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Campus da PUC em Barueri (SP) | PUC-SP
Campus da PUC em Barueri (SP)| Foto: PUC-SP

Para cada aluno de faculdade particular que escolhe a instituição com base na qualidade do ensino, dois têm o preço como fator decisivo na decisão.

Segundo uma pesquisa feita com 22 mil estudantes e divulgada esta semana, quase 60% dos estudantes de faculdades particulares têm o valor da mensalidade como primordial na escolha da instituição.

O levantamento também identificou que a maioria dos estudantes que concluiu o ensino médio nunca se matriculou em uma universidade por entender que a mensalidade é mais cara do que ele pode pagar. 

A pesquisa foi feita pela Quero Educação, startup de São Paulo que ajuda estudantes a encontrarem opções de curso superior.

Segundo o levantamento, para 65,7% dos alunos brasileiros que nunca se matricularam em nenhuma faculdade privada, os valores praticados pelas instituições de ensino superior estão fora do orçamento. 

Outros 25% informam não terem conseguido bolsas de estudo ou entendem que o desconto ofertado é insuficiente. Para chegar a essa conclusão, a pesquisa consultou, por e-mail, 22 mil estudantes que utilizam o site para pesquisa. Em geral, informa o levantamento, são alunos jovens, que enxergam no diploma universitário a possibilidade de mais chances no mercado de trabalho, de um melhor salário e um trampolim para a carreira e também para a vida. 

"Não é que o aluno não queira investir [em um curso superior]. Ele quer, mas tem restrição orçamentária", explica André Narciso, diretor financeiro da Quero Educação. A percepção, explica, vem do contato diário com estudantes que procuram o site da startup para encontrar um curso que alie o interesse em uma carreira às possibilidades financeiras. "A grande sacada é que de um lado, tem muito aluno querendo estudar e, do outro, muita universidade com vaga ociosa", acrescenta Narciso – o estudo identificou também que a taxa média de ocupação das salas de aula das universidades particulares no país está em 61,3%. 

Ao ouvir alunos que trancaram matrícula ou abandonaram um curso superior,  a pesquisa também identificou que 57% deles apontaram os valores das mensalidades como motivo para a interrupção dos estudos. A pesquisa constatou que muitos estudantes estão desempregados ou trabalham mais de 40 horas semanais, o que dificulta a continuidade ou conciliação com a vida acadêmica. 

Ainda entre os que já se matricularam alguma vez em uma universidade particular, apenas 1% aponta a profissão em baixa no mercado de trabalho como motivo para abandonar o curso; 4% dizem trancar ou desistir das aulas pela qualidade insatisfatória das aulas ou dos professores, e 10% culpam a falta de identificação com o curso como causa do trancamento ou da desistência. 

Se de um lado, os alunos apontam os preços praticados pelas universidades privadas como um obstáculo para entrar ou permanecer nas salas de aula, as instituições acreditam que reduzir o valor das mensalidades não traria obrigatoriamente mais alunos para as vagas ociosas. "Elas entendem que [para atrair o estudante] precisam ter uma percepção de qualidade melhor", destaca o executivo. Para as universidades, salienta Narciso, o mais importante para trazer e reter estudantes é melhorar a percepção que eles têm da marca. Só então, na visão das IES, surge a questão dos preços praticados. 

Inflação 

Ainda que haja essa diferença de compreensão dos motivos que retiram alunos das salas de aulas em universidades particulares, para Narciso, as instituições estão percebendo que os preços praticados acabam por se tornar um impedimento. "Nossa percepção é que eles estão ouvindo [os alunos] e estão disponibilizando cada vez mais vagas", pondera. "Existe uma esperança [das universidades] de que vai ser possível aumentar o ticket, trazer o aluno mais caro, mas a verdade é que as pessoas estão sem dinheiro. Estamos em uma crise", completa, e acrescenta que as faculdades não estão conseguindo repassar a inflação para os alunos via mensalidades. 

De acordo com o estudo, a educação superior privada apresentou, no segundo semestre deste ano - período de abertura de vagas por meio dos vestibulares de inverno, no meio do ano - uma inflação 12 meses de 1,2% na modalidade presencial e 3,8% no ensino a distância (EAD). As variações estão abaixo dos cerca de 4% registrados pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) no período. 

Ainda segundo o levantamento, no cenário das captações de alunos em 2016, período de vestibulares de verão, no início do ano, os índices inflacionários em relação ao mesmo período do ano anterior também se apresentaram abaixo do INPC da época. Na avaliação da startup, a variação menor de 2017 indica que os efeitos da redução no Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) e da alta do desemprego ainda são percebidas no setor, "que segue fazendo ajustes para refletir a demanda mais fraca". 

Segundo a pesquisa, os cursos de Direito, Enfermagem e Administração ainda estão entre os mais procurados pelos alunos brasileiros em instituições particulares. “O que a gente viu é que nos últimos anos Engenharia Civil despencou [na preferência dos estudantes], junto com Arquitetura”, diz Narciso ao lembrar que, historicamente, os cursos apareciam entre os mais concorridos. “A crise bateu forte na indústria da construção civil e isso se refletiu nos cursos”, analisa. O que se reflete na busca por cursos; Narciso identifica que um setor em crise faz com que o aluno entenda que o mercado não oferece boas perspectivas e que a carreira deixa de ser promissora. 

“O que enxergo é que essas buscas de cursos caminham junto com a economia. As indústrias estão bem, tendem a alavancar os cursos relacionados. Se caem, isso [o interesse por uma área] acompanha também”. 

Realidade local 

No Paraná, a pesquisa identificou que 57,8% dos alunos escolhem a universidade pelo preço, e não necessariamente pela qualidade do ensino- apenas 24,2% veem a qualidade e a reputação como motivo para decidir por uma faculdade. 

Menos da metade dos estudantes paranaenses ouvidos pela pesquisa – 49,4% - informaram que pretende seguir carreira na área do curso, e 17,7% avaliam que um diploma de curso superior, independentemente da área de conhecimento, aumenta as chances no mercado de trabalho. Os cursos mais buscados no site da startup por estudantes paranaenses são Direito, Administração e Pedagogia. 

Além de estudantes consultados por email que aceitaram responder ao questionamento, para realizar a pesquisa, a Quero lança mão também de dados das mais de 1.200 universidades particulares com quem tem parceria. 

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