são praticamente invisíveis no Japão, uma situação que frustra há muito tempo os executivos do setor automotivo e os negociadores comerciais dos EUA, tornando-se uma fonte renovada de fricção política sob o governo do presidente Trump.

Queixas

Trump acusa o Japão de impedir a entrada de marcas americanas, estabelecendo barreiras regulatórias e controlando o mercado cambial em favor das marcas japonesas. “Eles fazem coisas que impossibilitam a venda de carros no Japão”, afirmou Trump durante uma reunião com executivos americanos no mês passado.

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Esse tipo de conversa é alarmante para o Japão, onde a indústria automotiva é um dos pilares da economia. Quando o primeiro ministro Shinzo Abe se encontrou com Trump no dia 10 de fevereiro, evitar uma guerra comercial era sua maior prioridade. O governo de Abe apresentou uma série de propostas, como utilizar os fundos de pensão do Japão, para financiar os planos de infraestrutura de Trump, que podem apaziguar o presidente e ajudar a equilibrar o enorme superávit comercial do Japão.

Para os japoneses, as acusações de Trump a respeito das barreiras comerciais podem parecer bizarras.

“É claro que os carros americanos não vendem bem no Japão”, afirmou Masui, cuja admiração pelos veículos americanos não se estende às estratégias de marketing das montadoras. “Os carros americanos têm uma imagem ruim – eles gastam muito combustível e quebram. Isso já não é mais verdade, mas as montadoras não se esforçam para convencer as pessoas. Eu nunca vi um comercial na TV. Quando vou para feiras do automóvel, as marcas nem estão lá.”

Os carros certamente não estão nas ruas. Dos cerca de 5 milhões de carros e caminhonetes vendidos no Japão no ano passado, apenas 15 mil eram americanos, ou 0,3 por cento. A Toyota vende mais carros que isso em uma única megaconcessionária na Califórnia.

Masato Suzuki é gerente de uma concessionária especializada em carros norte-americanos em Machida, subúrbio a oeste de Tóquio. O pátio está repleto de SUVs Lincoln Navigator, vans comerciais e carros como o Dodge Charger e Ford Mustang. Esses são os carros americanos que as pessoas compram no Japão, quando se interessam. Segundo ele, os clientes são majoritariamente homens.

“Digo isso com todo carinho do mundo, mas é meio estranho. Acho que somos um pouco esquisitos por vender esses carros também.”

Suzuki abriu a concessionária Glide há 24 anos, quando a reputação de Detroit estava em baixa. “Os carros quebravam o tempo inteiro. Os clientes sempre ficavam bravos conosco”, afirmou.

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Desde então, a Glide abriu duas filiais, vendendo apenas carros europeus, que são mais populares no Japão.

Suzuki afirma que gostaria de oferecer modelos americanos familiares de menor porte e mais baratos – o tipo mais comum na indústria japonesa, e que os japoneses mais gostam de dirigir. Contudo, acredita que as vendas seriam ruins.

Preço alto

O ceticismo em relação à confiabilidade e a eficiência dos carros americanos é um problema. Outro é o preço. Suzuki afirma que não sabe se o Japão enfraquece o iene de propósito, como afirma Trump, mas concorda com o presidente americano quando diz que um iene mais forte é melhor para a venda de carros americanos.

Quando o valor do iene disparou após a crise financeira global de 2008, tornando os importados mais baratos para os compradores japoneses, a Glide importava cerca de 100 veículos por mês. Agora, com o iene novamente fraco, o total é de apenas 10 carros por mês.

“Na maioria das vezes, dá pra comprar um carro japonês de melhor qualidade pelo mesmo valor”, afirmou.

Os defensores das práticas comerciais japonesas destacam que o Japão não cobra impostos de importação sobre carros, ao passo que os EUA adiciona uma tarifa de 2,5 por cento sobre carros importados do Japão. Além disso, destacam o relativo sucesso de marcas europeias. Mercedes-Benz, BMW e outras controlam cerca de 6 por cento do mercado japonês, especialmente por conta dos modelos de luxo.

“Os carros alemães são populares no Japão, mas os americanos praticamente não vendem. Se querem vender carros no Japão, é óbvio que precisam se esforçar para agradar os clientes japoneses”, afirmou Akio Mimura, diretor da Câmara Japonesa de Comércio e Indústria, durante uma recente conferência de imprensa.

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Ainda assim, até mesmo as montadoras europeias se queixam que o mercado japonês é complicado, com impostos, padrões de segurança e outras regras que, segundo eles, favorecem a indústria local. Os negociadores da União Europeia estão pressionando o Japão em relação a essas questões estruturais, durante conversas sobre um possível acordo comercial.

Farol de dia

Um exemplo são os faróis. Em muito país, o padrão é que os motoristas mantenham os faróis acesos também durante o dia, por razões de segurança. Muitos carros acendem os faróis automaticamente assim que o motor é ligado.

O Japão, no entanto, adotou uma abordagem oposta durante anos: manter os faróis acesos durante o dia era ilegal. Isso significa que as montadoras tinham de desativar o acendimento automático nos carros exportados para o Japão, uma etapa de produção extra que aumenta o custo dos carros.

Kenji Kobayashi, diretor-executivo da Associação dos Importadores de Automóveis do Japão, que representa montadoras estrangeiras no país, afirmou que essas barreiras estruturais são menores do que costumavam ser. O Japão eliminou a proibição dos faróis acesos durante o dia no ano passado, depois de negociações com a associação.

Além disso, o governo também está diminuindo as vantagens fiscais que oferece aos microcarros conhecidos como keis, que representam cerca de um terço das vendas de carros no país, e são fabricados exclusivamente por montadoras japonesas. A mudança está fazendo diferença: a venda dos keis caiu 9 por cento no ano passado.

A abordagem comercial de Trump está atrapalhando esse progresso.

Durante as negociações em torno da Parceria Transpacífico, o acordo comercial que Trump abandonou após assumir o governo, o Japão concordou em reconhecer mais padrões de segurança automotiva dos EUA, além de simplificar os procedimentos de certificação para veículos importados. Contudo, agora que os EUA saíram do acordo, essas concessões estão em risco.

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Mão inglesa

Kobayashi vê uma diferença entre as iniciativas europeias e norte-americanas para atrair os compradores japoneses. As marcas europeias fazem muita propaganda e se esforçam mais para customizar os produtos para o mercado japonês, produzindo, por exemplo, versões dos veículos com direção do lado direito – um ponto de venda aparentemente óbvio em um país que usa a mão inglesa, mas que os fabricantes americanos são criticados por ignorarem.

A marca americana que mais vende no Japão é a Jeep, que no ano passado foi responsável por praticamente metade das vendas de carros americanos no Japão. Ela conta com automóveis com direção do lado direito – um legado dos veículos de entrega customizados que costumavam ser feitos para o Serviço Postal dos EUA, que permite que os motoristas entrem no carro pela calçada, ao invés da rua.

Para alcançar os europeus, as montadoras americanas teriam de investir dinheiro. Contudo, elas se mostram cada vez mais relutantes em relação a isso, afirmou Kobayashi. A Ford desistiu de abrir uma pequena concessionária no país no ano passado e está se concentrando no mercado chinês.

“A China é grande e não para de crescer, por isso as marcas estrangeiras concentram seus esforços lá”, afirmou Kobayashi.

Masui, o colecionador de carros com o Ford T turbinado, afirma que adora “tudo que vem dos EUA antes dos anos 1960 – carros, móveis, música, tudo.” Talvez ele até se desse bem com o Trump. Contudo, diz que as montadoras americanas deveriam param de reclamar das barreiras comerciais e se concentrar em tarefas mais básicas: fazer carros atraentes e convencer as pessoas a comprá-los, por exemplo.

“O senhor Trump é interessante, mas as coisas que fala sobre carros são muito estranhas.”

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