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Contradição

Governo Lula defende soberania diante dos EUA e perde território para facções dentro de casa

Lula Soberania
Lula ergue bandeira da soberania enquanto facções desafiam o Estado brasileiro. (Foto: André Borges/EFE)

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O discurso de defesa da soberania adotado pelo governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) embute um risco a ser explorado por adversários: a contradição entre a firmeza diante de pressões externas e a dificuldade do Estado em exercer autoridade sobre partes do próprio território nacional. Não é de hoje que as facções criminosas, o garimpo ilegal e outras atividades ilícitas desafiam o poder público dominando territórios, bairros e até cidades país afora.

A estratégia voltada ao tema soberania tem se consolidado como um dos principais eixos eleitorais de Lula desde o confronto com o tarifaço imposto pelos Estados Unidos, em julho do ano passado. Embora o conceito seja associado a ingerências internacionais, para o professor de Relações Internacionais da Fundação Armando Alvares Penteado (Faap) Vinícius Rodrigues, "um Estado soberano depende tanto da autonomia para definir suas políticas quanto da capacidade de exercer autoridade sobre todo o território nacional".

Seguindo a mesma tônica, o advogado Giuliano Miotto destaca que, quando organizações criminosas passam a controlar comunidades, restringir a circulação de pessoas, impor regras próprias e desafiar o poder público, a soberania do Estado é colocada em xeque.

"Facções criminosas exercem um enorme poder paralelo no Rio de Janeiro e em grandes centros urbanos, em especial no Nordeste, enquanto narcotraficantes e garimpeiros ilegais dominam rotas estratégicas na Amazônia e no Pará, locais onde inexiste a tal soberania do Estado brasileiro", diz.

Numa análise semelhante, o cientista político Leonardo Barreto, da consultoria Think Policy, aponta a vulnerabilidade no discurso governista que abre um flanco para a oposição. "Existe uma incongruência porque você não tem controle de boa parte do seu território já há bastante tempo."

Índices de segurança confirmam percepção

Dados consolidados recentes corroboram essa avaliação. Levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) divulgado em novembro de 2025 mostrou que facções criminosas já atuavam em 344 dos 772 municípios da Amazônia Legal, o equivalente a 45% da região — um avanço de 32% em relação ao estudo anterior.

No Rio de Janeiro, o Mapa Histórico dos Grupos Armados, publicado em dezembro de 2025 pelo Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos (Geni/UFF) e pelo Instituto Fogo Cruzado, estimou que cerca de 4 milhões de pessoas vivem em áreas sob controle ou influência de facções criminosas e milícias, com restrições ao direito de ir e vir.

Na faixa de fronteira, auditoria concluída pelo Tribunal de Contas da União (TCU) no final do ano passado apontou que o Brasil ainda não dispõe de uma política nacional plenamente consolidada para enfrentar organizações criminosas transnacionais e identificou falhas na execução do Programa de Proteção Integrada de Fronteiras.

Diante desse cenário, Barreto explica que, para o eleitor, a ideia de soberania é muito mais ameaçada "pelo crime e pelo terrorismo interno do que pelo debate tarifário". Nas três últimas rodadas nacionais da pesquisa eleitoral da BTG/Nexus, a violência e a criminalidade apareceram como a principal preocupação do eleitorado: foram citadas por 29% dos entrevistados no levantamento realizado entre 26 e 28 de junho, repetiram os mesmos 29% na rodada de 10 a 12 de julho e chegaram a 30% na pesquisa de 24 a 26 de julho, superando preocupações com a área da saúde pública (25%) e o problema da corrupção no país (22%).

Soberania "tirou governo das cordas"

Apesar da contradição latente, a estratégia do governo Lula rendeu, ao menos num primeiro momento, dividendos políticos ao Planalto. "Esse discurso resgatou o governo das cordas no pior momento", afirma o cientista político Leonardo Barreto.

A fórmula interrompeu o desgaste que vinha se acumulando desde o início de 2025, quando a avaliação positiva de Lula chegou à casa dos 25% em diferentes pesquisas, e contribuiu para a recuperação da popularidade ao longo desses últimos meses. Na série da Genial/Quaest, por exemplo, a avaliação positiva (com os coceitos "ótimo" e "bom") passou de 31% em abril para 36% no levantamento realizado entre 10 e 13 de julho, após o início da mais recente crise diplomática.

Ao transformar o confronto com os Estados Unidos em um embate entre um governo estrangeiro e o Brasil, Lula conseguiu deslocar o debate público para uma agenda mais favorável ao governo e reduzir, ainda que temporariamente, o desgaste interno com a criminalidade e a economia. "Você cria um inimigo externo numa estratégia muitíssimo manjada", diz Barreto.

"E começa a usar essa questão da soberania para ocultar o próprio fracasso", acrescenta ele. A eficácia, porém, pode ter chegado ao limite. Mesmo após sucessivas declarações de Lula sobre soberania em eventos públicos nos upltimos dias, o primeiro levantamento realizado integralmente após o anúncio da sobretaxa americana — o da BTG/Nexus, com entrevistas entre 24 e 26 de julho — mostrou Lula com 47% e Flávio Bolsonaro com 43% em um eventual segundo turno, praticamente o mesmo cenário observado nos levantamentos anteriores, o que significa um empate técnico dentro da margem de erro.

Em quem o discurso da soberania "cola"

Para Barreto, o discurso da soberania encontra maior ressonância entre o eleitorado tradicionalmente de esquerda, por dialogar com um histórico sentimento antiamericano e nacionalista. Já entre os eleitores de centro, o efeito tende a ser mais limitado.

"A ideia de um discurso nacionalista de proteção cria uma cortina de fumaça para uma série de outros problemas que você está enfrentando, como inflação, corrupção e criminalidade", afirma. Segundo ele, caberá à oposição recolocar esses temas no centro da campanha para alcançar o chamado swing voter — o pequeno contingente de eleitores indecisos ou suscetíveis a mudar de voto, estimado em cerca de 2% a 3% do eleitorado.

Vinícius Rodrigues acredita que o impacto eleitoral desse debate dependerá menos do conceito abstrato de soberania e mais da capacidade das campanhas de traduzi-lo para questões concretas do dia a dia. Na avaliação dele, a direita tem a oportunidade de explorar o principal "calcanhar de Aquiles" do governo ao associar soberania à segurança pública e à perda de controle do Estado sobre áreas dominadas pelo crime organizado.

"É a lógica do 'segurança, estúpido', numa referência ao famoso slogan da campanha de Bill Clinton ('é a economia, estúpido')", diz. Segundo o professor da Faap, quanto mais a oposição conseguir convencer o eleitor de que a maior ameaça à soberania está dentro do próprio país, menor tende a ser o impacto do discurso nacionalista do governo.

“Já a esquerda busca converter o tema em um apelo de nacionalismo econômico, mobilizando sua base e parte do eleitorado de centro em torno da defesa do Brasil diante de ingerências e ameaças externas", analisa ele. 

Leniência com o crime é troca política

Na avaliação do advogado Giuliano Miotto, essa estratégia ganha força porque dialoga com uma percepção concreta do eleitor e também com a sensação de leniência do governo diante do avanço do crime organizado. O debate foi potencializado pela reação do Planalto à classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas pelos Estados Unidos.

A medida, assinada pelo secretário de Estado Marco Rubio, entrou oficialmente em vigor em 5 de junho, após publicação no Federal Register. Lula reagiu afirmando que o combate às facções é atribuição exclusiva do Estado brasileiro e que a decisão norte-americana abre espaço para ingerência em assuntos internos do país. Sustentou ainda que as organizações não se enquadram no conceito de terrorismo internacional adotado pelos Estados Unidos, por terem finalidade essencialmente criminosa, e não motivações políticas ou ideológicas.

"O atual governo se recusa a enfrentar adequadamente o domínio do crime organizado", afirma Miotto. "E se esconde sob o escudo desse discurso barato soberanista por mera conveniência argumentativa", complementa. 

Leonardo Barreto vê justamente nesse episódio uma das principais fragilidades do discurso governista. "Quando o Lula fala da questão da soberania, o que mais incomoda ele é PCC e Comando Vermelho como entidade terrorista, mas é o que ele menos fala", diz.

Na avaliação do cientista político, o governo evita explorar esse tema porque "é aí que a incongruência aparece de uma maneira mais clara". Segundo ele, essa postura decorre de uma "estratégia de sobrevivência política" mais ampla. "Grupos criminosos, como milícias e facções do tráfico, exercem influência não apenas sobre o território, como também sobre o voto nas áreas sob seu domínio", afirma.

  • Metodologia da pesquisa citada (Genial/Quaest): 2.004 entrevistados pela Quaest entre os dias 10 e 13 de julho de 2026. A pesquisa foi contratada pela Genial Investimentos. Nível de confiança: 95%. Margem de erro: 2 pontos percentuais. Registro no TSE sob o nº BR-07181/2026.
  • Metodologia da pesquisa citada (BTG Pactual/Nexus): 2.004 entrevistados pela Nexus entre os dias 24 e 26 de julho de 2026, por meio de entrevistas telefônicas em todo o país. A pesquisa foi contratada pelo Banco BTG Pactual S.A.. Nível de confiança: 95%. Margem de erro: 2 pontos percentuais. Registro no TSE sob o nº BR-01489/2026.

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