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Corrida presidencial

Como proposta de Aécio Neves a Ciro pode impactar aliança com PL no Ceará após disputa com Michelle

Ciro Gomes articula aliança com o PL no Ceará.
Ciro Gomes foi candidato a presidente em quatro eleições. (Foto: EFE/ Fernando Bizerra)

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Após quase gerar uma ruptura e provocar uma disputa no seio da família Bolsonaro, Ciro Gomes (PSDB) pode desistir da aliança firmada com o PL na corrida ao governo do Ceará, onde figura como principal opositor à continuidade do PT no comando do estado. Ao invés disso, ele pode lançar-se candidato à Presidência da República pela quinta vez — com pretensões de roubar votos tanto do principal pré-candidato da oposição, o senador Flávio Bolsonaro (PL), quanto do presidente Lula (PT), que deve buscar mais uma reeleição.

A ameaça de reviravolta tornou-se pública durante evento da diminuta bancada do PSDB na Câmara dos Deputados, hoje com 14 tucanos. O presidente nacional da legenda, o deputado federal Aécio Neves (PSDB), confirmou o convite, costurado anteriormente nos bastidores, durante a abertura da reunião anual da sigla. "Conversei hoje longamente com o Ciro Gomes, com o Marconi Perillo [ex-presidente tucano e pré-candidato ao governo em Goiás], com os nossos outros candidatos a governadores, e eu estou estimulando o companheiro Ciro a se colocar como uma alternativa para o Brasil", disse Aécio a jornalistas antes da reunião.

Filiado ao PSDB desde outubro do ano passado após deixar o PDT, Ciro foi um dos fundadores do PSDB em 1988 e o primeiro governador eleito pela legenda, em 1990. "Não encontro hoje um quadro político nacional com tantas qualificações, tão atualizado em relação à realidade brasileira e com tanta contribuição a dar ao Brasil”, declarou Aécio. "Uma convocação como essa que me foi feita agora não pode ser considerada apenas um agrado ao meu já sofrido coração”, respondeu Ciro ao parlamentar mineiro.

Segundo o pré-candidato tucano ao governo cearense, a convocação deve ser “amadurecida” antes da decisão, apesar dele dar sinais de preferência pela disputa estadual. "Eu só não descarto imediatamente esse honroso convite por uma circunstância, aquilo que o presidente Aécio falou: nosso país está vivendo talvez um dos piores momentos da sua história moderna. Um terço das empresas brasileiras está na antessala da falência.”

De quebra, Ciro Gomes ainda colocou em xeque a aliança fechada com Valdemar Costa Neto, presidente nacional do PL, para apoiá-lo na eleição estadual. O tucano disse que a aliança com o PL estava “suspensa”, e preferiu não comentar o assunto para evitar “problemas”.

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Aceno presidencial deve gerar novo atrito entre Ciro Gomes e PL

O novo entrave acontece duas semanas depois de Ciro Gomes conquistar o apoio do pré-candidato do PL à Presidência da República, Flávio Bolsonaro. O acerto havia ocorrido no começo de abril, durante reunião em Brasília que contou com a presença de Costa Neto, de Flávio e de dirigentes do PL cearense.

O arranjo vai na contramão do que defendia a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL). Desde o ano passado, integrantes da sigla apostam em uma composição com o tucano para derrotar o governador cearense Elmano de Freitas (PT), que tentará a reeleição. A aproximação com Ciro, no entanto, irritou Michelle, o que deflagrou uma crise no PL.

“Ciro Gomes não é e nunca será de direita. Sempre será um perseguidor e um maledicente contra o Bolsonaro”, disse a ex-primeira-dama em novembro do ano passado. Com o mal-estar, o apoio ainda não foi oficializado, mas estava decidido pela cúpula partidária. Agora, a incerteza da candidatura de Ciro pode dar razão a Michelle, que não queria a aliança desde o início e apoia para o governo do Ceará o nome do senador Eduardo Girão (Novo).

Se confirmada, a candidatura presidencial de Ciro Gomes deixaria Flávio sem um palanque forte no Ceará, um dos motivos do apoio selado pelo PL à candidatura dele a governador. 

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Tucanos admitem “balão de ensaio” para medir potencial de alternativa eleitoral

Apesar da confusão com o PL, o projeto “Aeciro” animou correligionários tucanos em diretórios país afora. Um dirigente tucano em São Paulo afirmou à Gazeta do Povo que, apesar de ser mesmo um “balão de ensaio”, uma chapa presidencial encabeçada por Ciro Gomes no PSDB teria espaço para crescer entre o presidente Lula e Flávio Bolsonaro.

Para sustentar o raciocínio, o dirigente chama atenção para um dado da última pesquisa Genial/Quaest sobre as intenções de voto para presidente neste ano: 40% dos eleitores que declararam voto em Flávio Bolsonaro e 35% dos que declararam voto em Lula admitem mudar de opção até o dia da eleição. Com um perfil mais centrista e historicamente ligado à esquerda do que Caiado — e nos últimos anos com claro pendor para a direita — Ciro Gomes seria o nome ideal para capturar esse voto que ainda não é fiel aos dois principais candidatos até o momento, na avaliação da cúpula do PSDB.

Faltam as pesquisas eleitorais confirmarem a hipótese de potencial de crescimento, e uma decisão definitiva deve vir apenas após as primeiras sondagens com o nome do tucano de volta ao ninho. "A proposta de Aécio Neves para que Ciro Gomes dispute a Presidência não parte de uma força nacional consolidada de Ciro, mas de uma tentativa de produzir essa força”, afirmou à Gazeta do Povo o economista, professor e estrategista político Luis Carlos Burbano Zambrano.

"Em um cenário já estruturado pela polarização entre Lula e o campo da direita ligada a Bolsonaro, a jogada sinaliza mais a necessidade do PSDB de recuperar protagonismo do que uma real viabilidade imediata de ruptura desse eixo”, completou. 

Metodologia da pesquisa: A Quaest entrevistou 2.004 pessoas entre os dias 9 e 13 de abril. A pesquisa foi contratada pelo Banco Genial S.A. A margem de erro é de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos. O nível de confiança é de 95%. Registro no TSE nº BR-09285/2026. 

Movimento projeta PSDB no cenário nacional e fortalece Ciro no estado do Ceará

Segundo Zambrano, a posição de Aécio Neves trata-se de uma intervenção estratégica para reposicionar o partido no debate nacional. No plano estadual do Ceará, o efeito é mais direto e concreto. "A simples projeção de Ciro como presidenciável reforça sua centralidade local, eleva seu peso político e amplia seu poder de negociação frente a aliados e adversários”, avaliou o professor.

Mesmo que a candidatura nacional não se materialize, o movimento já cumpre a função de fortalecê-lo como principal ator da disputa estadual, tensionando o campo oposicionista e desorganizando adversários. "Em síntese, a jogada opera em duas camadas simultâneas. Nacionalmente, busca reconstruir relevância para o PSDB em um cenário de baixa competitividade fora da polarização. Regionalmente, funciona como instrumento de valorização política de Ciro, aumentando sua capacidade de liderança e influência”, afirmou o estrategista político.

"O resultado final é menos a construção imediata de uma candidatura presidencial viável e mais a ampliação do seu protagonismo como ator estratégico em 2026”, acrescentou.

Ele lembrou que o PSDB se encontra em uma posição claramente rebaixada no sistema partidário, tendo perdido densidade eleitoral e protagonismo nacional desde a ascensão de Jair Bolsonaro, nas eleições de 2018, aproximando-se de uma condição quase residual frente aos polos dominantes. "Nesse contexto, a movimentação deve ser compreendida como uma tentativa deliberada de criar um fato político capaz de reposicionar o partido no debate público”, analisou o especialista.

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