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A exploração de vacilos e gafes dos candidatos por seus opositores é natural e histórica nas campanhas presidenciais. No caso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), os episódios têm se avolumado e preocupado seu entorno, que já tenta limitar os discursos de improviso. A tarefa, contudo, é considerada, por esses mesmos interlocutores, ingrata, dada a experiência e liderança do petista.
Analistas ouvidos pela Gazeta do Povo alertam para o aumento dos episódios que afetam a credibilidade da comunicação do petista, além da preocupação com o desgaste físico diante do ritmo exigido pela campanha. Em menos de uma semana, a lista de deslizes do presidente chamou a atenção.
Só a sabatina na TV Globo, no fim de agosto, produziu — além do uso de informações e dados questionáveis, posteriormente rebatidos pela imprensa — três momentos que repercutiram pela inabilidade e falta de empatia do presidente.
O maior constrangimento se deu ao responder a uma pergunta sobre ajuste fiscal, quando Lula tentou ensinar a apresentadora Renata Vasconcellos a fazer a entrevista. Ela questionava o crescimento da dívida pública e cobrava as metas fiscais de um eventual quarto mandato. Lula contestou a forma como a pergunta havia sido formulada.
“Renata, eu pensei que uma jornalista da tua qualidade, da tua competência, pudesse começar essa pergunta falando diferente. Você poderia dizer: ‘presidente Lula, o senhor foi o único presidente na história do Brasil que fez superávit primário durante oito anos do seu primeiro mandato’”, disse ele.
A reação foi interpretada por jornalistas e comentaristas, além de aliados nas redes sociais, como um episódio de mansplaining, termo usado para descrever quando um homem explica a uma mulher algo que ela já domina, partindo da premissa de que sabe mais sobre o assunto. A crítica a esse tipo de atitude é recorrente, sobretudo entre comentaristas e perfis ligados à esquerda.
Sabatina de Lula foi marcada por incômodo e contradição sobre Luchsinger
Outros deslizes de Lula se deram sobre o tema da corrupção. Depois de ser pressionado sobre as investigações envolvendo seu filho, Fábio Luís Lula da Silva, as fraudes no INSS e a lobista Roberta Luchsinger, Lula deixou transparecer o incômodo. “Eu acho que é a hora de falar [sobre outros assuntos] porque estava parecendo que eu estava no Ministério Público”, afirmou.
Antes disso, ao ser questionado a respeito de Luchsinger, Lula afirmou que não conhecia a empresária. “Não conheço essa moça, nunca vi essa moça na vida, nunca conversei com essa moça, ela nunca esteve próxima de mim”, disse.
A declaração, porém, não resistiu à circulação de registros publicados pela própria Luchsinger nas redes sociais e repostados, durante a entrevista, pelo candidato Flávio Bolsonaro (PL) e aliados. Ao menos três fotografias mostram Lula ao lado dela em ocasiões distintas, em 2022.
“Foi um erro primário. Um deputado de primeiro mandato não cometeria esse erro”, diz o cientista político Leonardo Barreto, da Think Policy. Segundo ele, seria previsível a existência de fotos com a lobista.
“O Lula está sinalizando a incapacidade mesmo de enfrentar essa eleição. Quando ele vai para ambientes abertos, fica muito claro que ele não tem mais a capacidade mental de antes. E aí isso vai gerando temor dentro dos próprios apoiadores.”
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Gafes incluem Janja e Marisa
Dias depois, Lula cometeu uma gafe que já se tornou recorrente. Ao falar de improviso em Belo Horizonte, em 29 de agosto, o presidente confundiu a atual primeira-dama com a falecida esposa Marisa Letícia.
“Perdi a Janja depois de 45 anos de casado”, disse. Diante das reações, corrigiu-se. Lula já havia chamado Janja de Marisa em um evento em fevereiro deste ano.
A declaração que ganhou maior repercussão pelo adversário do PL veio de outro trecho do mesmo discurso. Ao falar sobre desigualdade e educação, Lula afirmou que a profissão de quem recolhe lixo é “muito pobre” e que “não é uma profissão que dá orgulho”. “O cara tem orgulho de falar: eu sou engenheiro, eu sou médico. Mas lixeiro é uma coisa pobre de quem não pode estudar”, disse.
Na sequência, o presidente tentou explicar que o problema estava na falta de reconhecimento da atividade e ressaltou a importância do trabalho dos garis. Mas a fala foi imediatamente explorada por adversários. Flávio Bolsonaro (PL-RJ) acusou Lula de “humilhar os garis” e afirmar que “não existe profissão de pobre”. Nikolas Ferreira (PL-MG) também criticou a declaração.
Grupos de garis responderam ao presidente. “Eu acho que o presidente desmereceu a nossa empresa e a nossa profissão. Essa é uma profissão que a gente tem orgulho”, afirmou em vídeo um dos trabalhadores. A polêmica chegou ao horário eleitoral na última terça-feira (1º), quando o programa de Flávio voltou a explorar a declaração. "Vergonha é um presidente da República diminuir a profissão de milhões de brasileiros que trabalham honestamente”.
Analistas avaliam impacto
Para Leandro Gabiati, cientista político e diretor da Dominium, gafes e atos falhos de Lula estão dentro da dinâmica esperada de uma disputa política. “Em uma campanha altamente polarizada e caracterizada por rejeições elevadas em ambas as candidaturas, é perfeitamente normal que a oposição tente explorar ao máximo qualquer erro ou fala ambígua”, diz.
Já para o cientista político Adriano Gianturco, do IBMec, o episódio da fala de Lula sobre os garis é o de maior impacto para a população. Segundo ele, temas como corrupção, déficit fiscal e até mesmo o debate sobre o Supremo Tribunal Federal têm limites de compreensão e acabam ficando restritos.
Gianturco também atribui os deslizes à falta de adaptação do presidente ao dinamismo das redes sociais e à própria impulsividade. “Você coloca o microfone na boca dele e ele não se controla. Ele fala o que sai. Ele não deve respeitar nenhum script que as assessorias passam para ele”, diz.
“É verdade que é por ter 80 anos também. Me parece que, guardadas as devidas proporções, é similar à campanha do [Joe] Biden”, opina Gianturco.
No mesmo sentido, Leonardo Barreto afirma ter estudado os eventos e o processo de conscientização sobre o desgaste de Biden e como isso acabou por inviabilizar a candidatura nos Estados Unidos. Ele aponta que a campanha do presidente brasileiro passa por um processo semelhante.
“Existe, sim, eu acho, uma quebra de confiança na capacidade dele”, afirma. “Aquele mito da supercapacidade dele de fazer o impossível vai ficando mais frágil, e isso vai cobrando um preço da campanha.”
O impacto se soma ao cansaço de boa parte do eleitorado e ao desgaste natural do incumbente. “Dentro desse concurso de rejeições que virou a eleição no Brasil, o Lula vai angariando antipatias e antipatias", pontua Barreto. "E aí vem aquela história, de repente, de dizer: ah, esse cara não tem mais capacidade de governar, esse cara não tem mais condição.”
Histórico de frases infelizes de Lula ao longo do mandato
Os episódios recentes se somam a um histórico de declarações de Lula que, ao longo do terceiro mandato, provocaram constrangimento, críticas ou obrigaram o governo a fazer esclarecimentos. Ao longo do primeiro semestre de 2026, foram levantadas pelo Ranking dos Políticos 19 controvérsias de Lula. Desde o início do terceiro mandato, são 170 falas com algum tipo de incorreção ou distração.
Em abril de 2023, ao comentar os ataques a uma creche em Blumenau, disse que havia “um problema de parafuso” em pessoas que cometem esse tipo de crime, gerando o repúdio de organizações de saúde mental.
Alguns meses depois, contrariou sua própria equipe econômica, ao declarar que dificilmente o governo cumpriria a meta de déficit zero.
Ao comparar a situação dos palestinos em Gaza ao Holocausto, em fevereiro de 2024, Lula provocou uma crise diplomática com Israel, que declarou o presidente brasileiro persona non grata. O presidente havia afirmado que “o que está acontecendo na Faixa de Gaza não existiu em nenhum outro momento histórico” e, em seguida, citou Hitler.
Não foi a única vez que Lula se referiu ao líder nazista. Em junho de 2026, durante agenda em Itajaí (SC), o petista afirmou que não se poderia permitir a “hegemonia branca sobre o restante do país” e, na sequência, disse: “Hitler tentou fazer isso e acabou do jeito que acabou”. A fala levou o PL a apresentar uma representação ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), acusando o presidente de discurso de ódio, racismo e propaganda eleitoral antecipada.
Mulheres: alvo frequente
Com as mulheres, as gafes são recorrentes. Ao relembrar, em abril de 2025, um encontro com a diretora-geral do FMI, Kristalina Georgieva, durante a cúpula do G7 de 2023, Lula a chamou de “uma mulherzinha”, que havia previsto crescimento de apenas 0,8% para o Brasil naquele ano.
Poucos meses depois, ao anunciar Gleisi Hoffmann na articulação política do governo, justificou a escolha dizendo que havia selecionado “uma mulher bonita” para melhorar a relação com o Congresso.
Já neste ano, ao defender a independência financeira das mulheres, Lula afirmou que aquelas que têm profissão não precisam depender do pai para comprar “um batom” ou “uma calcinha”. Em julho, ao comentar uma pesquisa sobre o aumento da violência contra mulheres depois de partidas de futebol, brincou que, “se o cara é corintiano, tudo bem”.
Lula já confundiu outros nomes, além do de Janja. Em fevereiro de 2026, durante entrevista, confundiu a ex-presidente Dilma Rousseff com a ex-deputada Irma Passoni (PT-SP).
O petista também escorregou ao falar sobre o combate à criminalidade. Ao sancionar a Lei Antifacção, em março, afirmou que queria fazer do Brasil um dos países “mais respeitados do mundo no crime organizado”.
O alinhamento ideológico do presidente também já chamou atenção. Ao discutir a guerra entre Rússia e Ucrânia, Lula afirmou que a decisão pelo conflito havia sido tomada “por dois países”. Sobre a Venezuela de Nicolás Maduro, disse que “o conceito de democracia é relativo”. Em junho, durante a viagem ao G7, disse também: “eu nunca fui esquerdista”.






