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Mario Alencastre diz que é preciso superar a falta de diálogo entre campos de humanas e tecnológico. | Antônio More / Gazeta do Povo
Mario Alencastre diz que é preciso superar a falta de diálogo entre campos de humanas e tecnológico.| Foto: Antônio More / Gazeta do Povo
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Há projetos bons e ruins em qualquer área

Daniel Castellano / Gazeta do Povo

Mario Sanches defende rigor na análise de projetos e distribuição de bolsas.

Para o coordenador do curso de Bioética na PUCPR, professor Mario Antonio Sanches, a melhor divisão para se julgar a relevância de uma pesquisa não é por área, mas sim pela qualificação dos pesquisadores e viabilidade dos projetos. "Há pesquisas boas e ruins em todas as áreas", afirma. Por isso, o rigor na análise das propostas concorrentes a bolsas é fundamental para uma distribuição justa de recursos, defende Sanches.

Para ele, embora a definição de prioridades seja compreensível, se não houver análise cuidadosa dos projetos, corre-se o risco de aprovar projetos ruins voltados à tecnologia por excesso de bolsas disponíveis, enquanto boas propostas na área de humanas ficariam de fora. "Se um comitê de análise tem dinheiro para 400 projetos de engenharia, por exemplo, e só recebe 300 propostas, pode haver desperdício de recursos se não houver critérios sérios de avaliação", diz.

A análise de Sanches coincide com a opinião do pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação da UEPG, professor Benjamim de Melo Carvalho, que leciona no Departamento de Engenharia de Materiais. Para ele, a disputa por recursos que ocorre entre diferentes áreas do conhecimento teria origem no baixo investimento que o país faz em pesquisa. "É preciso ter um volume de recursos que permita apoiar toda boa pesquisa, seja de qualquer área, seja básica ou aplicada", defende.

Segregação entre áreas preocupa pesquisadores

Pertencente a uma área frequentemente apontada como estratégica por políticas de fomento à pesquisa, o doutor em Meio Ambiente e Desenvolvimento Mario Alencastro, professor do Centro Universitário Uninter, reconhece como legítima a importância dada às áreas relacionadas ao desenvolvimento científico e tecnológico, mas realça a necessidade de uma aproximação entre os campos de humanas e tecnológico para superar a ausência de diálogo entre eles. "Defendo critérios para o financiamento de pesquisas que contemplem ambas as áreas, pois isso contribui para a eliminação do abismo que se consolidou entre a cultura humanista e a cultura científico-tecnológica."

Sobre o fato de as ciências humanas não produzirem bens concretos à sociedade, o professor da UEPG e doutor em Educação Jefferson Mainardes diz que o argumento não pode ser usado para justificar um possível menosprezo dessas áreas na distribuição dos recursos. Muitos estudos na área de humanas, diz ele, produzem "bens" de outra natureza, com grande potencial para o progresso do país, como a inovação nas metodologias educacionais. Ele afirma que o potencial das ciências humanas para o crescimento nacional varia conforme a visão de desenvolvimento econômico e social de quem julga.

Outro exemplo prático na aplicação de resultados nas humanas é dado pelo professor Mario Antonio Sanches, coordenador do curso de Bioética da PUCPR. "A segurança pública é um dos maiores problemas do país e isso não é uma questão que cabe às engenharias solucionar, não depende do lançamento de um produto, mas de uma série de fatores humanos estudados por áreas como as ciências sociais", diz.

Embora o Estado financie estudos de diversas áreas, a distribuição das bolsas de auxílio para a pesquisa de ponta deixa claras as prioridades do país. Áreas diretamente vinculadas ao crescimento econômico, infraestrutura e saúde chegam a receber quase o triplo do volume de bolsas para doutorado quando comparadas às áreas de humanidades -- ciências sociais aplicadas, linguística e humanas. Pesquisadores das áreas menos privilegiadas dizem compreender a necessidade de definir prioridades, mas alertam para o risco de marginalização dos campos que não produzem bens concretos.

Dados sobre a distribuição de bolsas da Capes e do CNPq, as principais agências de fomento à pesquisa no país, mostram que praticamente todas as áreas do conhecimento recebem recursos, principalmente no nível de mestrado, mas quando analisadas as bolsas destinadas a doutorados e pós-doutorados, a diferença fica evidente.

Cursos vinculados às ciências agrárias, como Agronomia e Engenharia Agrícola, receberam da Capes, em 2012, 4.234 bolsas para a formação de doutores e 695 bolsas para pós-doutorados. No mesmo ano, que tem os dados mais recentes, cursos da área de linguística, letras e artes ficaram com 1.463 auxílios de doutorado e 68 de pós-doutorado.

Pesquisas com resultados de aplicação mais prática também levam vantagem na concorrência por bolsas do CNPq. Enquanto a categoria de engenharias e computação foi contemplada com recursos para formar 1.601 doutores, cursos das ciências sociais aplicadas, como Administração, Direito e Comunicação, dispuseram de 320 bolsas em 2013.

O governo federal justifica a desigualdade afirmando que dá prioridade às áreas em que há carência de profissionais no país e não abre mão de manter essa tendência. Um sinal disso é o foco dado ao programa Ciência sem Fronteiras, que não abrange cursos das ciências sociais e humanas na disputa de bolsas de estudo no exterior. A exclusão dessas áreas motivou inclusive ação na justiça. No auge da polêmica, entre 2012 e 2013, o então ministro da Educação Aloísio Mercadante afirmava que o déficit do Brasil não estaria nas humanidades, por isso a prioridade foi dada a engenharias e cursos ligados à saúde.

No Paraná, a Secretaria de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior também trabalha com áreas prioritárias. As diretrizes do órgão deixam claro que os recursos do Fundo Paraná destinados à pesquisa devem ser usados exclusivamente para o desenvolvimento da competitividade científica e tecnológica do estado. Entre as 12 áreas prioritárias estão indústria alimentar, biotecnologia, energias renováveis e mobilidade.

Hora de decidir quem leva (ou não) a bolsa

Aniele Nascimento / Gazeta do Povo

Para Sueli Fusero, o pesquisador deve ter um currículo acadêmico forte e proposta de estudo relevante para conseguir uma bolsa.

A doutora em Educação Sueli Édi Rufini Fusero é avaliadora de projetos que concorrem bolsas de auxílio à pesquisa pelo CNPq e pela Fundação Araucária. Ela explica que os critérios de análise variam bastante, dependendo do edital que anuncia a disponibilidade de bolsas, mas alguns quesitos valem para todas as áreas. "Sempre se leva em conta a experiência do pesquisador, os resultados trazidos por outros projetos financiados, o volume de publicações ou se já obteve alguma patente", diz.

Sobre o projeto em si, algo fundamental é delinear bem o problema ao qual o candidato propõe uma resposta. Ela dá exemplos de algumas questões comumente consideradas pelos avaliadores na hora de darem um parecer. "Para aquela área de conhecimento, esse estudo vai representar um passo à frente? O problema levantado tem relevância econômica e social? Está claro o que o pesquisador está buscando?"

Sueli diz estar acostumada às discussões sobre a relevância de cada pesquisa e lembra que, algumas vezes, há preconceito com relação às áreas que não produzem resultados aplicáveis. A própria definição de prioridades por parte dos governos nem sempre é determinada apenas pela identificação da carência de profissionais, mas também pesam forças políticas e diferentes visões estratégicas do que é mais importante no momento.

Tome nota

Aos jovens pesquisadores que almejam obter uma bolsa de auxílio à pesquisa, a professora Sueli Fusero sugere alguns passos a serem seguidos:

>>> Se sua produção científica é inexistente ou pequena, as chances de obter uma bolsa de pesquisa individual são pequenas, já que competirá com pesquisadores mais experientes. Portanto, é recomendável unir-se a um grupo coordenado por um pesquisador com mais reconhecimento. Dentro desses grupos, há a oportunidade de contribuir com publicações científicas assinadas em conjunto, o que aumenta, gradualmente, o potencial do candidato para disputas futuras.

>>> Preocupe-se em ampliar a rede de pesquisadores com os quais colabora, pois é desses contatos que surgem chances de participar de novos artigos e projetos. Lembre-se: aumento de produção científica significa mais prestígio junto às agências de fomento.

>>> Contribuir para a formação de recursos humanos é algo bem visto pelos avaliadores, então, sempre que possível, atenda aos pedidos para orientar monografias e dissertações. Se o trabalho do orientando for bem-sucedido, sendo publicado em revistas científicas importantes, por exemplo, o orientador também ganha reconhecimento.

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