| Foto: Antônio More / Agência de Notícias Gazeta do Povo

Experiência

Grêmios estudantis estimulam a vivência democrática

Os grêmios estudantis são outra forma de se estimular a vivência democrática dentro da escola, mas no Paraná a experiência não alcança nem metade das escolas estaduais. De acordo com a Secretaria de Estado da Educação (Seed), apenas 40% dos colégios da rede têm um grêmio estruturado. Segundo Adir Simão de Souza, responsável por grêmios estudantis na Coordenação de Gestão Escolar da Seed, o problema na implantação dessas entidades depende muito da mobilização da própria comunidade escolar. "Existe a intenção de estender o grêmio a todas as escolas, mas não há como fazer isso por decreto. Nosso trabalho é sensibilizar as escolas por uma gestão democrática", explica Souza.

Assim como as associações de pais, mestres e funcionários ou os conselhos escolares, os grêmios são instâncias colegiadas autônomas. Funcionam de modo semelhante aos centros acadêmicos universitários e geralmente fazem a ponte entre alunos e direção escolar de forma mais sistemática, encaminhando reivindicações ou promovendo eventos, como torneios esportivos. No site Dia a Dia Educação (www.diaadia.pr.gov.br), da Seed, há material de subsídio para download destinado a alunos e escolas que pretendam começar um grêmio.

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Política nas escolas

Como fazer com que os estudantes se interessem mais por temas como cidadania e democracia?

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As cartas selecionadas serão publicadas na Coluna do Leitor.

Se motivar universitários a se envolverem em temas políticos já é difícil, na educação básica os professores precisam de doses ainda mais intensas de criatividade para tornar interessantes assuntos como eleições ou democracia. Com esse desafio, alguns docentes aproveitaram o ano eleitoral para implantar projetos que fazem os próprios alunos experimentarem o que é uma candidatura ou conhecerem de perto o trabalho de deputados e vereadores, fazendo contato direto com os políticos, indo além da mera exposição dos temas durante as aulas.

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Na iniciativa tomada pela professora Andressa Oliveira de Souza Kryminice, regente da turma do 5.º ano no Colégio Dom Bosco, a introdução do tema começou com a discussão sobre grandes momentos da política nacional, como a campanha das Diretas Já e o impeachment do presidente Fernando Collor. Em seguida, a partir de sugestões dos próprios alunos, a professora organizou uma verdadeira campanha eleitoral. "A ideia partiu das crianças porque eles começaram a falar de melhorias que poderiam fazer na escola, então pedi que apresentassem suas propostas", conta Andressa.

Foram definidas cinco duplas como candidatas. Cada uma delas teve a missão de tornar suas ideias conhecidas e convencer os demais a confiar em seus projetos. Cartazes com as propostas foram colocados nas paredes e o ponto alto da atividade foi o debate promovido nos moldes daqueles que as crianças veem na tevê. Segundo a professora, houve sorteio de temas e espaço para que uns perguntassem para os outros. Além disso, os demais estudantes cobraram os candidatos sobre como fariam para viabilizar suas ideias. A campanha segue movimentada, com votação marcada para esta semana. Como é difícil pegar emprestado urnas eletrônicas, os votos serão computados do jeito antigo, com cédulas de papel.

Relatório

No Colégio Medianeira os alunos do primeiro e do segundo ano do ensino médio receberam uma tarefa árdua. Colher informações sobre vereadores e deputados estaduais e fazer perguntas diretamente a eles. Para frustração da maioria dos estudantes, apenas 20% dos políticos procurados deram algum retorno.

O professor de Filosofia e Sociologia Jerson Darif, idealizador do projeto, explica que a intenção da tarefa foi mostrar aos estudantes que o poder público não está, nem pode estar, distante de suas vidas. No entanto, a frustração de vários grupos pela falta de retorno serviu também a outro propósito. "O parlamento está desmoralizado, e eles estão tomando consciência de que somente limpando o parlamento é que a nossa democracia fica mais estável."

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No desenvolvimento do projeto, que já dura três meses, os alunos do primeiro ano ficaram responsáveis por elaborar um relatório sobre os vereadores e o segundo ano fez o mesmo com os deputados. Vasculharam a internet em busca de dados sobre fidelidade partidária, frequência às sessões, propostas e a formação acadêmica de cada um. Os sites da Câmara dos Vereadores e da Assembleia Legislativa foram os mais usados, mas eles também recorreram a notícias publicadas pela imprensa.

O grupo da aluna Bárbara Nogueira do Nascimento, do primeiro ano, foi um dos poucos que obteve sucesso no contato com os vereadores que procuraram. "Fizemos contato pelo Facebook e depois agendamos uma entrevista com eles na Câmara", conta. Ela se solidariza com os colegas que não obtiveram resposta alguma, mas diz que a experiência de seu grupo foi gratificante. "Gostamos muito, a gente se sente participando da vida pública" diz.

Tema deve estar sempre presente em sala de aula

Para analistas ouvidos pela reportagem, atividades que destaquem o período eleitoral em sala de aula são importantes, mas temas como política e democracia não podem se restringir a um breve período a cada dois anos. Segundo o professor de Sociologia Política da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) Cezar Bueno Lima, o melhor modo de aproximar jovens da política, mesmo que ainda não votem, é mostrando a eles como as decisões políticas têm efeitos na vida cotidiana. "Acabamos reduzindo a política a mera representação partidária, mas praticamente tudo passa por decisão política, desde o preço da água até a situação da escola", diz.

Uma dica para envolver as crianças em temas de cidadania, segundo Lima, seria levá-las a identificar e defender os interesses de seu bairro, como a necessidade de um posto de saúde.

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Segundo a professora do curso de Pedagogia da Uni­ver­sidade Positivo Ivana Cris­ti­na Lima de Al­­mei­da, é possível trabalhar valores democráticos desde a educação infantil, ao estimular as crianças a tomar decisões e participar de escolhas que influenciem a turma.

No dia 11 de setembro, a Comissão de Educação do Senado aprovou em caráter terminativo a inclusão da disciplina Ética Social e Política no ensino médio. O projeto tam­­bém deter­mina que o en­­sino fundamental passe a ter aulas de Cidadania Moral e Ética. A proposta será analisada agora pela Câmara dos Deputados.

De acordo com Ivana, porém, não é necessário limitar a abordagem do tema a uma disciplina. "Noções de cidadania que envolvem a relação de uma criança com as outras, ou com os professores, podem ser trabalhadas em várias áreas".