Ao estilo Mágico de Oz, peça  reforça a importância da diferença | Aniele Nascimento/Gazeta do Povo
Ao estilo Mágico de Oz, peça reforça a importância da diferença| Foto: Aniele Nascimento/Gazeta do Povo

Uma estrutura de madeira, espuma e TNT montada no meio do pátio é o suficiente para deixar três centenas de crianças extasiadas. São alunos do 1.º ao 5.º ano, que só precisam de alguns minutos depois que a peça começa para fixar sua atenção na trama que se desenrola no palco. Ao longo dos próximos 50 minutos, eles vão ouvir uma história divertida e, de lambuja, aprender a construir “um mundo para todo mundo”.

No palco, o menino Peter, de 10 anos, viaja entre planetas para cumprir a sua missão: construir um mundo “para todos”. Ao melhor estilo Dorothy, do Mágico de Oz, ele conta com a ajuda dos amigos para completar sua jornada. Oliver, o personagem cego, o ensina a olhar com o coração. O Rei Meritório, que não têm os dois braços, a “fazer”; o garoto surdo Giglio o ensina a ouvir; e Beni, que tem autismo, a pensar.

Emoção

Há três anos na estrada, o projeto “Um mundo para todo mundo” já viveu de tudo. Um dos momentos mais emocionantes, conta o ator Rafael Magaldi, foi quando uma aluna, que não tinha um braço, assistiu à chegada do Rei Meritório. “Se ele, que não tem os dois braços, pode ser rei, então eu posso ser qualquer coisa!”, disse a aluna à professora.

Em outro episódio, a plateia estava em um dia especialmente barulhento. Mas o silêncio foi quase instantâneo quando apareceu Oliver. Na hora, todos se voltaram para o casal de professores cegos que lecionam na escola. Ali perceberam que o teatro era para eles, sobre eles.

Na plateia, o silêncio é intercalado com risadas gerais e eventuais manifestações de um aluno do 2.º ano, autista, como Beni. Mas sua agitação em nenhum momento é motivo de gozo dos colegas ou preocupação dos professores. É que a Durival de Britto e Silva respeitar os alunos com deficiência já virou rotina. A escola municipal atende dentro da Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva, do Ministério da Educação (MEC), que prioriza a matrícula da estudantes com deficiência no ensino regular.

Entre 2008 e 2013, essa política já havia aumentado as matrículas destes alunos no ensino básico em 112% . A Durival de Britto, por exemplo, já atendeu autistas, cadeirantes, crianças com a síndrome de Kinsbourne (uma desordem neurológica rara, que provoca movimentos oculares arrítmicos e caóticos e irritabilidade) e até com a síndrome dos “ossos de vidro”. Este novo caráter inclusivo da escola é explicado aos pais, em reunião no início do ano. “A maior dificuldade de aceitação dos pais é com aqueles que têm transtorno de comportamento”, diz Anaí Rodrigues, diretora da Durival.

E as crianças? “São bem cooperativas, e o envolvimento delas é importante para quebrar os tabus”, conta a diretora. É aí que entra o teatro: para ensinar o respeito às diferenças já para os pequenos, antes que dê tempo de eles adquirirem preconceitos.

A dupla de atores Rafael Magaldi e Leandro Borgonha, da Ouroboros Produções, contou com o apoio da Universidade Livre para Eficiência Humana (Unilehu), instituição curitibana que trabalha com a inclusão no mercado. A petroleira ExxonMobil está patrocinando as 100 apresentações previstas para escolas municipais de Curitiba neste ano.

Curitiba atende mais de 1,6 mil em inclusão

Os alunos de inclusão escolar representam cerca de 1% da rede municipal de Curitiba. São 1.686 estudantes: 1.145 no fundamental, 325 no infantil e 216 no Ensino de Jovens e Adultos. Além disso, o município mantém três escolas de educação especial, que atendem 45 estudantes. São casos “muito específicos”, em que os alunos precisam de apoio especializado para desenvolver sua autonomia, explica explica Elda Bassi, da Coordenadoria de Atendimento às Necessidades Especiais (Cane).

Alunos que precisam de reforço antes de se integrarem ao ensino regular têm à disposição 99 classes especiais . O foco ali é em alfabetização, escrita e leitura. Não há nível de proficiência ou período fixo estabelecido. Mas a permanência nessas classes não deve ultrapassar dois anos. O próximo estágio são as salas de recurso que, em geral, atendem estudantes com transtornos na área de leitura, escrita (como a dislexia) e matemática (discalculia). E as de recurso multifuncional, que contam com recursos como tecnologia assistida e informática adaptada e recebem crianças com deficiência.

A rede conta ainda com um Centro Municipal de Atendimentos Especializados (CMAE) em cada uma das oito regionais, que atendem crianças com dificuldades no desenvolvimento encaminhadas pelas escolas. Nesses locais, há psicólogos, fonoaudiólogos, fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais.

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