O presidente russo, Vladmir Putin, durante visita a São Petersburgo.| Foto: Kremlin / Fotos Públicas
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Para saber como os tiros de uma guerra comercial protecionista podem sair pela culatra, basta olhar para a Rússia.

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Passados cinco anos dos esforços de Vladimir Putin para proteger os agricultores russos da competição internacional, em reação às sanções impostas pelos EUA e Europa após a anexação da Crimeia, estes são os resultados: aumento generalizado de preços, gasto adicional de US$ 6,9 bilhões por ano com alimentos e benefícios limitados no que tange ao aumento da produção agrícola.

“A lição que outros podem aprender sobre essa experiência de isolamento e sanções é que o melhor é não ir por esse caminho”, diz Elina Ribakova, vice economista-chefe do Institute of International Economics. “Uma economia grande, complexa e emergente como a Rússia tem muito mais possibilidades de ganhos de produtividade se estiver integrada aos mercados globais”, acrescenta.

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A estratégia de Putin virou um “manual” sobre como barreiras comerciais podem virar um tiro no pé, enquanto em outras partes do globo ainda se discute se tarifas são uma boa ferramenta para resolver os desequilíbrios da economia.

“A Rússia segue mais adiantada nesse caminho, com todas as medidas protecionistas já adotadas”, sublinha Ribakova.

Nos EUA, o presidente Trump tem prometido corrigir o que considera décadas de políticas fracassadas que favoreceram a ascensão econômica da China e permitiram um “boom” nos déficits comerciais com países como a Alemanha; em ambos os casos, diz, em prejuízo da indústria americana. No ano passado, Trump começou a tarifar as importações chinesas, gerando uma espiral de retaliações e ameaças de sobretaxas cada vez mais altas. O quadro de incertezas criado inibiu investimentos e levou o Federal Reserve (banco central americano) a cortar a taxa de juros para evitar um impacto mais acentuado na economia.

Na Rússia, apesar de a produção agrícola ter crescido desde que foram adotadas as medidas protecionistas do Kremlin, os maiores vencedores acabaram sendo outros setores, inclusive alguns que se aproveitaram para agir de forma predatória. Nas áreas mais afetadas, as medidas anti-sanções limitaram o crescimento econômico a 0,1%, segundo a agência de classificação de risco russa ACRA. Um desempenho que, obviamente, não foi suficiente para contrabalançar o impacto negativo do aumento de custo para os consumidores.

Rússia grande de novo

De fato, as medidas retaliatórias adotadas pela Rússia inicialmente não tiveram como motivação o protecionismo, mas a geopolítica. Mais tarde, as autoridades ajustaram o discurso, dizendo que proteger a agricultura local era um dos principais objetivos. Durante anos, o Kremlin alimentou o sonho de reconstruir a agricultura que entrou em colapso junto com a União Soviética, nos anos 90. As medidas protetivas deram impulso a alguns produtores rurais do país.

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“O setor de queijos da Rússia nasceu de novo, graças às medidas anti-sanções”, avalia o produtor Oleg Sirota, para quem os empréstimos baratos e os subsídios do governo foram de grande ajuda. “É como a corrida do ouro no Velho Oeste”, compara.

Por ora, no entanto, o impacto negativo sobre a qualidade de vida tem anulado os modestos ganhos na produção doméstica. A ACRA estima que o embargo internacional custou 0,2% do PIB, entre 2014 e 2018.

“Mudamos os países de quem importávamos. E é exatamente por isso que houve aumento de preços”, avalia Natalya Volchkova, professora na New Economic School, de Moscou. “É como se os consumidores estivessem pagando para aumentar a produção em regiões que têm baixa produtividade”.

Os preços de produtos impactados pelo embargo, como queijo e carne, aumentaram mais do que a média geral, segundo Natalya. Isso significa um gasto anual extra de 3.000 rublos (cerca de R$ 200,00) por pessoa, ou, em outros termos, 5% de aumento nos gastos com alimentação das famílias mais pobres. Os cálculos de Natalya excluem o efeito da forte queda na cotação do rublo, em 2014, que alimentou ainda mais a inflação.

Alimentos mais caros

A produção agropecuária total cresceu nos últimos cinco anos, mas, em algumas áreas, em ritmo menor do que antes das medidas protecionistas – segundo a consultoria KPMG.

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“O governo russo forçou a população a pagar mais por alimentos que, com frequência, têm menos qualidade devido à pouca competição”, avalia Vitaly Sheremet, chefe do setor de agronegócio da KPMG na Rússia.

Entre os beneficiados pelas medidas protecionistas estão parceiros comerciais da Rússia, como a Bielorrússia, por exemplo, que registrou um crescimento explosivo em tudo o que produz, do queijo às ostras.

Ainda que alguns itens importados tenham sido substituídos por fornecedores de outros países, vários alimentos europeus têm conseguido “furar” o bloqueio russo. “Grande parte da produção da Moldávia, Ucrânia e Polônia, por exemplo, chega pela Bielorrússia”, aponta Sheremet. “É fato notório que os alimentos dos países retaliados pela Rússia chegam no país por meio desses canais”.

Até agora, as medidas anti-sanções da Rússia não levaram os EUA e a Europa a suspender suas penalidades, e nem o Kremlin se mostra disposto a ceder. “Não dá para julgar pelas aparências. Mas não temos visto as autoridades russas falar sobre novas tarifas ou sobre ampliar as contramedidas já existentes”, conclui Elina Ribakova.

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