Arco na Praça do Comércio, em Lisboa.| Foto: Unsplash
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Existem poucas dúvidas de que, nos países ocidentais, grande parte das universidades tende para a esquerda, especialmente nos cursos das ciências humanas e sociais. Mas também é fato que, em quase todos eles, existem contrapontos. Nos Estados Unidos, o aluno tem dezenas de opções – geralmente entidades menores, muitas com mais de um século de vida, com um currículo diferenciado e uma cosmovisão que valoriza a herança clássica e cristã. Na lista estão instituições como o Grove City College, na Pensilvânia, a Regent University, na Virgínia, e o Hillsdale College, no Michigan. Em Portugal, é possível encontrar refúgio na Universidade Católica de Lisboa. Na Espanha, a Universidade de Navarra. No Brasil, porém, inexistem universidades conservadoras.

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Para ser justo, há iniciativas isoladas - como o Departamento de Economia da Universidade Mackenzie, de orientação liberal, ou o curso de Filosofia do Largo de São Bento, em São Paulo, que oferece uma formação de perfil tradicional. Mas o Brasil não possui uma universidade completa que adote uma sólida tradição de educação clássica, nos moldes das primeiras universidades europeias e americanas.

As artes liberais, parte inspiradas na tradição de Grécia e Roma, parte na tradição da Igreja Católica e das igrejas protestantes tradicionais, priorizam a formação completa do ser humano, e não apenas de um profissional com uma habilidade específica. Até o século XIX, por exemplo, era comum universidades americanas e europeias exigirem que os alunos chegassem ao ensino superior já sabendo latim e grego. Depois de entrarem, eles passavam boa parte do tempo lendo obras clássicas e estudavam um pouco de tudo: biologia, física, filosofia, teologia. Esse modelo foi abandonado na maior parte dos lugares, mas sobreviveu, com adaptações, até hoje.

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O Brasil parece ter chegado tarde demais nessa história.

Comunismo e positivismo

Por uma proibição da coroa portuguesa, o Brasil colonial não tinha instituições de ensino superior. Apenas após a Independência, na década de 1820, surgiram iniciativas isoladas, como as Faculdades de Direito de São Paulo e do Recife. Mas as universidades só apareceram décadas depois: o primeiro grande exemplo foi o da Universidade de São Paulo, fundada em 1934 (embora haja um precedente menos influente com a Universidade de Manaus, em 1909). E os tempos já haviam mudado. A Europa vivia a ilusão de regimes autoritários como o comunismo e o fascismo, e o ideal da educação clássica ficara em segundo plano.

“Foram trazidos pesquisadores importantes, como Levy Strauss, Roger Bastide, para formar a Universidade de São Paulo. Assim, a França influenciou fortemente a constituição do Núcleo de Ciências Humanas da USP”, relata Bráulio Porto de Matos, professor da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília (UnB). A educação francesa, por sua vez, há muito estava sob a égide da Revolução Francesa e suas ramificações. “Essa ideia do intelectual transformador do mundo, engajado politicamente, pode ser atribuída à Revolução Francesa. Essa ideia nasceu fora da universidade, mas passou para dentro da universidade”, explica Matos. A USP formou uma geração de professores universitários com esse perfil, o que teve um efeito multiplicador nas décadas seguintes.

Depois, vieram os anos 1960 e, com eles, o regime militar. Nas ciências humanas e sociais, as universidades já estavam, em grande medida, envolvidas com as alas esquerdistas mais radicais. E o antídoto foi insuficiente: embora ideologicamente contrários às ideias socialistas, os militares tinham uma visão muito distante do ideal clássico. Eles eram sobretudo influenciados pelo positivismo, e acreditavam que a metafísica não tinha espaço (cursos de teologia foram fechados) e a filosofia era irrelevante para o progresso. Era preciso construir pontes, estradas e usinas hidrelétricas. As outras alas das universidades, em especial os cursos de humanas, eram deixados nas mãos dos esquerdistas. Ao mesmo tempo, os militares ajudaram a desmontar os últimos resquícios de educação clássica no Brasil: as escolas primárias. Foi nesse período, por exemplo, que o ensino do latim foi banido.

Isso ajuda a explicar como, apesar de ter tido o sistema educacional em suas mãos por décadas, o regime militar não foi capaz de incentivar uma tradição intelectual própria para se contrapor às ideias de esquerda.

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“Nunca houve no Brasil uma tradição liberal. Nós temos expoentes isolados, como José Guilherme Merquior ou Roberto Campos. Mas tradição intelectual no Brasil foram ou o positivismo no século XIX, que ganhou corpo no Exército e na Marinha, e o marxismo e suas vertentes”, diz Ricardo da Costa, professor de História da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES).

Sem uma presença significativa de protestantes, que ajudaram a impulsionar o ensino superior nos Estados Unidos (Harvard, Yale, Princeton, Columbia, Dartmouth, Brown, seis das oito chamada Ivy League, eram vinculadas a igrejas reformadas), a responsabilidade de carregar a herança educacional clássica no Brasil recaía sobre a Igreja Católica. Mas, apesar da longa tradição educacional de padres e missionários católicos no país, a situação já havia mudado bastante na segunda metade do século XX: a teologia da libertação, que tenta conciliar o marxismo com o Cristianismo, teve um profundo impacto nas instituições de ensino católicas. Hoje, o currículo e o corpo docente dessas universidades são pouco distinguíveis das universidades públicas.

Ao mesmo tempo, com a abertura do mercado para a expansão das faculdades e universidades particulares, o que se viu foi uma profusão de instituições voltadas para o mercado de trabalho, quase como cursos técnicos. Não são universidades no sentido clássico, voltadas para a construção de um saber universal: cada aluno segue um caminho pré-definido e que não permite a exploração de outras áreas do conhecimento e não oferece qualquer oportunidade para uma reflexão intelectual mais profunda. Nesse caso, os empresários não são os únicos culpados. A falta de uma instituição de perfil clássico no Brasil também reflete a falta de demanda por universidade com esse perfil.

Bolsonaro também não está preocupado com universidades conservadoras

Talvez não seja coincidência que um presidente militar em um governo repleto de militares tenha pouca disposição de reverter essa tendência nas ciências humanas. “Uma das falhas do governo atual é o descaso com essa área; a falta de um projeto acadêmico, intelectual, cultural”, afirma Costa. Ele sabe o que diz: por um ano e meio, o professor da UFES ocupou cargos no Ministério da Educação do governo Bolsonaro, inclusive assessorando diretamente o ministro Ricardo Vélez Rodriguez. Lá, ele percebeu que o governo não tem um plano abrangente para o ensino superior.

A visão da gestão atual, aliás, é exposta sem rodeios. “Eu, como brasileiro, eu quero ter mais médico, mais enfermeiro, mais engenheiro, mais dentistas. Eu não quero mais sociólogo, antropólogo, não quero mais filósofo com o meu dinheiro", disse Abraham Weintraub, que à época era ministro da Educação, em uma entrevista no ano passado. O presidente Jair Bolsonaro também defendeu a redução dos investimentos em filosofia e sociologia com base em um argumento utilitarista: “O objetivo é focar em áreas que gerem retorno imediato ao contribuinte, como: veterinária, engenharia e medicina”, afirmou ele, também em 2019.

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Embora possa fazer sentido do ponto de vista orçamentário, a política parte de um pressuposto inadequado: o de que a filosofia e as áreas correlatas são necessariamente um terreno da esquerda, e que a única solução possível é sufocar a própria existência dessas disciplinas.

Costa tem um prognóstico pessimista sobre uma eventual mudança no perfil ideológico das universidades brasileiras. “Como se quebra isso? Não se quebra. Na verdade, é um processo lento, porque, como o sistema é de garantias ad aeternum, os que estão entrando agora nos concursos federais vão garantir mais 20 ou 30 anos de ensino com a perspectiva de esquerda”, afirma.

Infográficos Gazeta do Povo[Clique para ampliar]