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O anúncio do novo tarifaço americano na noite desta quarta-feira (15) colocou em plano secundário, no governo brasileiro, a busca por uma solução nos terrenos diplomático e comercial, e engrossou o discurso eleitoral do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) contra seu principal concorrente na disputa pela sucessão, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Desde as primeiras ameaças de sobretaxação, o governo petista atribui a crise às articulações da família Bolsonaro com a administraçao de Donald Trump, enquanto a oposição de direita sustenta que o endurecimento da relação bilateral se deve à condução hostil e relapsa do lado brasileiro.
Logo após a decisão americana, Lula voltou a afirmar que o Brasil reagirá às medidas “em defesa de sua soberania”, socorrendo setores afetados e buscando a retaliação comercial, o que é apontado por exportadores e especialistas como algo que pode agravar o impasse.
No âmbito doméstico, o presidente acusou os Bolsonaro de “entreguismo”, visando “submeter o Brasil aos interesses dos Estados Unidos”.
Em nota à imprensa, após rebater as acusações do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), o petista afirmou que “é triste constatar que o lamentável desfecho das investigações baseadas na Seção 301 faz parte do enredo construído com a ativa colaboração da família Bolsonaro”. “São falsos patriotas que arquitetaram e defenderam publicamente ações contra o nosso país, movidos por objetivos eleitoreiros. Não se pode amar o Brasil apenas quando vencemos eleições”, diz o texto.
Pré-candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL) frisou que a sua atuação sempre buscou evitar o agravamento da crise comercial e insistiu que a sobretaxação deveria ser suspensa, e não intencionalmente utilizada como um instrumento de disputa eleitoral.
Secretário dos EUA aponta desinteresse de Lula e Vieira rebate
Para o secretário de Estado americano, Marco Rubio, Lula não negociou de boa-fé e colocou o ego na frente.
“Não deve haver qualquer dúvida quanto ao motivo: o presidente Lula e seu governo não negociaram com os EUA de boa-fé. Suas políticas econômicas são ruins para os americanos e ruins para os brasileiros. Ao longo do último ano, Lula colocou seu próprio ego à frente de alcançar um acordo em benefício do povo brasileiro, e essas tarifas são o preço dessa escolha”, publicou Rubio nas redes sociais.
O chanceler brasileiros, Mauro Vieira, rebateu, no mesmo tom adotado pelo governo. Em nota lida à imprensa, afirmou que as declarações do colega americano “são inaceitáveis, ofensivas ao povo brasileiro e ao governo brasileiro”. “Rubio ataca de forma grosseira e arrogante o chefe de Estado de um país amigo. Claramente o que incomoda o governo dos Estados Unidos é o fato de o Brasil não ter se curvado às pretensões desmedidas e irrazoáveis apresentadas no curso das negociações”, afirmou.
Após série de contatos de equipes de governos, reuniões bilaterais dos presidentes dos dois países e participação direta de Flávio Bolsonaro em audiência pública em Washington, no qual defendeu o adiamento e a revisão das tarifas, a real negociação deve voltar só após as eleições.
A partir de agora, além do impacto econômico sobre cerca de 25% as exportações brasileiras para os EUA, a condução da crise deve figurar como um dos principais temas da campanha presidencial de 2026. A publicidade oficial e manifestações da esquerda já atuam nessa linha.
Tocada por Sidônio Palmeira, ministro da Secretaria de Comunicação Social, a propaganda de governo e de campanha centrada na soberania nacional se consolidou como reação oficial e política ao tarifaço, com discurso contrário a pressões externas e críticas a Flávio Bolsonaro.
“O Brasil é dos brasileiros” se firma como slogan de campanha de Lula
A publicidade oficial e as mensagens presidenciais exibem slogans como “O Brasil é dos brasileiros”, que também aparecem em bonés e outras peças de mobilização. O governo busca com isso tornar a crise comercial ativo eleitoral e tachar os Bolsonaro de inimigos do país.
Um sinal de como Lula usará a crise na campanha está na reação do ministro Guilherme Boulos, da Secretaria-Geral da Presidência, ao tarifaço: “A Frente Ampla de 2022 foi pela Democracia. A nova frente Ampla será pela Soberania e a dignidade patriótica do povo brasileiro”.
A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, postou que o Brasil está “sob ataque econômico movido por interesses políticos, ideológicos e eleitorais” e considerou “inaceitável utilizar a política ambiental brasileira e o PIX como pretextos para punir o Brasil”.
“É especialmente grave que integrantes da família Bolsonaro, que tem o apoio do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, tenham colaborado ativamente para criar um ambiente favorável a medidas contra o próprio Brasil. Em nome de seus interesses eleitorais e familiares, trabalharam para enfraquecer o país, pressionar nossas instituições e causar prejuízos à população brasileira”, publicou no X.
Já o deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) postou: “O tarifaço é obra dos Bolsonaros, que agiram como traidores da Pátria. Construíram isso junto ao governo Trump para evitar a prisão de Jair Bolsonaro. Eduardo e Tariflávio precisam ser responsabilizados e a resposta virá das urnas”.
Pré-candidato a deputado federal, ex-ministro José Dirceu engrossou as críticas e também cobrou uma posição do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. “O Brasil está sob ataque econômico movido por interesses eleitorais da família Bolsonaro. Não há razão para esse tarifaço imposto pelos EUA. Trata-se de uma interferência política nas eleições do Brasil [...] Chama a atenção o silêncio de Tarcísio de Freitas, que até agora não se posicionou para defender a economia paulista e os empregos do nosso estado."
Aliados de Lula seguiram a crítica contra os “traidores da pátria”. “Após intensa articulação da família Bolsonaro, Trump confirmou novo tarifaço. Tudo para satisfazer o ódio de Flávio e seus irmãos ao país, que prendeu Jair Bolsonaro”, disse a deputada Érica Hilton (PSol-SP) no X.
Flávio tenta se firmar como o verdadeiro negociador com os EUA
O anúncio do tarifaço tornou a disputa comercial apenas política. Até agora, o governo concentrou a sua reação na promessa de utilizar a Lei da Reciprocidade Econômica, caso precise reagir às medidas dos EUA, e emprego de mecanismos de apoio a setores exportadores atingidos.
“Nas três reuniões que nós tivemos, com o presidente Donald Trump, o vice-presidente J.D. Vance e o secretário de Estado, Marco Rubio, eu pedi expressamente: não taxem as empresas brasileiras. É um pedido que eu fiz, expresso, a eles”, argumentou Flávio Bolsonaro em nota.
A declaração foi apresentada pela campanha de Flávio como prova de que a sua interlocução em Washington buscou apenas evitar prejuízos às empresas brasileiras e rebater a insistente narrativa do governo de que ele, o irmão Eduardo e parceiros nos EUA estimularam as sanções.
Nesta quinta, após o anúncio do novo tarifaço, o senador culpou Lula.
“Lula não tem mais condições de ser o presidente do Brasil. Estamos num avião sem piloto. O Biden brasileiro está ranzinza, inconsequente e se tornou um perigo para a nossa nação. Quem olha pro Lula não enxerga futuro. Enxerga passado, atraso, incerteza, desconfiança, corrupção, incompetência, vingança… Chega! O Brasil tem futuro, mas não tem mais tempo a perder!”, postou nas redes sociais.
Na manifestação que fez sobre o tarifaço, Lula contestou a postura de Flávio. “Pedir que o tarifaço contra o nosso país seja adiado para depois das eleições é mais uma atitude de traidores da Pátria. Nunca houve e não há qualquer justificativa para tarifaço agora ou depois”, disse.
Especialistas temem substituição de negociação técnica por narrativas
Em entrevista à CNN Brasil, Roberto Azevêdo, ex-diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), lamentou a captura da disputa comercial pela estratégica de reeleição de Lula, ao se perceber ganhos de imagem do governo e de intenção de voto ao reagir aos EUA.
Logo após a abertura da investigação comercial dos EUA, em junho de 2025, a disputa entrou na corrida presidencial. O resultado disso, diz Azevêdo, é o uso eleitoral de tema de forte impacto sobre exportações, investimentos e empregos, anulando negociação técnica e pragmática.
Para o cientista político Paulo Kramer, nunca houve sinais concretos de afinidade política entre Lula e Trump. “A tal química entre eles sempre foi uma ficção. Em três anos e meio, o petista atacou dezenas de vezes o presidente americano em declarações públicas”, explicou.
Kramer lembra que Lula e aliados jamais deixaram de lado o discurso antiamericano, que segue a orientar uma política externa anacrônica. “Agora, diante do tarifaço, Lula recorre novamente a argumentos ideológicos para fazer da crise instrumento de mobilização eleitoral”.




