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Guerra comercial

Tarifaço de Trump atinge US$ 11 bilhões, mas impacto na economia divide especialistas

Tarifa EUA
Os presidentes dos EUA, Donald Trump, e do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (Foto: Daniel Torok/Casa Branca/Wikimedia Commons)

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O tarifaço de 25% imposto pelos EUA afetará exportações brasileiras equivalentes a US$ 11 bilhões, segundo estimativa da Amcham Brasil. Os setores de máquinas, calçados e móveis devem sofrer maior pressão, segundo fontes ouvidas pela Gazeta do Povo.

Em relação aos impactos à economia em geral, há visões distintas. Para Alexandre Chaia, professor do Insper, os efeitos devem ser limitados, já que produtos de maior peso nos negócios — café, petróleo, carne bovina, aviões comerciais e celulose — ficaram de fora da nova cobrança.

"A decisão tem mais viés político do que prático, já que a maior parte das mercadorias exportadas foi preservada devido à necessidade que os EUA têm desses produtos", diz.

Por outro lado, Ricardo Alban, presidente da Confederação Nacional das Indústrias (CNI), acredita que os efeitos do tarifaço devem afetar a economia de forma mais significativa.

"Os efeitos do aumento de tarifas dos Estados Unidos estão sendo cada vez mais sentidos pela indústria brasileira: 20 dos 27 estados reduziram suas exportações ao mercado norte-americano no primeiro semestre. O cenário tende a piorar", afirma.

Para Alban, o aumento das tarifas tende a aprofundar a retração do comércio bilateral, que já registra queda de 13% no ano e levou a participação dos Estados Unidos no comércio exterior brasileiro ao menor patamar desde 1997.

A retração foi influenciada pela redução de 8,7% nas vendas de bens industriais, especialmente de produtos semimanufaturados de ferro e aço, ferro fundido bruto, pasta química de madeira não conífera, óleos de petróleo e produtos semimanufaturados de outras ligas de aço.

Os maiores efeitos sobre a economia devem vir de possíveis custos fiscais com subsídios estatais e outras medidas para mitigar os danos econômicos sofridos pelas indústrias mais atingidas. O governo federal já anunciou que criará auxílios aos setores mais afetados pelas tarifas.

Setores pressionados buscam reduzir dependência dos EUA

Um dos principais setores afetados é o de máquinas e equipamentos, dos quais os Estados Unidos são o maior comprador. Segundo a Associação Brasileira das Indústrias de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), em 2025 as vendas brasileiras foram de US$ 3,2 bilhões. As importações norte-americanas de máquinas brasileiras somaram US$ 4,8 bilhões.

A entidade empresarial ressalta que parcela significativa desse comércio ocorre entre empresas do mesmo grupo econômico — negócios entre filiais de uma mesma corporação. Isso reflete investimentos produtivos realizados por empresas norte-americanas no Brasil e por empresas brasileiras nos Estados Unidos.

"A elevação de tarifas tende a aumentar custos, reduzir competitividade, comprometer investimentos e afetar a eficiência das cadeias produtivas instaladas nos dois países, produzindo consequências que vão além da relação comercial bilateral", ressalta a Abimaq em nota.

Para reduzir os efeitos do tarifaço, os setores afetados tendem a buscar a diversificação de mercados. A indústria moveleira, por exemplo, já vem redesenhando o mapa de suas exportações.

Os Estados Unidos seguem como principal destino do setor no país, mas viram sua participação cair de 28,3% em 2024 para 16,5% no acumulado de 2026 — quase a metade em dois anos. No mesmo período, a América Latina avançou de 53,1% para 64,5% das exportações nacionais de móveis.

A mudança também reflete outro fator: as calçadistas brasileiras aceleraram sua presença em países latino-americanos, favorecidas pela proximidade geográfica, logística mais eficiente e perspectivas de ampliação dos acordos comerciais internacionais, como o Mercosul-União Europeia.

"Nenhum empresário tira o pé dos Estados Unidos por conta própria, a não ser que aconteça uma situação como essa", diz Cleberton Ferri, diretor internacional do Sindicato das Indústrias de Móveis de Bento Gonçalves (RS).

Subsídios do governo a setores mais afetados

Para as indústrias e empresas que ficaram de fora da lista de exceções e sofrerão os efeitos diretos das tarifas adicionais, o auxílio estatal será fundamental.

O pacote de medidas que o governo federal já se comprometeu a colocar em prática, conhecido como plano "Brasil Soberano", é visto por alguns setores como essencial para apoiar e mitigar a crise.

Chaia explica que o suporte, por meio de linhas de crédito do BNDES, ajudará essas empresas a atravessarem a turbulência enquanto buscam diversificar seus compradores. "A gente sobreviveu ao primeiro [tarifaço], que foi mais surpreendente e com menos alternativas de ocorrência", ressalta o especialista, indicando que o Brasil foi pego de surpresa no passado, mas hoje está mais bem preparado.

Parte da conta pode ficar com norte-americanos

Humberto Aillon, professor do núcleo contábil e tributário da Fipecafi, identifica três momentos de impacto: restrição às importações, freio à atividade e menor confiança sobre a economia em um cenário de juros elevados. "O tarifaço não derruba a economia brasileira, mas tira totalmente o fôlego de um PIB que já vinha desacelerando", diz.

A conta recai principalmente sobre a indústria de transformação, que responde por 84% da pauta exportadora para os EUA. Os mais vulneráveis são máquinas, móveis, calçados e têxteis. Estes últimos dois são mais intensivos em mão de obra.

Apesar disso, o peso financeiro da nova taxação pode recair com mais força sobre os próprios norte-americanos. Isso porque os Estados Unidos não conseguirão substituir facilmente as importações brasileiras e deverão manter o fluxo de compras mesmo com tarifas maiores, diz o professor do Insper.

No mercado interno brasileiro, um dos possíveis efeitos pode ser até mesmo a redução de preços de alguns itens, já que o excesso de produtos retidos no país pode gerar aumento de oferta e, consequentemente, baixar os preços locais.

Reversão depende da política norte-americana

Embora não haja temor de uma crise imediata na economia nacional, a reversão das novas barreiras comerciais no curto prazo é complexa. A medida deriva de uma investigação estruturada, não apenas de uma decisão executiva arbitrária.

Raquel Borges de Sá, estrategista da XP Investimentos, aponta que as chances de reversão dessas medidas são pequenas. Isso porque a imposição das novas tarifas foi elaborada pelo Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR) sob uma base institucional e jurídica muito forte, diferentemente de tarifas que entram em vigor por meio de decretos de urgência mais frágeis.

"O desafio do Brasil será defender sua soberania sem transformar a disputa em uma guerra comercial prejudicial para empresas, trabalhadores e consumidores", diz Leonardo Roesler, sócio do RCA Advogados.

Retaliação pode ampliar perdas para o Brasil

Apesar da pressão para uma reação incisiva, a adoção de medidas de retaliação pelo governo brasileiro — como o acionamento da Lei de Reciprocidade econômica, já confirmado pelo governo — divide especialistas.

O presidente Lula admitiu a possibilidade como resposta. Contudo, Chaia avalia que essa estratégia seria como "colocar mais calor nesse fogo", prejudicando o próprio consumidor local e não trazendo benefícios ao país.

Para o professor do Insper, a resposta ideal está na continuidade da política de expansão de parceiros comerciais, buscando novos mercados importadores para substituir a parcela afetada da demanda norte-americana.

Mesmo diante desse cenário, a expectativa é de que as negociações entre os dois governos permaneçam abertas, já que uma sobretaxa adicional de 12,5% pode ser aplicada sobre as exportações brasileiras em decorrência de uma outra investigação dos EUA sobre trabalho forçado.

"Esperamos que os governos do Brasil e dos Estados Unidos mantenham abertos os canais de diálogo. Esse esforço torna-se ainda mais urgente diante da probabilidade de novas tarifas no âmbito da investigação da Seção 301 sobre trabalho forçado, que poderão elevar as sobretaxas sobre produtos brasileiros para até 37,5%", afirma Abrão Neto, presidente da Amcham Brasil.

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