Há eventos que, pela sua intensidade e pelas conseqüências que provocam, mudam para sempre a vida daqueles que os enfrentam. Caetano Polato, João Batista Arruda e Otacílio Campiolo sabem bem disso. Eles tinham idades diferentes e viviam em cidades distintas no interior paranaense. Conservaram apenas um traço em comum – pertenciam a famílias que viviam da agricultura cafeeira – quando um momento desses surgiu com o vento frio da madrugada para levar cada um a cumprir trajetórias bastante diversas. Foi no amanhecer de 18 de junho de 1975, há 30 anos, que uma das geadas mais intensas do século passado reduziu a zero a área cultivada com café no estado. Em escala maior, o próprio Paraná nunca mais foi o mesmo. Aquela manhã fria, aliada a outros fatos ocorridos na mesma época, disparou uma série de transformações econômicas e demográficas que fizeram do estado o que ele é hoje.

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As estatísticas dão uma dimensão grandiosa dos eventos daquele dia. Na safra de 1975, cuja colheita já havia sido encerrada antes da geada, o Paraná havia colhido 10,2 milhões de sacas de café, 48% da produção brasileira. Era o maior centro mundial nessa cultura e tinha uma produtividade superior à média nacional. No ano seguinte, a produção foi de 3,8 mil sacas. Nenhum grão de café chegou a ser exportado e a participação paranaense na produção brasileira caiu para 0,1%.

Nos dias seguintes já começava a consolidar-se uma idéia de que o estrago seria duradouro. O governador Jayme Canet Júnior anunciava que o orçamento do estado seria reduzido em 20% no ano seguinte.

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O prognóstico dos especialistas era de que o prejuízo chegaria a Cr$ 600 milhões (o equivalente, pela cotação da época, a US$ 75 milhões), apenas nas lavouras de café. Outras culturas, como o trigo, também sofreram perdas importantes, de mais de 50%. Mas era o café que sustentava a economia do Paraná naquela época – uma situação que mudaria logo em seguida, já que os cafeicultores nunca mais se recuperariam desse impacto.

É nas histórias individuais, mais do que nos grandes números da economia, que esse impacto pode ser aferido. Como na de João Batista (leia mais sobre ele na próxima página), que tinha 38 anos quando foi atingido pelas intempéries. A destruição dos cafezais fez com que ele deixasse sua Cafelândia do Oeste em direção à invasão da atual Vila das Torres, em Curitiba, onde vive até hoje. Ou no caso de Otacílio, 41 anos em 1975, que continua vivendo da agricultura mas cujos ganhos vêm hoje mais do plantio de frutas do que do café. Ou ainda na trajetória de Caetano, que tinha 12 anos quando o gelo invadiu a propriedade da família em Engenheiro Beltrão. Depois de brigar com o tempo e com as condições de plantio no Paraná por mais cinco anos, os Polato decidiram seguir os boatos sobre terras baratas e produtivas no Centro-Oeste. A mudança (leia mais sobre os paranaenses que deixaram o estado depois da geada na edição de amanhã da Gazeta do Povo) levou-os a se tornarem um dos maiores produtores de sementes de soja do país.

Em uma geração muita coisa pode mudar. Mas parece certo que a geada negra de 1975 foi um daqueles raros momentos em que um único fato é capaz de precipitar mudanças históricas. "É bem difícil imaginar como seria o Paraná hoje se a geada não tivesse ocorrido", diz o agrônomo Judas Tadeu Grassi Mendes, que à época trabalhava na Secretaria de Agricultura do estado e hoje é pró-reitor acadêmico do Centro Universitário FAE, em Curitiba. "O mais provável é que tudo o que aconteceu de 1975 para cá – a perda de importância da agricultura cafeeira, a supremacia da soja, o fortalecimento das cooperativas, a migração, a industrialização – tivesse lugar do mesmo jeito, mas não à mesma velocidade", opina. Movida pelo vento frio da História, no entanto, a vida dos paranaenses nunca mais foi a mesma.