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Comércio exterior

Trégua na guerra comercial entre EUA e China reduz espaço para produtos brasileiros

Provável aumento de compra de produtos agrícolas americanos pela China deve tirar espaço de soja e carne brasileiras e afetar expectativas de empresas que atuam no setor

  • Vandré Kramer
Soja é um dos principais produtos brasileiros exportados para a China | Bloomberg
Soja é um dos principais produtos brasileiros exportados para a China Bloomberg
 
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A trégua na guerra comercial entre Estados Unidos e China, as duas maiores economias globais, vai ter impacto sobre as exportações brasileiras de soja e de carnes para o país asiático. As negociações feitas em Buenos Aires, no final de semana passada, entre os presidentes chinês, Xi Jinping, e o americano, Donald Trump, preveem um aumento nas compras chinesas de produtos agrícolas. 

 No início da guerra comercial, a China retaliou os Estados Unidos sobretaxando produtos agrícolas americanos e direcionando as compras para outros fornecedores, como o Brasil. Segundo a Secretaria de Comércio Exterior (Secex), as exportações de soja entre julho e novembro para a China cresceram 74,3%, atingindo US$ 11,49 bilhões. E as de carne aumentaram 65,1%, chegando a US$ 1,28 bilhão. 

Segundo Jeffrey Kucik, professor assistente de Ciência Política da Universidade do Arizona e especialista em temas relacionados à guerra comercial:

A agricultura americana foi o primeiro objetivo e, pesadamente, das medidas represália de Pequim. E é aqui que a guerra comercial teve alguns benefícios para mercados emergentes como o Brasil. A limitação da China às importações americanas fez com que tenha sido obrigado a buscar produtos como a soja em outros países. Enquanto os agricultores americanos estão sofrendo as barreiras da China, outros desfrutam dessa maior demanda.

O principal impacto da trégua para o Brasil, segundo Álvaro Bandeira, economista-chefe da Modalmais, será o retorno ao status quo anterior. “Ao comprar produtos agrícolas dos Estados Unidos, fecha-se um espaço para produtos de países emergentes, como o Brasil. Isso mexe com as expectativas das empresas”, afirma ele. 

 Também é preciso esperar um pouco, afirma Kucik. Segundo ele, os detalhes do compromisso da China com a agricultura americana ainda não estão claros. E mesmo autoridades americanas ligadas ao comércio não estão tão confiantes em relação a um acordo entre os dois países 

Evandro Menezes de Carvalho, diretor do Centro Brasil-China da Escola de Direito da FGV Rio, aponta que o mais preocupante são as posições que o futuro presidente, Jair Bolsonaro, tem em relação à China, com a qual o Brasil tem um superávit comercial de aproximadamente US$ 23 bilhões. “É um importante parceiro para o Brasil.” 

LEIA TAMBÉM: O Brasil nunca precisou tanto da China quanto hoje

Mais preocupante para o agronegócio brasileiro, diz o professor, seria uma transferência da embaixada brasileira em Israel de Tel Aviv para Jerusalém, o que desagradaria profundamente os países árabes. O status de Jerusalém é crucial para o processo de paz entre israelenses e palestinos. 

Um sinal do que podem vir a ser as relações entre o Brasil e os países árabes caso se concretize a mudança diplomática foi dado no mês passado, com o Egito suspendendo uma visita do chanceler brasileiro, Aloysio Nunes Ferreira, ao país. 

Os países árabes estão entre os maiores compradores de carne bovina e de aves brasileira. Dados da Secex mostram que, entre janeiro e novembro, os países do Oriente Médio adquiriram US$ 2,63 bilhões em produtos brasileiros. Os principais compradores são a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos, o Irã, o Kuwait e o Iraque. 

A tensão vai continuar 

Bandeira avalia que a trégua e as negociações entre os Estados Unidos e a China traz um pouco de refresco para o cenário internacional pois contribui para a redução no protecionismo, a melhora nas expectativas para o comércio internacional e reduz os riscos para a economia mundial. 

 Mas não se pode esperar uma melhora da água para o vinho no relacionamento entre as duas maiores economias mundiais. “Eles têm muito mais problemas do que só a guerra comercial e o grande déficit que os EUA tem na balança comercial com a China”, lembra o economista-chefe. 

 Outras questões são a propriedade intelectual, questões relacionadas à defesa e à segurança nacional e um papel preponderante que os asiáticos estão assumindo na tecnologia mundial. “A China vem investindo muito neste segmento e não vende mais só produtos baratinhos.” 

Menezes de Carvalho, da FGV Rio, aponta que a trégua dá um alívio momentâneo para a China, que está sentindo mais os reflexos da guerra comercial por causa do pesado superávit comercial que tem para com os americanos. 

 A trégua é só um passo, enfatiza o professor da Universidade do Arizona:“

O grande desafio é se os EUA e a China poderão encontrar um terreno em comum na ampla diversidade de temas que atualmente os separam. É importante destacar que a guerra comercial não se trata só de comércio. Também se trata de um jogo geopolítico mais amplo que se desenvolve no Leste da Ásia e em todo o mundo. A evidência é visível na declaração que a China emitiu, enfatizando temas como a política de uma só China. Isto vai complicar as negociações.

 Mas Kucik ressalta que a trégua é um sinal positivo em meio à tensão crescente e que soluções dependem de um longo caminho a ser percorrido. Para ele, o ideal é que haja uma redução nas tarifas. “Há muito pouco detalhe sobre isto até agora.”

Ao mesmo tempo que traz um impacto negativo para o Brasil, Márcio Sette Fortes, professor do Ibmec, avalia que o movimento cria boas expectativas, diminuindo a pressão sobre uma queda mais forte no crescimento chinês, estimado em torno de 6% para os próximos três anos, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI). “Isto evita uma demanda mais fraca por causa do protecionismo e uma queda nos preços.”

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