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A campanha de Flávio Bolsonaro (PL) passou a trabalhar para conter os efeitos políticos de uma informação falsa que associou o candidato à Presidência à suposta intenção de retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. Mesmo depois de o boato ter sido desmentido, de a GloboNews ter feito uma correção e de o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) determinar a remoção das publicações que tratavam a informação como verdadeira, a narrativa continuou a circular nas redes sociais e passou a ser explorada na disputa eleitoral.
A reação da campanha ganhou uma nova ação neste sábado (26), quando Flávio realizou uma live com pessoas ligadas a diferentes movimentos e tradições religiosas. Entre os convidados estavam Padre Kelmon, que disputou a Presidência da República em 2022, o pastor Ramon Lima, o reverendo anglicano Aldo Quintão e Sérgio Pina, pai de santo ligado à cantora Anitta.
A escolha dos convidados ocorre em meio à tentativa da campanha de reforçar a defesa da liberdade religiosa e responder à narrativa que colocou o candidato no centro de uma controvérsia envolvendo a devoção católica. A transmissão também amplia o discurso para além da relação de Flávio com o eleitorado evangélico, reunindo representantes de diferentes tradições religiosas.
Ao mesmo tempo, a reação à decisão judicial ganhou uma segunda frente de ataques a Flávio nas redes sociais. Perfis ligados à esquerda passaram a impulsionar no X a expressão “católicos censurados”, em referência à determinação do ministro André Mendonça para que plataformas removam publicações que apresentem como verdadeira a informação de que Flávio pretende retirar o título de Nossa Senhora Aparecida.
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Desinformação foi impulsionada por emissora de TV
A origem da crise foi uma informação falsa que vinculou Flávio a um projeto para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. O projeto citado nas redes, porém, não é de autoria do candidato e foi apresentado em 2007 pelo então deputado federal Professor Victório Galli. A proposta foi arquivada pela Câmara dos Deputados em 2008.
A associação entre o candidato e o projeto ganhou força depois de um comentário feito pela jornalista Maria Cristina Fernandes durante o programa Em Pauta, da GloboNews. A emissora posteriormente corrigiu a informação e pediu desculpas, esclarecendo que o projeto mencionado havia sido apresentado e arquivado quase duas décadas antes.
Flávio reagiu imediatamente nas redes sociais e negou qualquer intenção de retirar o título da santa. A campanha, posteriormente, levou o caso à Justiça Eleitoral.
O problema para a equipe do candidato é que a correção não encerrou a circulação da narrativa. Segundo levantamento da empresa Palver divulgado pela Folha de S. Paulo, cerca de 37% das mensagens analisadas sobre o assunto tratavam a informação falsa como verdadeira. O pico de circulação ocorreu na sexta-feira (25), com 735 menções ao tema a cada 100 mil mensagens nas redes sociais.
Políticos da esquerda ajudaram a manter boato em circulação
Mesmo depois de a GloboNews reconhecer o erro e de Flávio Bolsonaro negar qualquer relação com o projeto de lei que deu origem ao boato, políticos continuaram a repercutir a associação entre o candidato e uma suposta tentativa de retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil.
Um levantamento feito pela Brandwatch, ferramenta de monitoramento de redes sociais, identificou os políticos que mais contribuíram para o engajamento em torno do assunto. A deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) aparece em primeiro lugar. Em uma publicação que ultrapassou 40 mil curtidas no X, ela reconheceu que o projeto citado nas redes era de 2007 e havia sido arquivado, mas levantou a possibilidade de que a proposta pudesse voltar ao debate caso Flávio ou seus aliados chegassem ao poder.
Na sequência aparece o vereador Alessandro Guedes (PT-SP), seguido pelo deputado federal Ivan Valente (PSOL-SP). Valente publicou que Flávio teria proposto retirar de Nossa Senhora o título de Padroeira do Brasil e questionou, na mesma publicação, a negativa apresentada pelo candidato. O post soma mais de 12 mil visualizações no X.
A primeira-dama Janja publicou uma fotografia de Lula segurando uma imagem de Nossa Senhora Aparecida durante a repercussão da crise. O vice-presidente Geraldo Alckmin também se manifestou sobre o tema, afirmando que enquanto ele e Lula estiverem governando este país, “as tradições religiosas, tão sagradas para nossas famílias, estarão protegidas e preservadas”.

O levantamento reúne ainda nomes como Alencar Santana (PT-SP), Pedro Rousseff (vereador em Minas Gerais), Jandira Feghali (PCdoB-RJ), Anielle Franco (PT-RJ), Maurici (PT-SP), Rick Azevedo (vereador no Rio de Janeiro), Divaneide (PT-RN), Leleco Pimentel (PT-MG), Tadeu Veneri (PT-PR), Lohanna (PV-MG), Chico Alencar (PSOL-RJ), Padre João (PT-MG), Tarcísio Motta (PSOL-RJ), Miguel Rossetto (PT-RS), Andreia de Jesus (PT-MG), Chico Vigilante (PT-DF) e Jorge Solla (PT-BA).
Servidor da Secom também repercutiu a fake news e compartilha críticas à decisão de Mendonça
Um integrante da estrutura de comunicação do governo Lula também ajudou a repercutir a falsa informação. George Marques da Silva e Silva, coordenador-geral de Estratégia e Informação da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom), republicou ao menos dez mensagens sobre o assunto na sexta-feira (25), segundo levantamento do Poder360.
As publicações apresentavam como verdadeira a informação de que Flávio pretendia retirar o título da santa. Entre os conteúdos compartilhados havia mensagens sobre uma suposta perseguição à Igreja Católica e críticas à reação do candidato à circulação do boato. Depois que o ministro André Mendonça, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), determinou a retirada dos conteúdos das plataformas, Marques também republicou críticas à decisão judicial.
A campanha de Flávio incluiu a atuação do servidor no levantamento apresentado ao Ministério Público Eleitoral. Segundo os dados reunidos pela defesa, até então haviam sido identificadas 2.086 publicações sobre a narrativa falsa, distribuídas por 1.674 contas, com mais de 21 milhões de visualizações em X, Facebook, Instagram, TikTok e YouTube. Uma ata notarial digital anexada ao procedimento registra quatro republicações feitas por Marques no mesmo dia; o Poder360 identificou dez.
Questionado pelo Poder360, Marques afirmou manter um perfil pessoal voltado a “política e humor” e disse não se lembrar de ter feito as republicações. Segundo ele, caso tenham ocorrido, teriam sido resultado de um “erro involuntário” ao compartilhar publicações em sequência. O servidor também afirmou que republicar um conteúdo não significa necessariamente concordar com seu teor.
A Secom, por sua vez, procurou separar a atuação do servidor da comunicação oficial do governo. Em nota, afirmou que a manifestação ocorreu em perfil pessoal e “não representa a posição da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República”. A pasta, entretanto, classificou como “inadequado” o uso de contas pessoais de integrantes da secretaria de maneira que possa gerar confusão com manifestações institucionais e afirmou que sua comunicação oficial segue a legislação eleitoral e as decisões da Justiça.
Live reúne diferentes tradições religiosas na tentativa de conter crise
A transmissão feita pela campanha de Flávio neste sábado contou com nomes que representam tradições religiosas distintas.
Padre Kelmon, que disputou a Presidência em 2022 e atualmente é candidato a deputado federal pelo PL em São Paulo, participou da live. Também estiveram presentes o pastor Ramon Lima e o reverendo anglicano Aldo Quintão.
Outro convidado foi Sérgio Pina, religioso de matriz africana conhecido por manter relação com a cantora Anitta. Pina já havia participado de atos públicos ao lado de integrantes da família Bolsonaro, em uma demonstração de aproximação do grupo político com representantes de religiões de matriz africana. Ele é candidato a deputado federal no Rio de Janeiro e apoia Flávio Bolsonaro em publicações nas redes sociais.
A composição da live tem um significado político diante da crise. A acusação contra Flávio foi construída em torno de uma suposta ameaça à devoção católica. Ao colocar lado a lado representantes de diferentes tradições religiosas, a campanha procura apresentar o candidato como alguém que defende a liberdade de culto e o respeito às diferentes manifestações de fé.
“Católicos censurados” vira assunto no X
Enquanto a campanha tenta reconstruir a narrativa, a decisão de Mendonça passou a ser explorada por adversários políticos de Flávio.
No X, perfis ligados à esquerda fizeram com que “católicos censurados” aparecesse entre os assuntos do momento. As publicações relacionam a ordem do TSE à tentativa de Flávio de retirar do ar conteúdos que associam seu nome à suposta retirada do título de Padroeira do Brasil.
Uma das mensagens que circulam diz: “Vamos continuar defendendo Nossa Senhora Aparecida SIM! Flávio Bolsonaro acha que vai nos calar e nos intimidar com assédio judicial? Colocando CENSURA PRÉVIA contra conteúdo religioso católico? JAMAIS! CATÓLICOS CENSURADOS”.
A expressão passou a funcionar como uma resposta política à decisão judicial. A argumentação dos perfis é que a retirada das publicações representaria censura a manifestações religiosas.
A decisão de Mendonça, porém, não determinou a retirada de qualquer manifestação religiosa ou de críticas a Flávio. O ministro determinou a remoção de conteúdos que apresentassem como verdadeira a informação falsa sobre uma suposta proposta do candidato para retirar o título de Nossa Senhora Aparecida.
A própria decisão estabeleceu ressalvas para conteúdos jornalísticos sobre o episódio, publicações destinadas a desmentir a informação, críticas, sátiras e debates políticos ou religiosos que não apresentassem a falsa acusação como verdadeira.



