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Fraudes no INSS

Gaspar leva ofensiva contra Lulinha da CPMI para a campanha de Flávio

O pré-candidato Flávio Bolsonaro anunciou Alfredo Gaspar como vice no dia 5 de agosto de 2026. (Foto: Beto Barata/PL)

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A escolha do deputado Alfredo Gaspar (PL-AL) para vice na chapa de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) transforma o caso das fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) em um dos principais temas que o parlamentar deverá levar para a disputa presidencial. Relator da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) que investigou descontos indevidos em benefícios de aposentados e pensionistas, Gaspar chega à campanha com um relatório de mais de 4,3 mil páginas e uma série de acusações que atingem pessoas próximas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

A estratégia da campanha é aproveitar a experiência de Gaspar na investigação para apresentar ao eleitor as suspeitas levantadas durante a CPMI. Um dos nomes citados pela comissão foi o de José Ferreira da Silva, o Frei Chico, irmão de Lula e vice-presidente de um dos sindicatos investigados pela comissão. Frei Chico não foi investigado, mas era membro de uma entidade sindical que se tornou um dos alvos do colegiado na apuração sobre as fraudes que prejudicaram milhões de beneficiários da Previdência Social.

Segundo informações sobre a preparação da campanha, o parlamentar deve ter participação ativa nos programas eleitorais. Outro foco de atenção deve recair sobre as investigações envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, e o ex-chefe de gabinete de Lula, Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola. Os dois não são investigados pela PF em razão das fraudes nos benefícios dos aposentados, mas por suspeita de tráfico de influência no governo federal.

A escolha de Gaspar foi anunciada por Flávio Bolsonaro na quarta-feira (5). O parlamentar alagoano é ex-promotor de Justiça e já ocupou o cargo de secretário de Segurança Pública de Alagoas. A avaliação é de que seu perfil permite à chapa reforçar o discurso de combate à corrupção e, ao mesmo tempo, ampliar a presença da candidatura no Nordeste.

A Gazeta do Povo tentou contato com Gaspar para saber como ele pretende utilizar os pontos levantados pela CPMI durante a campanha, mas não obteve retorno até a publicação desta reportagem.

Relatório rejeitado virou ativo político da oposição

Independentemente de não ter sido aprovado na CPMI, o relatório de Gaspar deve ser utilizado como um material para embasar críticas ao filho do presidente Lula em razão do suposto tráfico de influência. O parecer foi rejeitado por 19 votos a 12 na madrugada de 28 de março, encerrando os trabalhos sem um relatório final aprovado pela comissão.

O documento reúne as conclusões do relator sobre as fraudes e recomendações de responsabilização. Gaspar pediu o indiciamento de 216 pessoas por crimes como corrupção ativa e passiva, organização criminosa, lavagem de dinheiro e estelionato. Entre os nomes citados estava Lulinha.

O relatório descreve as fraudes como resultado de falhas nos mecanismos de controle do INSS e aponta problemas na validação de autorizações, na fiscalização das entidades conveniadas e na inclusão de cobranças sem autorização dos beneficiários. O documento também afirma que aposentados e pensionistas foram os principais prejudicados.

Para Gaspar, porém, o alcance da investigação não se limitou à estrutura administrativa do INSS.

Lulinha é o principal alvo político

Fábio Luís Lula da Silva apareceu entre os nomes para os quais Gaspar pediu indiciamento no relatório da CPMI do INSS. O relator sustentou que havia elementos que deveriam ser aprofundados pelas autoridades e associou a atuação de Lulinha a suspeitas de intermediação e facilitação de acesso de empresários a integrantes da estrutura federal.

A conclusão de Gaspar foi mais dura do que a própria CPMI conseguiu formalmente aprovar. O relator pediu ainda que fosse solicitada à Justiça a prisão preventiva de Lulinha, pedido que não foi respaldado por uma decisão da comissão, já que o parecer acabou rejeitado.

Durante os trabalhos, Gaspar procurou afastar a ideia de que a condição de filho do presidente deveria impedir a investigação. Em entrevista à CNN Brasil, afirmou que Lulinha não seria poupado por ser filho de Lula. A defesa de Lulinha nega participação nas irregularidades investigadas.

A investigação, entretanto, ganhou novo capítulo fora da CPMI. A Polícia Federal passou a apurar Lulinha em três inquéritos autorizados pelo Supremo Tribunal Federal (STF), a partir de suspeitas relacionadas a possível utilização de influência para facilitar negócios de empresários junto a órgãos públicos. As apurações da PF ocorrem separadamente das conclusões do relatório parlamentar.

Pelas redes sociais, Gaspar tem procurado apresentar os novos desdobramentos das investigações como confirmação da necessidade de aprofundar as suspeitas levantadas durante a CPMI.

Em 8 de agosto, três dias depois de ser anunciado como vice de Flávio Bolsonaro, o deputado escreveu no X: "O Brasil não aguenta mais ver a blindagem de corruptos, nem a proteção ao filho de Lula, o Lulinha [...] Estamos esperando: quando a Polícia Federal vai bater à porta de Lulinha? Ele tem muito o que explicar."

A publicação mostra o tom que Gaspar deve levar para a campanha: usar sua atuação na CPMI para questionar a relação entre o entorno de Lula e os operadores investigados no esquema, entre eles o "Careca do INSS".

Quebras de sigilo deram munição à oposição

A ofensiva contra Lulinha ganhou força durante os trabalhos da CPMI com a aprovação de requerimentos de quebra de sigilos. Em fevereiro, Gaspar chegou a dirigir um recado a Lula depois de a comissão aprovar a quebra de sigilo bancário do filho do presidente.

"Lula, não fique com raiva do presidente, do relator e da oposição, não. A gente quer o bem do Brasil. Agora fique com raiva da sua base, fique com raiva da sua liderança porque eles erraram pela segunda vez na estratégia. Eles foram soberbos", disse o relator durante reunião da CPMI, no dia 26 de fevereiro de 2026.

A declaração foi dada após uma sessão marcada por disputa entre governistas e oposicionistas em torno das investigações.

O episódio pode exemplificar como será o papel que Gaspar poderá desempenhar na campanha. Antes mesmo de ser escolhido como vice, o deputado já havia assumido uma posição de confronto direto com a articulação política do governo dentro da CPMI.

Frei Chico aparece em outra frente da investigação

Outro nome politicamente sensível para a campanha é o de José Ferreira da Silva, o Frei Chico, irmão de Lula e dirigente do Sindicato Nacional dos Aposentados, Pensionistas e Idosos (Sindnapi).

Ele não foi investigado pela CPMI, mas o sindicato esteve no centro das investigações sobre descontos associativos realizados nos benefícios previdenciários. O relatório de Gaspar buscou estabelecer responsabilidades entre entidades, operadores financeiros, intermediários e agentes públicos envolvidos no sistema.

A presença de uma entidade sindical com ligações com o irmão de Lula entre as citadas na investigação permite à oposição ampliar o discurso para além de Lulinha. Isso, contudo, não significa que o relatório tenha estabelecido responsabilidade criminal do presidente Lula ou de seu irmão. Nenhum dos dois foi investigado pelas fraudes no INSS. Essa distinção será especialmente relevante durante a campanha.

Para a oposição, o episódio pode ser apresentado como um "primeiro round" de uma investigação que continua em outras instâncias. Para o governo, a rejeição do parecer é o principal argumento para questionar as conclusões políticas apresentadas por Gaspar. Essa disputa de narrativas deve migrar para o horário eleitoral.

O que os citados já disseram sobre as menções na CPMI e as investigações da PF

Quando os descontos associativos irregulares começaram a ser investigados, em abril de 2025, Frei Chico e o sindicato disseram que apoiavam a apuração da Polícia Federal e negaram envolvimento em irregularidades. "Espero que a Polícia Federal investigue toda a sacanagem no INSS, porque tenho certeza de que o nosso sindicato não deve nada”, disse o irmão de Lula naquela época.

Já o Sindnapi afirmou, por meio de nota divulgada naquele momento, que apoiava as investigações e destacou que a proteção dos direitos dos aposentados era prioridade e que as denúncias deveriam ser tratadas com seriedade e rigor. A entidade disse ainda que investigações transparentes eram fundamentais para corrigir eventuais falhas, identificar responsáveis e impedir que injustiças continuem a ocorrer.

Sobre o indiciamento pela CPMI, cujo relatório acabou sendo reprovado posteriormente, a defesa da época de Lulinha afirmou que não tinha relação direta ou indireta com os fatos investigados no colegiado e que havia interesses político-eleitorais na medida.

Já com relação aos inquéritos atuais da PF contra Lulinha, por suspeita de tráfico de influência no governo, a defesa considerou que há uso político-eleitoral dos instrumentos investigativos às vésperas da eleição. A defesa reclamou ainda da falta de acesso aos autos e criticou vazamentos "seletivos e criminosos".

Além disso, para os advogados de Lulinha, a multiplicação de pedidos de inquérito sobre o mesmo tipo de crime, sem que a PF tenha reunido “provas concretas até agora”, indicaria uma tentativa da corporação de testar diferentes frentes até encontrar algum elemento incriminador, prática que a defesa chamou de "pesca probatória".

Também investigado em razão do suposto tráfico de influência, Marcola, ex-assessor de Lula, afirmou que jamais praticou qualquer ato ilegal durante sua atuação na Presidência da República e criticou o tratamento dado ao caso. O ex-assessor disse ainda que um empréstimo particular citado nas investigações da PF está sendo apresentado como se configurasse irregularidade.

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