Projetos apostam em velocidade na categoria Fórmula e em resistência na disputa Baja (foto). | Divulgação / SAE Brasil
Projetos apostam em velocidade na categoria Fórmula e em resistência na disputa Baja (foto).| Foto: Divulgação / SAE Brasil

Relato Criar carro de corrida a partir do zero leva cerca de um ano

Felipe Fantelli, estudante do 4º ano de Engenharia Mecânica da Unicamp e integrante da equipe Unicamp E-Racing, na modalidade Fórmula.

"Participamos da competição americana de Fórmula Elétrico em junho, nos Estados Unidos, pois vencemos a prova brasileira de 2012. Fomos campeões com a maior pontuação da história das competições de Fórmula SAE: 985 pontos entre mil. Foi uma satisfação imensa ganhar lá fora e isso deu grande motivação para continuarmos.

O carro leva aproximadamente um ano para ficar pronto – da fase de projeto, que geralmente começa em janeiro, até o final da construção. Atualmente, nossa equipe tem 29 membros da graduação, mestrado e doutorado das Engenharias Elétrica e Mecânica, Computação e Física.

Com os projetos, vemos na prática como é trabalhar em equipe e com pessoas de áreas diferentes, pois precisamos fazer uma integração muito grande entre a parte elétrica e a mecânica no carro. Temos também que gerenciar a construção, lidando com patrocinadores, direcionando recursos e trabalhando com prazos e orçamentos apertados.

Não é incomum passarmos muitas madrugadas na oficina. Nós podemos aplicar a teoria ensinada em sala de aula e aprender coisas que não são vistas na faculdade. Isso forma uma pessoa com maior autonomia para entender novos assuntos e toda a experiência acaba sendo valorizada no currículo profissional."

Desafios

Veículos devem ser capazes de passar por testes que vão além da prova de velocidade. Conheça as modalidades das competições SAE no Brasil:

Baja

A prova mais tradicional ocorre há cerca de 40 anos nos Estados Unidos e chegou ao Brasil em 1995. Na competição, estudantes devem projetar e construir protótipos de veículos off-road conforme especificações de segurança, controle, aceleração, frenagem e potência. Os carros devem ser capazes de transportar pessoas com até 1,90 metro e 113,4 quilos. Equipes da Unioeste, UTFPR, UFPR e Faculdade Assis Gurgacz costumam participar das provas.

Aerodesign

Criada em 1999, a prova parte de conceitos de Engenharia Aeronáutica e propõe aos estudantes a construção de aeronaves. Os aviões têm escala reduzida e devem demonstrar capacidade de vôo controlado e de carga útil. Neste ano, a competição bateu recorde de inscrições, com 1,4 mil alunos de 105 equipes do Brasil, México, Venezuela e Peru. Do Paraná, participaram times da UTFPR, UFPR e Faculdade Assis Gurgacz.

Fórmula

Reúne estudantes de graduação e pós-graduação que constroem carros do tipo Fórmula, a combustão e elétricos, com motores alimentados a partir de baterias de até 600 volts. A competição ocorre em cinco países: Austrália, Estados Unidos, Inglaterra, Itália e Brasil.

Demoiselle

Criada em 2013 para atrair os jovens do ensino médio. Para a prova, os estudantes projetam aviões monoplanos movidos pela torção de um elástico e são avaliados por juízes da indústria aeronáutica. Na primeira edição, não houve participantes do Paraná.

Novidade

Está para ser lançada a modalidade Asas Rotativas, voltada para o projeto de helicópteros.

Desde 1905

A SAE é uma associação sem fins lucrativos, que reúne os chamados "engenheiros da mobilidade". Foi criada em 1905, nos Estados Unidos, por líderes da indústria automotiva, como Henry Ford. A primeira competição Baja SAE ocorreu em 1976. A Sae Brasil foi criada em 1991 e as competições começaram quatro anos depois. Vencedores das provas no Brasil são convidados a concorrer nas etapas internacionais, nos Estados Unidos. Mais informações no site www.saebrasil.org.br.

Na lama, na pista ou no céu, estudantes de Engenharia de todo o país têm experimentado a árdua tarefa de construir máquinas que correm, voam ou passam por obstáculos de trajetos off-road. A experiência é vivenciada pela turma que se aventura nas competições SAE, desafios que levam universitários a se organizarem em equipes e a botarem a mão na massa.

Não se trata apenas de juntar peças e fazer veículos se moverem. Quem entra na brincadeira tem de ir em busca de espaço para a oficina e patrocínio para peças, maquinário e custos de viagem para participar das provas. Aqueles que conseguem mais dinheiro e apoio da universidade até conseguem ficar em hotéis, mas também há grupos dispostos a se acomodar em barracas. E é nos acampamentos que a diversidade do Brasil acaba estampada – com redes penduradas nas árvores e rodas de chimarrão.

Algumas instituições nem se envolvem com o projeto, outras cedem espaço, verbas e propaganda para as equipes e até incluem a competição como projeto de extensão. Entretanto, segundo as regras, do lançamento anual do edital até o dia da competição, o trabalho deve ser feito pelos alunos, sem nem mesmo a intervenção do professor orientador nos projetos.

Network

O empenho é recompensado de várias maneiras. Como a competição não é acompanhada de rivalidade, é forte o network nos dias de prova. Segundo o diretor de Simpósios e Programas Estudantis da SAE Brasil Robson Galvão, é comum que empresas fiquem de olho no potencial dos estudantes. Cerca de mil voluntários – todos profissionais da Engenharia – participam da organização dos eventos (confira box sobre as provas).

Desde o ano passado, os universitários passaram a ter mais uma tarefa. Para despertar o interesse pela área de Exatas, as equipes devem visitar ao menos duas instituições de ensino médio para divulgar a competição entre os adolescentes. "O Brasil precisa de engenheiros e queremos motivar lá na base. Para isso, temos a competição Demoiselle, que é não motorizada", conta Galvão.

Equipe encara duas disputas diferentes

A equipe Imperador, formada por alunos da UTFPR, costuma estar focada em dois projetos paralelos para as competições SAE. Um para a modalidade Baja e outro para a Fórmula. Enquanto o carro desenvolvido para a primeira disputa tem motor fraquinho e precisa de resistência para enfrentar provas off-road, o projeto do segundo aposta na velocidade. "Somos a única equipe no Brasil que trabalha com os dois carros diferentes. Resolvemos os dois ao mesmo tempo, não tem divisão e todo mundo atua nos dois projetos", afirma o estudante do 4.º período de Engenharia Mecânica Guilherme Suguinoshita.

Com cinco anos de existência, a Imperador conta hoje com 22 integrantes dos cursos de Engenharia e Design. As atividades no laboratório da universidade são mais intensas nos fins de semana e feriados. "É uma experiência única, em que se superam pequenos desafios a cada dia: interagir com pessoas e assuntos de diversas áreas; colocar a teoria em prática; conciliar família, aulas e trabalhos; e desenvolver senso de administração, inovação e empreendedorismo", conta Suguinoshita.

O professor orientador da equipe, Maro Rogér Guérios, defende que o envolvimento com a competição concede aos estudantes uma experiência rara no país. "O conhecimento de sala é a base genérica para as soluções de Engenharia. Pelas competições, a turma explora um campo específico com conteúdos que jamais teriam sido tratados dentro da graduação", diz.

Guérios conta que a UTFPR ajuda os alunos com disponibilidade de espaço e algum custo de viagem ou material, mas estima que o projeto gire em torno de R$ 100 mil, valor que cabe aos alunos viabilizar.

Ex-competidor vira orientador de alunos da UTFPR

Quando três alunos da UTFPR de Ponta Grossa ouviram falar das competições SAE, procuraram um orientador para a competição Aerodesign. Tiveram a sorte de encontrar o professor Laércio Javarez Junior. Doutor pela Universidade de São Paulo (USP) em Projeto de Ultraprecisão e com seis anos de experiência na indústria, o professor tem no currículo as competições de que participou na época de faculdade.

Como parte do primeiro ano de trabalho, os nove integrantes da equipe UTFalcon fizeram pesquisas de campo no aeroclube de Ponta Grossa e estão empenhados para escrever artigos sobre a experiência. "Também fomos atrás de várias equipes que já estavam competindo, de Curitiba e de São Paulo, e fizemos o levantamento do que era bom e do que tinham errado. A organização da competição incentiva essa troca entre as equipes. A interatividade conta pontos", explica Javarez.

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