Veja que a produção industrial de fevereiro foi melhor que os últimos meses| Foto:

Recuo leva a projeção pior para o PIB do trimestre

A retomada ainda tímida da produção industrial em fevereiro faz com que aumente a probabilidade de um recuo forte do Produto Interno Bruto (PIB) no primeiro trimestre de 2009. "Antes dos dados divulgados pelo IBGE, eu previa que o PIB poderia cair 1,3% de janeiro a março. Agora, a queda deve ser maior e pode chegar a 2% em relação ao quarto trimestre de 2008", calcula o economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale.

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A retomada da produção nas montadoras ajudou a indústria brasileira a crescer 1,8% em fevereiro em relação ao mês anterior. Foi a segunda alta seguida nesse tipo de comparação, o que reforça a percepção de que o setor já deixou o "fundo do poço" da crise, atingido em dezembro. Essa foi a parte boa do relatório divulgado ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Sob qualquer outro ponto de vista, os dados da produção industrial foram desoladores.

"[O crescimento de 1,8%] é um sinal positivo, sem dúvida, mas insuficiente para anular as quedas anteriores", disse o coordenador de indústria do IBGE, Sílvio Sales. Segundo ele, 77% dos 755 produtos industriais pesquisados tiveram produção menor que no mesmo mês de 2008. Com isso, a indústria encolheu 17% frente a fevereiro do ano passado, fazendo com que o índice acumulado do primeiro bimestre caísse 17,2% em relação aos dois primeiros meses de 2008.

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Desde setembro a produção nacional se retraiu na mesma proporção: 17%. Embora a situação tenha melhorado timidamente desde dezembro, o nível de atividade do setor persistiu, pelo terceiro mês seguido, em patamar semelhante ao de meados de 2004.

O indicador de produção acumulada em 12 meses é outro que demonstra a violência com que as fábricas brasileiras foram atingidas pela contração da economia global. O índice exibia alta de quase 7% em setembro, mas foi regredindo até ficar negativo, em 1%, algo que não ocorria desde setembro de 2002.

Em meio a essa profusão de "notas vermelhas", uma das mais preocupantes foi a da produção de bens de capital (máquinas e equipamentos usados pela indústria), que desabou 24,4% em relação a fevereiro de 2008. Pior: essa categoria de produtos, que aponta as expectativas do setor, foi a única a registrar baixa (-6,3%) também em relação a janeiro, que havia sido péssimo.

"As perspectivas de demanda são conservadoras e há adiamento dos investimentos", disse Sales. Para o pesquisador, a retração reflete "a confiança de empresas e consumidores, que estão em compasso de espera". "Não há como negar que a crise se instalou e que estamos longe de sair dela", afirmou a consultoria Rosenberg & Associados, em relatório.

Luz

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Apesar do cenário traçado pelo IBGE, alguns analistas viram motivos para um certo otimismo. "O aumento de 1,8% frente a janeiro aponta para uma recuperação lenta, porém contínua, ao longo de 2009. Seguindo este ritmo, é provável que o crescimento da produção industrial em 2009 varie entre zero e 1% frente a 2008", disse Alcides Leite, professor de Economia Brasileira da Trevisan Escola de Negócios.

O economista Manuel Enriquez Garcia, professor da Universidade de São Paulo (USP), avaliou que, apesar da "fraquíssima base de comparação", o avanço da produção frente aos últimos meses de 2008 "não deixa de ser uma esperança de que o pior já passou". "É pouco provável que voltemos a ver grandes ondas de demissão."

Março

Alguns indicadores sugerem que o mês de março foi um pouco melhor que fevereiro, mas sem chegar perto dos resultados de um ano atrás. "Uma recuperação aos níveis dos três primeiros trimestres de 2008 ainda deve demorar", afirmou a Rosenberg. De acordo com o Banco Santander, que mensalmente consulta 450 empresas, o índice de desempenho da indústria atingiu 41,1 pontos no mês passado, a melhor marca desde outubro – mas que, por estar abaixo de 50 pontos, ainda indica retração em relação aos níveis do ano passado.