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As metas da gestão de Graça Foster ficaram mais realistas, mas a estatal ainda sofre para caumpri-las | Hugo Harada/ Gazeta do Povo
As metas da gestão de Graça Foster ficaram mais realistas, mas a estatal ainda sofre para caumpri-las| Foto: Hugo Harada/ Gazeta do Povo

Importação

Por mais que alcance a autossuficiência, como previsto pela Petrobras, o Brasil não deixará de importar petróleo. Nos últimos anos as refinarias foram adaptadas para processar mais óleo nacional, mas ainda precisam de uma parcela de óleo importado, mais "leve" que o extraído nos campos brasileiros. Em 2013, 19% do petróleo refinado veio de outros países. A parte do petróleo brasileiro "pesado" que não é aproveitada no país é vendida ao exterior.

Derivados

Expansão do parque de refino está atrasada

Analistas divergem quanto a hipótese de que, em 2020, o Brasil alcançará a "autossuficiência de derivados", como prevê o mais recente plano de negócios da Petrobras. "Não tem como. Nenhuma refinaria vai ficar pronta até lá. Talvez a Abreu e Lima [em Pernambuco]", diz Edmilson Moutinho dos Santos, professor da USP. Para Adriana Fiorotti Campos, da UFES, a meta é factível. "A Petrobras está destinando um grande investimento para o refino, condizente com as metas", diz a economista, em referência aos US$ 38,7 bilhões programados para essa área até 2018.

A mais nova refinaria da Petrobras foi inaugurada em 1980. Nos últimos anos a empresa ampliou várias unidades, mas não o suficiente para suportar o avanço do consumo. E a construção de novas refinarias está atrasada – a de Pernambuco, por exemplo, vai ficar pronta quatro anos depois do previsto.

Em 2013, o país refinou pouco mais de 2 milhões de barris por dia. A conclusão da primeira fase das refinarias Abreu e Lima e Comperj, esta no Rio de Janeiro, vai aumentar a capacidade em 195 mil barris diários até 2016, estima a Petrobras. Em 2018 e 2019, segundo a empresa, entram em funcionamento as refinarias Premium I, no Maranhão, e Premium II, no Ceará, levando a capacidade de refino a 3 milhões de barris diários – meta ambiciosa, uma vez que as duas últimas nem sequer foram licitadas.

A autossuficiência em petróleo foi adiada. No ano passado a Petrobras chegou a anunciar que o Brasil retomaria esse status ainda em 2014, mas, semanas atrás, empurrou o prazo para o ano que vem. Mesmo com o tempo extra, a missão continua complicada. A começar pela enorme dificuldade da companhia em cumprir suas próprias metas.

Veja a situação da Petrobras nos últimos anos

A produção de petróleo da Petrobras tem frustrado expectativas pelo menos desde 2007. A diferença entre as projeções de longo prazo feitas em cada plano de negócios e o resultado concreto, anos mais tarde, variou de 13% a 28%, conforme levantamento feito pela Gazeta do Povo.

Cumprir metas ficou mais difícil a partir de 2012, quando, além de não crescer o esperado, a produção de petróleo passou a cair, afetada por paradas em plataformas e pelo declínio produtivo de campos importantes. No ano passado, a estatal produziu 1,931 milhão de barris por dia, 750 mil barris a menos que o projetado quatro anos antes.

Marco

A "autossuficiência volumétrica", que a Petrobras espera para o ano que vem, é a condição em que a produção nacional de petróleo supera o consumo de derivados. O Brasil chegou a atingir esse nível na década passada, mas depois regrediu, com a explosão do consumo de combustíveis e a estagnação da atividade petroleira.

Recuperar a autossuficiência não depende só da Petrobras, mas também das outras companhias que atuam no país, principalmente Statoil, Shell, Sinochem e BG. O desempenho da estatal, no entanto, será determinante, pois ela é responsável por mais de 90% da produção. A conquista também está condicionada a um crescimento bem mais fraco do consumo de derivados, de 2,7% ao ano entre 2014 e 2020, segundo a Petrobras. No ano passado, a demanda cresceu 5,3%, quase o dobro disso.

"Tecnicamente é possível chegar à autossuficiência. Mas não será fácil", avalia Adilson de Oliveira, professor do Instituto de Economia da UFRJ. "Dependerá de duas variáveis centrais. Uma é a empresa ter recursos, o que depende do reajuste dos preços. A outra é a capacidade da empresa de administrar seus quadros", diz Oliveira.

Realismo

Quando assumiu a presidência da Petrobras, em 2012, a engenheira química Graça Foster promoveu uma revisão geral – para baixo – das metas da companhia. "Os planos ficaram mais modestos e honestos. A produção diária esperada para 2020 caiu de 5 milhões para pouco mais de 4 milhões de barris", diz André Furtado, professor do Departamento de Política Científica e Tecnológica da Unicamp.

O resultado das projeções de longo prazo de Graça Foster só será conhecido a partir de 2016, horizonte do primeiro plano de negócios de sua gestão, publicado em 2012. O que se sabe é que as previsões de curto prazo ficaram próximas da realidade. A atual direção da empresa esperava uma média diária de 2 milhões de barris em 2012 e 2013, pouco acima da produção obtida.

A expectativa para 2014 é de um crescimento de 7,5%, o que levaria a produção para até 2,095 milhões de barris. Mas o ano não começou promissor: a produção de janeiro foi de 1,917 milhão de barris diários, abaixo da média de 2013.

Alto-mar

Exceção, pré-sal supera expectativas

Em meio à série de previsões frustradas nos últimos anos, a Petrobras pode se orgulhar de estar superando, com folga, ao menos uma de suas metas: a do pré-sal. No plano de negócios 2010-2014, a companhia previu que a produção de petróleo nesses campos alcançaria neste ano 241 mil barris diários, em média. No último dia 27 de fevereiro, a companhia anunciou que alcançou a marca de 412 mil barris de petróleo em um dia.

Para Edmilson Moutinho dos Santos, professor do Instituto de Eletrotécnica e Energia da USP, os recordes no pré-sal estão relacionados à frustração da produção em outros campos. "Como o pré-sal é muito grande e produtivo, faz todo o sentido que a empresa aplique o máximo de recursos nele. Vale mais a pena apostar no que dá muito volume do que investir em campos declinantes", diz. "Mas, enquanto o pré-sal não produz o suficiente para ‘pagar todas as contas’, a produção total diminui."

Para Adriana Fiorotti Campos, professora da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), os resultados do pré-sal são consequência de programas de produção em águas profundas iniciados na década de 1970. "O progresso tecnológico evoluiu em ritmo muito veloz, e o sucesso exploratório dessa região é muito alto", diz a economista.

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